“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

09
Mar 09
 

I  

 

Sim, estou sozinha.

Sim, hoje acredito que as coisas acabam e mudam.

Sim, estou desiludida.

Sim, quero ficar sozinha a carpir-me.

Quantas certezas o tempo nos desfaz?

Quantas?!

Estamos tão certos…tão certos de que.

 

II

 

Não tenho idade para sentir isto, aliás, não sei se é preciso ter idade.

Mas sinto que não podemos fechar os olhos e deixarmo-nos cair com a digna confiança de que alguém nos apanhará.

Não.

O "alguém" não te vai apanhar para sempre.

As coisas, as pessoas, a forma de as termos e vermos muda.

É com um trago a final, um sabor a:

"já não as sinto como imprescindíveis" que escrevo.

É estranho, sabes…

É estranho dizer isto, finalmente libertei-me!

Continuo cheia de pesares e tristezas mas acho que sim.

Sinto pena e saudade, apenas.

Sim, isso é o que sinto.

Acho que "o gostar" se foi perdendo.

Acho que me mataram "o gostar" mas se calhar é mesmo assim.

Não podemos gostar incondicionalmente para todo o sempre.

Contudo, não quero levar a crer que não dói.

Continua a doer mas de uma forma diferente.

Já passou.

Já não tenho medo de perder.

De desiludir.

Não existe.

Não há.

Não quero.

Não sei muito bem o que despoletou isto.

Se calhar até sei… mas não vale a pena voltar ao passado.

O passado é cristal frágil ao peito e intransponível ao acto…

 Sim, é verdade, quem nos perde jamais nos volta a ter de igual entrega.

As coisas podem parecer de igual forma, mas enganem-se a vocês próprios. 

O tempo acabará por vos abrir os olhos e injectar-vos a dor em dose dupla.

O mais engraçado é que quando algo cessa seria suposto deixar de doer.

Não é assim.

Pensámos no que poderíamos ter alterado.

Quando mudou, porque mudou…

E sim, há razão quando dizem que o sítio onde crescemos não muda.

São os mesmos barulhos, cheiros e árvores.

É tudo igual.

Nós é que realmente já não ficámos iguais na paisagem.

Nós é que nos perdemos.

Nós é que deixámos as raízes sem solo profundo para clamar.

 

III

 

Sinto um vazio enorme.

Sinto uma falta tão grande cá dentro.

Será que somos pessoas realmente diferentes?

Sinto-me a agonizar.

Como se precisasse de fazer um enorme esforço para respirar.

Como se o meu coração quisesse parar.

Pensei que já não estavas aqui.

Pelo menos, não tanto… mas acho que ainda pertences ao meu peito.

Gostava de te ter abraçado mais.

Gostava de ter parado mais vezes os meus olhos nos teus olhos.

Gostava de ter bebido mais do teu canto.

Gostava de te ter feito sorrir mais.

Gostava de te ter enxugado o pranto.

Gostava de me ter apercebido mais cedo que ainda estás cá dentro.

Gostava, realmente, que o tempo parasse.

Gostava que fosses mais feliz.

Gostava de ter ficado lá, a ver-te partir.

Gostava que tivesse chovido muito.

Muito mais do que chovia.

Perdi a força nos braços.

Nem o sangue se sustém no nariz.

Foi sempre contigo que me senti assim.

Foi sempre a nossa amizade que me causou esta espécie de sufoco, de perda de percepção quando te vais.

Não me apercebi, animicamente, da tua chegada.

Que passeávamos juntas.

Que dormias no quarto ao lado.

Pensei que já não havia nada a cristalizar.

Nada a superar.

Nada que me perturbasse como daquela vez.

Percebi que a vontade de chorar durante o filme, na rua e na paragem, não era apenas o desespero de uma vida que me mata, era também por ti.

Pelo que fica quando partes… porque sim, eu não me apercebi "cá dentro" de já cá estares.

Estares perto mas, com certezas de lágrimas antigas, soube da tua partida.

E sim, nós somos apenas um momento no tempo.

A dor do amanhã que nasce sob a minha impossibilidade e me atira numa rotina de deriva.

A deriva que me trucida.

O ter estado escassas horas com alguém que partilha muito do meu mundo e só me ter apercebido depois.

Depois de a realidade te ter colocado longe.

Dizem que há coisas que nunca mudam.

Não sei.

Ou talvez até saiba mas não possua ferramentas aptas para o descobrir.

Pareço ter uma corda áspera a prender-me a respiração.

Diz-me Senhor do Mundo, por que temos de viver às escuras?

Por que é tão dolorosa a passagem do tempo?

Por que fazes as horas encurtarem-se quando não as estamos a ver?

Gostava tanto de ser..

 

IV

 

Hoje as lágrimas são demasiado quentes.

Acho que nunca tinha chorado lágrimas tão quentes.

Há dias em que estamos demasiado quebráveis para sair à rua.

Há dias em que apenas o sacudir do vento me faz chorar.

E o motivo é tão obtuso como demasiado nítido.

Sim, eu estou a cair.

Gostava de ter caído.

De ter cessado.

De ter caído e cessado com um baque certo e finito.

Odeio estar na continuidade.

No interminável.

No indecidido.

Na queda.

 

V

 

 

Bolas, tenho saudades tuas e só me apercebi quando não estavas.

Estávamos faladoras.

Diurnas e afáveis.

Não houve dramatismos ou melancolias.

As coisas mudam mas talvez não como eu desenhava.

Talvez só mude aquilo que se vê.

Há coisas que persistem guardadas e imaculadas ao tempo.

Não sei se estou assim pelo vazio nato ou se por aquele que deixaste.

Às vezes pareces-me distante.

Uma estranha.

Uma colega com quem não tenho profundidade.

Demasiado longe… e, depois, quando vens na nossa raridade de encontros, é como se ao partires me levasses

contigo.

Ou pelo menos levasses o meu sentido de pertença a este sítio.

Depois…

Depois, é como se as pessoas que ficam não me conhecessem.

E o mundo à volta não fosse o mundo onde eu estava antes.

Como se, por uns instantes, ficasse no limbo.

É estranho porque quando falavas da tua vida sentia-me estranha.

Sentia-me desconhecida.

Sentia que falavas uma língua estrangeira.

Não sabia que vida era essa.

Que rotina te rodeava.

Não sabia o que sentir.

Não sabia se detestavas porque te fazia mal ou porque não gostavas.

Quando chegaste, ou até mesmo na antecedência, não ansiei como outrora.

Não tremi como outrora.

Nada que não esperasse.

Não esperava era este vazio.

Não esperava que ao ires, eu tivesse ficado sem saber onde estão os meus amigos, o meu mundo, o sítio onde

me sinto!

Foi bizarro.

Onde pertenço?

Quem gosta de mim?

Quem me preenche?

As pessoas são momentos no tempo, os sentimentos dão-lhes forma.

 

VI

 

Odeio aquilo em que a minha vida se transformou.

Tantos sítios.

Tantos sítios que descobrimos.

Tanto sítio que nunca vi porque o corpo passou dias e dias no quarto.

Dói saber que volto à rotina sem nada pelo que esperar.

É estranho saber que este curto reunir de momentos em que estiveste aqui, eu tenha feito coisas por mim.

Tenha vivido.

Não foi extraordinário mas foi inesperado.

E eu gosto de coisas detalhadas, secundárias e pequenas.

Sinto-me deslocada. 

VII 

 

Sim, talvez tenhas razão e eu seja realmente estranha, embora me perca no significado da palavra.

A fase do "amar com inocência".

A fase da protecção e pertença.

A fase da perda e mudança e esta, a fase do limbo.

As coisas do passado parecem-me tão distantes e surreais...

As certezas também são momentos no tempo.

Todo este sofrimento é também por mim.

Acho que me tenho andado a carpir.

Às vezes tenho muita pena de mim.

Sou fraca?

Temerária?

Não sei.

Tenho perdido a percepção das coisas.

Gostava de fazer coisas para me sentir em menor dose.

Gostava de cear com "aqueles".

Gostava de voltar à livraria, aquela.

Gostava de raptar mais flores.

Gostava de ter umas sapatilhas de ballet.

Gostava de poder ver música.

Gostava de deixar a impossibilidade a um canto junto às meias e aos lenços.

Gostava que me ensinassem muita e muita coisa.

Gostava que me matassem muitas das sedes que tenho.

Gostava de sentir outras coisas, que não a constante sensação de sufoco e apatia.

Gostava de me sentir calma, segura e em paz.

Há muitas coisas que gostava que acontecessem.

Eu não sou diferente de ninguém.

Procuro a felicidade.

Apenas a sinto como a sobranceira das dores.

É curta.

É deveras pequenina mas duradoura nas sinapses cerebrais.

Tal como a vida é a geradora da morte.

A felicidade é a mãe da tristeza.

A longa e constante tristeza que nos desflora sob muitos nomes.

A filha negra.

 

publicado por Ligeia Noire às 18:43
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