“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

05
Out 11


Bem, não me apetece muito divagar sobre a razão pela qual me deu para falar disto mas, há uns meses, talvez, anos mesmo, estava a ouvir um programa na rádio ou seria um documentário na dois?

Bem, não me lembro mas o certo é que hoje, por causa de certos e determinados assuntos, isto voltou e quis ser ruminado.

Nesse documentário, ou o raio, falavam de um livro que cheguei a apontar mas que ainda não comprei porque é muito caro, chamado Modernidade e Holocausto de Zygmunt Bauman.

Bem, como sou displicente ficou aqui durante meses e, como tudo o que me dou ao trabalho de apontar é porque é realmente importante, o caso voltou a bater-me à porta.

Desde os 14 anos que um dos meus assuntos preferidos é a Segunda Guerra Mundial, por diversos motivos mas antes de todos (e ao contrário do que a minha professora disse há dias, não acho que a nossa racionalidade/razão/ ou ocaralho a sete, tenha adormecido ou então andaríamos em coma profundo há alguns anos) pela simples razão de achar o ser humano naturalmente inclinado para o mal, tendo vindo a domesticar-se e domesticar-se, até ser assim, um coelhito branco.

E, olha-me que exemplo perfeito: o massacre de judeus e outras minorias como se fossem não-conformes numa qualquer bancada fabril.

E era natural para a sociedade vê-los assim, era a forma correcta de existir, assim como era natural uns séculos antes pensar-se que os negros não tinham alma.

As verdades são tão ténues não são?

O que era certo ontem, é agora hediondo, o que hoje é hediondo talvez amanhã volte a ser certo.

Seria fácil pensar que foi um momento de demência ou de adormecimento da razão, fácil porque se quer esquecer, se quer racionalizar à luz daquilo que a sociedade criou como o perfil de um Homem assertivo, uma sociedade esclarecida e de white picket fences munida.

E também seria giro dizer que aprendemos com os eventos do passado, assim numa toada de "não volta a acontecer, somos civilizados e temos tablets"

Era giro, mas não.

Até podemos deixar de comer animais, podemos viajar, enriquecermo-nos com outras culturas, apanhar a vacina anual da gripe, constituir uma rica família e até inventar mil e uma terapias psiquiátricas mas não deixaremos de ser violentos, agressivos, individualistas e de devorar o nosso próximo na fome porque somos assim, simples.

Por mais gravatas, diplomas e águas bentas que se nos conheçam.

Todinhos assim, e enquanto não o aceitarmos, enquanto pensarmos que, o problemazinho é apenas de alguns ou que é um defeito de fabrico, a cena piora, ah pois piora, é como epilepsia não medicada.

E poderia aqui introduzir o grande Michael Haneke mas está muito calor e não consigo concentrar-me em muitos assuntos de uma vez só.

Mas, prosseguindo, o primeiro livro que li na vida, a sério, foi o Diário de Anne Frank depois dele soube que gostava de ler.

Seguidamente, juntaram-se-lhe as aulas de História e as palavras novas que aprendi como: hegemonia, bélico, escapismo, dadaísmo, surrealismo e pufff.

Chegava a casa e, como não tinha livros, a não ser os escolares, era nesses que eu tentava abrir portas, janelas e alçapões.

E então tudo fazia sentido e a minha curiosidade por todo esse admirável mundo novo, aumentava e aumentava.

Se calhar foi por isso que quis ser nutricionista, pensava que a minha fascinação era somente pelo corpo humano mas acho que ela se estende ao lado de dentro, ao que ele provoca e cria.

O livro do meu irmão mais velho tratava do assunto mais detalhadamente do que o meu, (acho que vão alterando aquilo que querem que saibamos ao longo dos anos e nem damos por isso, vai tudo ficando cada vez mais vago, como num sonho cheio de nevoeiro e quando damos por ela… zás já estamos a repetir tudo outra vez.assim como das correntes artísticas… o Santa-Rita, da Guerra Civil espanhola, etc., etc., etc., tudo consequências, tudo escapismos, teoria do caos.

Bem, nesse livro havia uma imagem que ainda hoje recordo com clareza e que mais tarde vim a reconhecer num disco dos Christian Death, um forno crematório em que, do meio das cinzas, pendia um braço ossudo e comprido.

A princípio e como pessoa normal que sou, seja lá o que isso for, fiquei chocada mas, depois, percebi que a imagem me havia mesmerizado.

O fascínio pela humanidade, pelo cérebro humano, a complexidade labiríntica e a fatalidade da repetição.

E, como gente sã, sabemos perfeitamente que não há uma pessoa responsável, assim como não somos todos lineares e bonzinhos.

Vem daí o documentário onde se disse que, enquanto se continuar a pensar que o problema do holocausto foi local e não global, estamos malzitos… malzitos.

O problema de se pensar que "ah e tal aquilo aconteceu lá, naquele tempo, por causa daquele indivíduo, faz-se um tratado, condena-se x e y por crimes de guerra, fazemos uma homenagem à cena todos os anos e 'tá-se bem".

Era porreiro hã?

Pois era, mas já perdi a conta a líderes que massacram os seus povos ou que os deixam morrer à fome.

Assim como, a meros civis que "adormecidos momentaneamente" ou padecendo de doenças criadas à pressão e que, nós cidadãos pagantes de impostos estamos livres, matam ou torturam, ou vendem ou escravizam outros iguais a si.

Lembro-me assim de repente do cházinho de Jonestown.

É que isto, não são só guerras, não.

Se fossem, contar-se-iam pelos deditos mas, como disse acima, o problema não é local, é global.

O próximo pensamento a que tenho medo de chegar é o de que... e se não for um problema?

E se for natural e se tiver de ser assim e se for a condição natural do mundo?

Como podemos nós saber, se nos ensinaram que a regra é praticar o bem e que o mal é a puta cá do sítio?

Todavia, uma coisa é certa, o bem pode ser o intelectual laureado mas precisa de que o mal exista para poder subir ao trono.

Se calhar, e como tão bem o Edgar Allan Poe escreveu, somos meros títeres sujeitos aos quatro elementos e que andam daqui para ali, observados pelos celestes.

O ser humano não gosta do que não conhece, não gosta porque não pode controlar, sente-se impotente, fraco e procura sempre terreno sólido e seco para calcar.

Como os leprosos que se punham num barquito e se mandavam para longe da vista.

Como o filho de fulano, que é heroinómano, mas é ele e enquanto for ele, só temos é de mudar de passeio.

A espectacularidade de podermos ver e identificar, podermos construir um muro e afastarmo-nos do contágio deixa-me fascinada!

Achamos que jamais poderia acontecer o holocausto nos dias de hoje, negamos peremptoriamente mas porquê?

Julgamo-nos mais inteligentes, modernos, pacíficos, calejados?

E o mundo dos anos trinta e seguintes era o quê?

Cego, atrasado, violento?

Parece-me que a natureza humana persiste a mesma, sempre às voltinhas para morder a própria cauda.

E como podemos nós, ter adormecido só naquele tempo, se massacres se sucedem diante dos nossos olhos fechados, antes e depois da Segunda Guerra?

Arménia, Ruanda, Chechénia, e tantos que não sei e outros que não importam porque:

 

The death of one is a tragedy, the death of a million is just a statistic.

 

Diríamos, portanto, que o ser humano é naturalmente mau?

Não será bom nem mau, aliás, nem sei o que é que essas palavras significam.

Sei que o bem depende tanto do mal, quanto o mal depende do bem.

Somos todos capazes, tanto de fechar os olhos como de os abrir.

Será que quem mata alguém pode ser recuperado para a sociedade?

Só o facto de considerarmos que se "pode recuperar" já a estamos a reduzir a um acto, a um não-conforme, será mesmo um entre muitos?

Ou, será antes o facto, de que esses muitos também podem ser esse um?

E aí reside o medo.

Contra mim falo, recuperar alguém que comete um crime é giro de se dizer, se não tiver sido connosco porque se for... perseguir, matar, reduzir a pó o filho da puta... é o que faria.

É assim e, é por me conhecer assim, que não sei o que é o bem e o mal, é por isso que não excluo um ou outro porque me parece, que no mundo do impalpável não existem gavetas, linearidades, ou fronteiras, tudo se mescla, tudo se imiscui.

Na escola, aprendi que as tropas de D. Afonso Henriques derrotaram os mouros mas derrotaram como?

Eles acenavam com lencitos brancos?

Matavam, degolavam, chacinavam, assim como os cruzados, os povos bárbaros mas ah e tal, lá pelo século dezoito descobrimos a luz e achámos que se podia separar a cena, como o antes e depois dos programas de televisão.

Como se o que vai acontecendo ao longo dos séculos tivesse origem somente no meio e não na natureza e na vontade humana.

Queremos, mimalhamente, esquecer e sentirmo-nos aliviados, nada contra, sou praticante dessa religião.

Não ambiciono, nem quero mudar nada preciso, apenas, de pensar as coisas, preciso de questioná-las e escrevê-las.

Incomoda-me senti-las na minha cabeça, misturadas e alagadas, a fazer doer e não as escrever.

Colocá-las ordeiramente para que as perceba.

Mas, e o que é que é o "mal"?

É não agirmos de acordo com a moral?

Com as leis que advêm da vivencia em sociedade?

Mas e se a minha natureza não se coadunar com a moral e as leis estabelecidas?

 

Post Scriptum: Não. Era na rádio sim, na antena dois.

publicado por Ligeia Noire às 23:24

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