“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

27
Abr 12


Gosto de ir à varanda durante a noite, é tudo tão... inofensivo.

Quando sinto aquele impulso para escrever, o meu estômago transforma-se num borralho e preciso encontrar um canto escuro e solitário para onde possa espalhar todas estas brasas.

Não estava apaixonada mas gostava muito dos passeios que dávamos pelas ruas.

Tudo era tão sem tempo, belo, silencioso, calmo, fantasmagórico: o poder da noite.

Eu, por certo, lhe parecia mais bonita, mais poetizada, ele parecia-me o mesmo, o Cavaleiro-das-Terras-Brancas.

Agora, que olho para a rua deserta e para as rosas em flor, lembro-me de como me dava saúde conversar com ele.

Naquelas noites, foram sempre noites, tudo se tornava mais nítido, o meu olho esquerdo não conspirava em teias-de-aranha contra mim, as pessoas que passavam eram fantasmas, as casas eram ruínas abandonadas e riamos muito, tanto que pareceríamos, por certo, bem-aventurados.

Nunca me foram ofertadas tantas rosas, acho que só me ofereceram rosas uma vez, não me lembro do nome do rapaz, sei que era francês e amanteigado e da rosa...

Ah!

Lembro-me bem, escarlate e deliciosa como cerejas.

À parte disso, quem me oferece flores, frequentemente, é a minha mãe, que em si é uma flor (se não fosse verdade, pareceria ridículo escrevê-lo), rosas, dálias, japoneiras, copinhos… enfim, leva-mas ao quarto quando riem ao sol, quando não quero comer de manhã ou quando estou atafulhada nos livros.

E ele… ele ofereceu-me várias.

Ele, que me conheceu num corredor longo e que, curiosamente, me voltou a encontrar numa sala branca.

Foi do vestido, disse ele e do cabelo concluiu.

Uma das coisas boas de se vestir o que se é, é não perdermos tempo precioso separando o trigo do joio.

Antes mesmo de o cavalheiro abrir a boca, já lhe sabia muitas coisas e ele de mim, por certo.

E eu, que até gosto de brincar, desta vez recuei passos largos, como um caranguejo vermelho.

Os cabelos longos de espigas e a claridade de cetim dos olhos foram costurando e costurando rendas que eu não queria, de forma nenhuma, estragar por vestir.

E a lua, que brilhou tantas vezes por entre todas aquelas árvores ou as cascas que esmigalhava debaixo dos meus sapatos e também o vento que me secava o cabelo, criavam cenários favoráveis a que as vestisse.

Não eram apenas as mãos alvas, as cúmplices das rosas que ele me escondia atrás das costas, eram também os lábios que declamavam poemas enquanto caminhávamos.

Falávamos muito, falávamos de muita coisa, de assuntos mundanos, da terra dele, da minha, de coisas belas e também da "dor de pensar", do sono para sempre e da inutilidade de existir.

Um dia, também lhe falei de ti, não lhe disse que eras tu, assim como se fosse -tu cá, tu lá- mas falei-lhe de ti e ele sorriu como se sorri das estórias de príncipes e princesas, acho que era tarde, claro que era tarde, e chovia chuva fria.

Pelo meio de todas aquelas frases minhas, que não posso escrever, sorrateiramente e, depois, majestosamente, um gato, de luxuriante pelagem negra, salta do muro e caminha pelo átrio à nossa frente, desce as escadas e desaparece pelo jardim.

Eu sorri de olhos e boca, como sorrimos das existências secretas, da flor roxa e bravia que cresce no monte, longe de tudo mas que não deixa de ser flor roxa que cresce no monte.

Meu bom amigo, meu querido, jamais me senti tão lisonjeada e assaz cortejada, temo que me tenhas vestido, tu mesmo, a renda que teceste.


publicado por Ligeia Noire às 00:35

23
Abr 12


Eu, eu queria crescer muito alto como aquelas figuras que aparecem no início do videoclip da Beautiful people, assim bestial e insectívora para poder dobrar-me do alto da minha altura e ser capaz de desfazer o círculo, parar o volteio.

Poder apagar uma das caudas a este bicho que me estraçalha.

Fiquei triste assim, assim triste.

publicado por Ligeia Noire às 23:12
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21
Abr 12


I collect the light from the stars

When I close my crippled fingers
And when I draft my emaciated back
Confined in my gazebo of crystal,
It only shines for you

Come by, my father, look
Come and see my fall
For I collected all the light

Come by, my father, look
Come and see my fall
For I collected all the light

I tear of my skin and bow to thee humbly
Take my tongue, so you can always hear my worries
Take my ears, so I can hear your solace

 

Lyrics by Lantlôs/Letra de Lantlôs

publicado por Ligeia Noire às 00:28
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18
Abr 12


Não sei, foi tão estranho, aliás, está a ser tão estranho…

Ainda não sei explicar o que é.

A expressão, o rosto… é como se já nos tivéssemos conhecido, é como se ao olhar para ele se me extinguisse a raiva.

Como se já o conhecesse?

Não, não é isso… não sei, sei que reconheci alguma coisa.

Sei que algo em mim se coadunou com algo dele.

Se eu fosse um leucócito, mesmo nunca me tendo cruzado com ele por vasos ou capilares, jamais o trataria como um antigénio.

É como se nele, a presença do divino fosse menos distorcida.

A primeira vez não foi assim, estava escuro e eu estava com fomes vorazes de violência, o agora, o instante... era apenas para isso que me conduzia.

Não o vi bem, não me demorei no mundo dele, precipitada e erradamente, achei que se tratavam de coisas verdes e paz e harmonia e outras tolices.

Como fui infantil e cheia de mim.

Ele é tão sereno, tão demorado, mais subtil e delicado que a mais bela das mulheres.

Os olhos de longas pestanas, a forma e a expressão nele e dele são indissociáveis.

É como se ao olhá-lo, de repente, tudo fosse calma e mar à chuva.

Que bonito.

Que bonito, sim.


publicado por Ligeia Noire às 14:25
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16
Abr 12


Na Sexta-feira, quando entrei no expresso que, para variar, vinha cheio, sentei-me na fila do fundo.

O rapaz do lado ouvia música, o do outro, com a guitarra guardada no saco em cima do banco, ia tentando decorar o que se desenrolava num maço de papeis que pela estrutura se revelava numa peça de um qualquer dramaturgo.

À frente dele uma rapariga dormia de corpo espraiado e, na fila ao lado, um rapaz memorizava conceitos que me pareciam de linguagem jurídica mas que pelos vistos eram do domínio da filosofia, a mesma coisa, portanto.

Não uso perfume, não gosto.

Já me basta o cheiro do champô, do sabão e do gel de banho, no entanto, adoro aromas acres: o das pinhas, o dos malmequeres bravos, o da resina, o do álcool etílico, o da aguardente e quejandos.

O rapaz que lia a peça, exalava um odor resinoso e bravio que memorizei para mais tarde coleccionar.

Não lhe quis colher os traços, não importavam, importava, isso sim, a sensação que ele me proporcionava.

Gosto destas viagens porque enquanto estou em andamento, não estou em lugar algum, nem pertenço a estória nenhuma, estou no por acontecer.

É verdade, na cidade anterior, enquanto esperava e lia a revista do costume, vi o outro.

Há uns bons tempos que não lhe encontrava os olhos.

Continua em cima do escadote, acho que lhe fariam bem duas ou três cordas nos pulsos mas voltando ao assunto, tudo isto tinha, obviamente, de ser regado com notas musicais e as que se seguem estão em ininterrupto estado de fruição desde esse dia.

Não sei porquê, gosto da letra, gosto da voz, gosto da simplicidade e gosto de gostar dela sem razão, só porque me faz sentir bem.


You are a cancer spreading its wings

So selfishly unaware to the things

Your existence is doing to my well being


I feel my heart leaking

(You!) Start as a fissure, a crack in the skin

(You!) Become an ulcer permeating

If I had known all that you’d do

 

Would it hasten what I’d do to you?

I don't want to hate you, but how could I not?

You killed off so much I held dear in my heart


Take away every single pain

That infects each and every day

I will bury you once and for all

You're a monster, you're built to fall.


It's getting harder and harder to breathe

Choking on the same air as a walking disease

You are the thing that's killing me

From the inside out, let me be


I don't want to hate you,

But you killed off everything in my heart


Take away every single pain

That infects each and every day

I will bury you once and for all

You're a monster, you're built to fall


You've got your war against my head

Push that button, make it end

You've got your war against my head

Push that button, make it end


Take away every single pain

That infects each and every day

I will bury you once and for all

You're a monster, you're built to fall


Lyrics by Trivium/Letra dos Trivium


publicado por Ligeia Noire às 23:23
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12
Abr 12


Pára um bocadinho e respira.

Gosto tanto de ti.

Pára um pouco e fecha os olhos, pára um pouco e dorme.

É de ti que gosto muito.

Às vezes, fico contigo confinada e percebo-te os olhos turvos e destrinçados.

Desenha-los assim, para que tu próprio sejas confundido nessa brincadeira de ser quem és.

Estás engolido pela treva e tenho medo que abras a boca.

Tudo aquilo com que me rodeei é assim... assim triste e fusco como aquilo que sou.

E, depois, há aqueles que te abrem os braços e te raspam as linhas das mãos ou, aqueles outros, que nem sequer puxam a cortina e rasgam e rasgam e rasgam tudo e um mais que tudo que ficou por ficar.

Estás pendurado na cruzeta e há dias em que ficas bem, depois reciclas-te e continuas com os botões ligados e não paras e não paras, meu amor, para respirar.

E, mesmo quando se te ofertam para que sejam dispostos aos teus olhos, ao acabar o conto, são as tuas mãos que vejo levantadas e são elas que fecham a porta.

És tu e tu e, como um morcego, voltas a pendurar-te para que a noite te chegue aos olhos.

Há dias em que preciso escrever para não me pendurar também.

Quando encontrar alguém que não procure por nada, alago-me.

 

Who am I to disagree?

Travel the world and the seven seas

Everybody's looking for something


Some of them want to use you

Some of them want to get used by you

Some of them want to abuse you

Some of them want to be abused 


Lyrics by Eurythmics/Letra dos Eurythmics


publicado por Ligeia Noire às 20:15
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11
Abr 12


I’m not man enough to be human

but I’m trying to fit in

and I’m learning to fake it


Don’t ever meet their friends

It tells you too much

or not enough

or worse

exactly the wrong thing

every nuance

every detail

every movement

every smell

sound

phrase

the way she laughs

these are all the things that you either obsessively fetishize

or make yourself grow to love

although you are supposed to be done growing

she is still growing

its like a garden with two flowers

one just blooming and casting a shadow

just like yours

and then it becomes a struggle

of sunlight

or rain

or weeds

 

She and every she

is doomed to be your idea of her

she and every she

is doomed to be your idea of her


I’m not man enough to be human

but I’m trying to fit in

and I’m learning to fake it

but worse so,


back to the point

you are no longer the flower

and the sun

and most importantly the garden

or the gardener

a muse

your amusement

I am used

its all ruined if you meet their friends


she and every she

is doomed to be your idea of her

I’m not man enough to be human

but I’m trying to fit in

and I’m learning to fake it


you never wanted to share

your concept of your creation

with any other gods or worshippers

your book isn’t burned

it was never written

your book isn’t burned

it was never written


I’m not man enough to be human

but I’m trying to fit in

and I’m learning to fake it

 

Lyrics by Marilyn Manson (credits: MansonWiki)/Letra da autoria de Marilyn Manson (cortesia de: MansonWiki)

 

Post Scriptum: Flores.


publicado por Ligeia Noire às 18:10

10
Abr 12


Não havia muito espaço na minha mochila e apenas coloquei a agenda e uma caneta, instintivamente.

Tenho de ter sempre um caderno comigo.

Sempre que escrevo em páginas brancas e transponho para aqui, nada mais sou que uma tradutora.

Há coisas que não se podem ver sem roupa.

Era de noite, não há data nem hora mas há muito sangue e preciso de o verter para que este caderno medicamentoso não fique partido.

Há uns meses, durante a noite, num quarto sacro e branco:

Nunca pensei que conseguisse fazer isto, estar tão perto de tudo e, todavia, o mais longe que poderia conseguir.

Seria suposto serem apenas os meus lábios a abrirem-se em sorrisos e não, verem-se fechados e humedecidos, por gotejamentos em torrentes cálidas.

Acho que mais uma vez preferi enganar-me a suportar o insuportável, pensei ainda existir alguém que me conhecesse.

Estou sozinha, estive sozinha desde que me lembro de estar encostada ao muro no pátio da escola primária enquanto que, uma matulona, agreste e feia… (falha de tradução).

E dizia alto e a rir que...

Acho que nunca tive tanta consciência de estar sozinha como hoje.

Não é aquela solidão de que gosto, refiro-me à velha solidão de entendimento.

A solidão de saber que ninguém existe, ninguém me sabe e abrir os olhos para isto e matar a esperança é indescritível.

Estou rodeada de estrangeiros para quem o português é língua intransponível.

Estou no quarto de... (falha de tradução) apenas um andar, coisas que se esperavam, coisas que chegaram e que agora se espalham, como vidro esmigalhado e isso faz-me ter pena de mim.

Faz-me ter pena da rapariga pequena e cheia de retalhos que pensava que quando crescesse iria ser alguém e conseguir dar (falha de tradução) e isso… ninguém sabe.

Estou neste quarto e sinto pena de mim, estou neste quarto e a ela e à amizade que lhe sinto... não sei, perco-me toda.

Tudo isto foi perdido nos ontens que só podem ser ontens e que jamais sairão de ontem.

E, penso na flor-selvagem, também, e penso que há um ano lhe disse que tinha saudades e pensei e depositei e esperei que fosse ele, o alguém aonde os meus olhos fossem desaguar, era a esperança Supremo, era essa que me tinha à espera.

Ele disse que estava comigo, que gostava muito que… mas eu tive medo e hoje são tudo rosas esfaceladas, as rosas da rainha Isabel que aqui nunca chegaram a ser pão.

E fui eu Supremo, fui eu que não quis repetir, fui eu que saí, fui eu que fugi e me escondi debaixo de pedregulhos musgosos.

Jamais pensei ter coragem para fazer o que fiz, jamais sonhei que a minha força de vontade fosse tamanha, não porque o ame mas porque era ele a minha última corda para saltar, a última esperança de me ver derrotada.

Tudo se acabou em manhãs de dias de nevoeiro e, hoje, estou aqui, neste quarto, à espera dela e da anestesia para poder descansar um pouco de todas estas pequenas agulhas que me cobrem as costas.

Debaixo dos meus olhos toda a paisagem é triste, silenciosa e impossível.


publicado por Ligeia Noire às 14:02

05
Abr 12


Doem-me as pernas.

Não gosto de manhãs, o que já não é novidade e, aproveito para dormi-las, quando posso.

No entanto, é durante este período que costumo lembrar-me mais facilmente dos pesadelos.

E têm-me atormentado de sobremaneira, ultimamente… talvez seja por isso que acordei triste.

Gostava de ajudar a esfarripar o quinteiro e a preparar a sala mas tenho coisas e mais coisas amontoadas na mesinha-de-cabeceira que se vão fazendo ao ritmo da culpa.

Aproveito para aliviar os cantos do cérebro, colocando a cabeça no meio das páginas destes novos-velhos livros.

Como podes imaginar, não consegui abster-me de ler um e escolhi aquele para onde os meus olhos se têm aconchegado.

A minha pena negra e branca já se escondeu dentro dele mas nem sei para quê, li-o numa hora ou talvez em menos tempo, não sei precisar.

Caricatamente ao que está ilustrado na capa, eu não meço o tempo mas nem a personagem o faz, é o nada Supremo, é a queda a imperar.

Como gosto da forma como esta mulher escreve, não preciso voltar atrás e parar, só se for para suster os assomos de desespero.

Tenho medo.

Nunca é demais dizer que as coisas importantes têm configurações simples.

A verdade é.

A beleza é.

Estou muito triste.

Hoje chove friamente nas japoneiras brancas e nos lírios roxos que irão aformosear a mesa de linho e receber a premissa de amor eterno. 

 

Eu Penso


Actualmente, não me resta muita esperança. Dantes, procurava, mexia-me a todo o instante. Esperava alguma coisa.

O quê? Não sabia. Mas pensava que a vida não podia ser o que era, ou seja, o mesmo que nada. A vida devia ser alguma coisa e eu esperava que essa coisa chegasse, procurava-a.

Agora penso que não há nada por que esperar, então, fico no meu quarto, sentado numa cadeira, não faço nada.

Penso que existe uma vida lá fora, mas nessa vida nada se passa. Pelo menos para mim.

Quanto aos outros, talvez se passe alguma coisa, é possível, isso já não me interessa mais.

Eu estou lá, sentado numa cadeira, em minha casa. Sonho um pouco, na realidade não, não verdadeiramente. Com o que poderia eu sonhar? Estou lá sentado e mais nada. Não posso dizer que esteja bem, não é pelo meu bem-estar que lá fico, pelo contrário.

Penso que não faço nada bem em ficar lá sentado e que deveria afinal, forçosamente, levantar-me mais tarde. Sinto um vago mal-estar em ficar lá sentado, sem fazer nada durante horas, ou dias, não sei. Mas não encontro nenhuma razão para me levantar e fazer o que quer que seja. Não vejo nada, mas mesmo nada, que pudesse fazer.

 

In Ontem de Agota Kristof


publicado por Ligeia Noire às 23:25
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