“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

29
Mai 13

 

Bow down in position against the polished steel


Não, não retornarei ao bondage e quejandos, se bem que é tudo farinha do mesmo saco.

A historia do Year Zero dos Nine Inch Nails é a História do rumo que a humanidade leva.

Estás a ver o Metrópolis, Matrix, The Island, George Orwell, Blade Runner, enfim a porcaria do totalitarismo et cetera e tal?

Ora.

Faz-me lembrar um pouco do livro A Trança de Inês também... quem podia ou não procriar e mais uma dúzia de filmes em que se controla o que comes, em que se elimina o sexo, em que nos vestimos com fardas e em que se paga multa por dizer palavrões, o que seria de mim.

Rio a preceito.

Estaremos muito longe dessa realidade ou nunca saimos dela?

 

I pushed a button and elected him to office and a...

He pushed a button and it dropped a bomb

You pushed a button and could watch it on the television

Those motherfuckers didn't last too long ha ha

I'm sick of hearing about the haves and the have nots

Have some personal accountability

The biggest problem with the way that we've been doing things is

The more we let you have the less that I'll be keeping for me

 

Well I used to stand for something

Now I'm on my hands and knees

Traded in my God for this one

He signs his name with a Capital G

 

Don't give a shit about the temperature in Guatemala

Don't really see what all the fuss is about

Ain't going to worry about no future generations and

I'm sure somebody's going to figure it out

Don't try to tell how some power can corrupt a person

You haven't had enough to know what it's like

You're only angry 'cause you wish you were in my position

Now nod your head because you know that I'm right—all right!

 

Well I used to stand for something

But forgot what that could be

There's a lot of me inside you

Maybe you're afraid to see

 

Well I used to stand for something

Now I'm on my hands and knees

Traded in my God for this one

He signs his name with a Capital G


Capital G escrita pelos N.I.N.


Álbum conceptual sobre o esclavagismo moderno, sobre as mentiras em que vivemos, a hipocrisia e a periculosidade das religiões, as guerras entre facções, no mesmo pais e que são financiadas por nações ocidentais, de supostos tementes a deus e morais cidadãos.

O dinheiro, o dinheiro, a corrupção, os ismos, a lavagem cerebral constante, sob o signo do medo que permite o controlo, cada vez maior, da individualidade.

A tristeza desmedida daqueles que percebem a inutilidade de esbracejar, a inutilidade de viver.

O inimigo que muda todos os dias, ao ritmo das prioridades monetárias e estratégicas.

 

I should have listened to her

So hard to keep control

We kept on eating but our

Bloated bellies still not full

She gave us all she had but

We went and took some more

Can't seem to shut her legs our

Mother Nature is a whore

 

I got my propaganda, I got revisionism

I got my violence in high def ultra-realism

All a part of this great nation

I got my fist, I got my plan, I got survivalism

 

Hypnotic sound of sirens

Echoing through the street

The cocking of the rifles

The marching of the feet

You see your world on fire

Don't try to act surprised

We did just what you told us

Lost our faith along the way and found ourselves believing your lies

 

I got my propaganda, I got revisionism

I got my violence in high def ultra-realism

All a part of this great nation

I got my fist, I got my plan, I got survivalism

 

All bruised and broken, bleeding

She asks to take my hand

I turn just keep on walking

What, you'd do the same thing in the circumstance, I'm sure you'll understand

 

I got my propaganda, I got revisionism

I got my violence in high-def ultra-realism

All a part of this great nation

I got my fist, I got my plan, I got survivalism


Survivalism escrita pelos N.I.N.


A HBO queria fazer uma mini-série baseada no álbum, não sei como isso anda... curiosamente, depois deste hiato, que ninguém acreditou que fosse mais do que isso, um hiato, foi anunciado já existir um álbum pronto a sair ainda este ano e com a participação do grande Atticus Ross.

É estranho ver os NIN numa editora discográfica, especialmente aquela mas acho que, no final de contas, todos nos rendemos às evidências, não podemos fugir à máquina.

Já andam por aí as habituais acusações de vendido e hipócrita.

O que se entende, se pensarmos naquele Trent banhado em lama, extremamente sexual, que partia instrumentos, se espolinhava e se comportava hereticamente perante quem quer que fosse.

O gajo que tinha a liberdade de escolher entre ter ou não as veias cheias de álcool, heroína ou coca e que berrava: pigs get, what pigs deserve.

Claro que sinto saudades, principalmente porque nos rouba a esperança de fugir à máquina, porque nos diz que, pelo menos por fora, todos acabamos por conformar-nos e curvar-nos perante o aço polido .

Há três coisas inimigas do que se foda tudo: casamentos, filhos e idade.

Não há excepção, o pessoal do rock se está confortável e tem a vida organizada, não pode continuar por aí a compor cenas como Head like a hole/ Black as your soul/ I'd rather die/ than give you control porque soa deslocado ou pior, falso.

Há sempre alguma verdade no: Foda-se quando estava no esgoto e a sentir-se uma nulidade é que lhe dava a sério.


(...) but I guess it’s the story of being an artist in the way that you have to...or you’re born that way that you want to lose yourself entire in what you’re doing, you’re willing for one single successful note... you know you’re willing to give up everything for that particular moment in time. Just to be able to be reborn through a note or through a line of words .
And the search for that can be extremely haunting for a lot of people and I guess that’s one of the reasons that a lot of people end up being ...you know... mentally ill or end up committing suicide or doing too many drugs or alcohol just to...
Numb the sensitivity that comes with being an artist..
You have to keep your ears and your eyes open, all your senses open to all the possible stuff that goes on around you, you’re like a sponge sucking in all the possible information and when you’re filled with that it just bleeds out of you.

And it hopefully bleeds out in a way that you can be... it can be a cathartic process for the artist and then it can be hopefully very cathartic for the person who sees or hears the piece of art. It’s not something you’re trying to do it’s something you have to do to be able to exist I guess. That’s the reason why I do music it’s... that’s how I started; I didn’t know how to cope with the world... and then I found an instrument and through that I realized that I’m able to cope with the world and its evils a bit better through writing songs. 


Ville Valo na entrevista do Digital Versatile Doom


Estes gajos não são mais do que ninguém, é por isso que detesto dizer que sou fã de alguém, odeio idolatria, sou apreciadora daquilo que fazem, admiradora, mas são tão humanos como nós, tão filhos da puta como nós, tão doces como a vizinha do lado.

Quantas vezes não vimos estes gajos a implicar com os técnicos de luz, de som, os fãs e até uns com os outros, já toda a gente conhece o feitio de merda e o egocentrismo dos artistas.

Mas ainda há por aí criancinhas que acham que eles têm de permanecer imutáveis, perfeitos e que lhes devem alguma coisa, eles dão-nos música, nós damos-lhe dinheiro: fim da linha.

Não preciso saber se ele fodeu x ou y, se gosta de morangos, se gosta de comédias românticas ou se ninguém os atura nos bastidores.

Claro que quando são artistas que guardas junto ao peito, o interesse acaba por resvalar para o lado de dentro, para a pessoa que se esconde nas letras e nos sons mas eles não te devem nada, se descobres coisas com as quais não concordas (especialmente ele, que fez o que fez até agora pela indústria musical, indústria musical, porcaria de contra-senso) o problema é teu.

Um jornalista perguntou há uns anos a opinião do Valo sobre esta cena dos músicos fazerem DVDs biográficos, ou mostrarem o seu dia-a-dia, acho que foi relativamente ao Some Kind Of Monster, ele disse que não era algo que fizesse mas que cada um sabe de si.

No entanto, ao fazerem isso estão a permitir que as pessoas entrem na intimidade deles e que seja desmistificado todo um imaginário que, invariavelmente, se vai criando à volta deles e daquilo que eles escrevem nas suas canções.

Não há mal nenhum nesse tipo de romantismos porque, mesmo que não passem de irrealidades, a probabilidade de convivermos com essas pessoas e descobrirmos que, afinal eles não têm nada de oculto ou de idealismo ou de ódio ao conformismo e que, na verdade, são uns preguiçosos, egocêntricos, bêbados e comedores de dinheiro e raparigas de peito arrebitado, é mínima.

A fantasia, aqui, justifica-se sempre, não quero saber o que fazem, nem como fazem, eu tenho, eu compus aquela imagem deles e pronto.

É quase como roubar um chupa-chupa a uma criança por prazer, maldade hã?

Acho que foi o Manson que contou ter sido levado ao concerto dos Kiss pelo pai quando era adolescente. Sendo ele um fanático pelo Gene Simmons estava mais do que extasiado, o que se desfez completamente quando o conheceu e percebeu que ele era um completo idiota.

Sim, já sei, quando a linha se desenrola no campo da música nunca mais me calo.

Homens inteligentes sabem quando é tempo de se camuflarem e minarem por dentro, tenho a certeza que o homem do teledisco da March Of The Pigs vestido de calças de vinil vermelhas e vontade de foder o mundo está ali dentro e sempre estará.

Aliás, eu sou das que gostou bastante do With Teeth e do Year Zero e das que ficou muito orgulhosa quando subiu ao palco com o Atticus para receber o Óscar, mesmo que essa merda seja o epíteto da máquina e não valha a ponta de um corno.


What?

You’d do the same thing in the circumstance, I'm sure you'll understand.


We do babe, moving on…


O Year Zero é deliciosamente dançável e curiosamente orgânico, no sentido carnal da cena, só o Trent consegue tirar da electrónica sangue suficiente para que esta transmita calor.

 

They're starting to open up the sky

They're starting to reach down through

And it feels like we're living in that split-second

Of a car crash

And time is slowing down

And if we only had a little more time

And this time

Is all there is

Do you remember the time we

And all the times we

And should have

And were going to

I know

And I know you remember

How we could justify it all

And we knew better

In our hearts we knew better

And we told ourselves it didn't matter

And we chose to continue

And none of that matters anymore

In the hour of our twilight

And soon it will be all said and done

And we will all be back together as one

If we will continue at all

 

Shame on us

Doomed from the start

May God have mercy

On our dirty little hearts

Shame on us

For all we've done

And all we ever were

Just zeros and ones

 

And you never get away

And you never get to take the easy way

And all of this is a consequence

Brought on by our own hand

If you believe in that sort of thing

And did you ever really find

When you closed your eyes

Any place that was still

And at peace

And I guess I just wanted to tell you

As the light starts to fade

That you are the reason

That I am not afraid

And I guess I just wanted to mention

As the heavens will fall

We will be together soon if we

Will be anything at all

 

Shame on us

Doomed from the start

May God have mercy

On our dirty little hearts

Shame on us

For all we've done

And all we ever were

Just zeros and ones


Zero-Sum escrita pelos N.I.N.




O álbum termina com esperança, há sempre uma réstia dela, uma verdade maior, uma rebelião, nem que seja na nossa cabeça.

Falar do Reznor é falar da gente que descobri por causa dele : Danny Lohner, o Finck, o Chris Vrenna, o Manson, o Manson, que não descobri por causa dele... na verdade, foi o oposto, mas do lado de um outro Manson, o irmão mais novo, o eterno Peter Pan.

De todo um grupo de gente criativa, que mudou a música e que nos abriu um guarda-chuva, guarda-chuva esse, que continua a proteger-nos até hoje, um guarda-chuva negro, opaco.


publicado por Ligeia Noire às 13:10

27
Mai 13


I


Fui convidada para ser dama-de-honor há uns meses, serei dama-de-honor daqui a uns meses, o vestido está finalmente pronto, gosto do vestido, gosto muito dela e sabia que seria a primeira a casar porque assim o descobrimos há uns anos na mesa da cozinha.

Enquanto escrevo, corre o Madison County na televisão pela décima vez, talvez.

Está no momento em que a realidade bate à porta, ela começa a perguntar-lhe como funciona a cena dele com as mulheres à volta do mundo, que ele não precisa de ninguém, ela é que vai ficar ali, a sentir-se culpada porque é a casada e ele é que é o cidadão do mundo, ele não quer precisar dela, ela diz que ele é um hipócrita.

Não sabia já ela que iria ser assim, não sabia já ela que ele teria de ir, que as paixões não são eternas porque senão não eram paixões?

Por que queremos possuir o instante, estender o momento, ou melhor, por que razão é momentânea a felicidade?

Faz-me lembrar as borboletas que pousavam nas flores dos mentrastos quando eu era pequena.

Eu tentava agarrá-las mas se apanhasse alguma, se lhe tocasse com os dedos e apertasse as asas, ela deixava de voar, seremos assim tão malditos que estamos condenados a ver o anjo da salvação do outro lado da escarpa mas tentar chegar-lhe significa a queda no abismo?

Mas que porcaria de vida com sentido tão perverso.

 

II


Aquele momento em que te está a apetecer explodir o crânio e te aparece do nada, qual cogumelo, um conhecido com o qual tens de lidar momentaneamente.

Inspiras, gretas um sorriso e falas sem te ouvires.

Às vezes, sou rude, há outras em que me consigo controlar e desafiar a gravidade porque sei que assim é mais fácil deixarem-me em paz com as perguntas inúteis e as conversas de absolvição e soluções de quem vive pela medida equilibrada.

Chega-se a um ponto em que já não se consegue voltar atrás, temos é de ter cuidado e astúcia suficientes para nos lembrarmos dos detalhes que usámos, depois… depois as mentiras vão ganhando vida e história e, uma vez maturadas, até nós acreditamos nelas.

E deixa de ser difícil, deixam de ser indigestas.

Afinal de contas é tudo relativo, tudo é perspectiva.

Não quero comer, quero ficar aqui, no escuro, sem ter de lidar com ninguém, hoje não posso.

Deixem-se estar, façam de conta que fui viajar e ainda não voltei, eu juro que não me importo.

A minha avó materna está mal, pouco me importa, sempre foi uma cabra para os meus pais portanto se agora tem alguma bondade é apenas pelo medo da morte.

Se morrer, usar preto não me irá ser problemático.

Chove, está frio, ontem foi ontem, hoje parece ontem também e estou fodida.

O alemão pediu que o comessem, eu só peço que se afastem e se calem.

Pára, respira, pensa em mãos rugosas a fazerem-te tranças à beira do rio na Carélia.

Costelas elevam-se um pouco, corpo distende-se.

Serenidade induzida.

Obrigada.


III

 

Ele pergunta-me se estou bem e eu minto porque assim não há mais perguntas e ele não se preocupa porque eu não quero que ele se preocupe.

Ele desconfia sempre quando digo que estou normal… não gosto de lhe mentir portanto, opto pelo meio-termo, falámos da chuva de lá e da chuva que começou aqui.


if you smile, there'll be some sunshine for me.


Se fosse qualquer outra pessoa a dizer isto… tu sabes… não atingiria qualquer propósito mas sendo ele, eu abro os bolsos e escondo as mãos de agressão e sorrio sem querer, depois apetece-me fechar os olhos, esquecer os haves' e os 'have nots', como diz o Reznor, e dizer-lhe o quanto estou morta e o quanto dói estar morta porque não estou realmente morta e que, quando não dói, ainda é pior porque não sinto porra nenhuma e portanto apetece-me continuar no credo dos Nine Inch Nails e castigar-me para ver se sinto porque focar-me na dor ajuda a respirar e é a única coisa que não é distorcida por olhos, por canais de televisão, por cultos, por receptáculos e já sabemos o resto de cor e salteado porque nunca mudou, não é verdade?

Mas não digo e continuo a sorrir para que no meio de toda a chuva e frio e multitude e grandiosidade e arquitectura dalinista que possam estar a rodeá-lo, seja sempre quente e solarengo no instante em que ele meter as mãos aos bolsos e fechar os olhos.

 

publicado por Ligeia Noire às 23:47
música: “Dauðalogn” dos Sigur Rós
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26
Mai 13



Elle s'en ira rejoindre les étoiles.




publicado por Ligeia Noire às 12:36
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24
Mai 13


Acontece que nós, seres humanos, felizmente ou infelizmente - não sei - somos da família dos primatas poligâmicos. Isto é, somos naturalmente, biologicamente, instintivamente poligâmicos. A ararinha do Brasil, o pombo, o joão-de-barro são naturalmente monogâmicos, mas nós não! Nós somos poligâmicos! Em outras palavras, o casamento monogâmico, construção da cultura judaico-cristã, é, para o homo sapiens, absolutamente antinatural!

Tanto é assim que quando nos casamos, seja no civil, seja no religioso, temos que prometer fidelidade, e diante de testemunhas. Prometemos porque ser fiel não é natural! Alguém precisa prometer que vai beber água todos os dias ou que vai comer quando sentir fome? Não. Ninguém duvida que o faremos!


In Vivamvs: Instituto Interdisciplinar para Saúde Mental, blog de Graça Oliveira

 

Hoje acordei com o coração a ouvir-se por fora dos cobertores mais um pesadelo, presumo.

Não consigo conceber, aliás até me assusta, o comprometer-me com alguém, soa-me sempre a estar presa de algum modo, limitada, circunscrita, sujeita a um determinado comportamento.

Sempre detestei responsabilidade, o meu emprego ideal seria aquele incógnito do staff de uma banda, exactamente, aquele tipo que anda no palco a ligar cabos e a arruma-los no final do concerto, de sonho diria.

O mais cómico disto tudo, é que sempre fui a menina responsável, a que tomava conta dos outros.

E porquê?

Por não falar muito? Por ter boas notas? Por me pôr a ler colunas de revistas cor-de-rosa aos sete anos, na rodoviária, para as velhotas?

Foda-se, as pessoas são tão facilmente ludibriáveis.

O que mais gosto nestes rituais, os de galanteio digo, é exactamente isso, a corte, sempre o estágio primeiro, a sedução, o jogo, o desejo, o nunca saberem o suficiente de mim e eu não querer saber o suficiente dele/as, o fantasiar com o que está para lá dos olhos, a passionalidade, o que não se controla, o enquanto jorra é porque jorra naturalmente, depois tudo o que está para lá disso não tem interesse, absolutamente nenhum, para mim.

Aliás, não é mais do que um repelente.

A individualidade não funciona a dois, claro que consigo esquecer-me disso tudo durante o período passional, enquanto dura o feitiço, no entanto, todo o socialismo que vem a seguir, é-me impossível.

O ser humano é enredado, já se sabe, se eu disser que sou quatro pessoas, como já o fiz, não me refiro apenas a mim mas sim ao facto de que, enquanto ser humano, assim o sou.

Não quer dizer que esteja a dissimular a minha imagem de acordo com a pessoa que está a olhar para mim, estou apenas a adaptá-la.

Usando a domino.

Há a escolhida para os amigos, para a família, para os amantes, et cetera e tal.

Todas estas meninas são fieis, são minhas e sou eu, mas não podem viver juntas aos olhos alheios, não as posso reunir à mesa, qual Santíssima Trindade.

E, às vezes, penso se quero mesmo que isso aconteça, que haja alguém a quem possa mostrar o negro e o carmesim, o sorriso escarninho e as lágrimas quentes e, sendo possível, só poderia ser um amigo, nunca um amante porque desses, não quero saber como lavam os dentes, ou vê-los a escolherem a roupa, ou ir às compras com eles, andar de mão dada, respeitar datas, usar alianças, apresentar a x e y ou ter de, o ter de mata-me!

Não e não e não.

Eu gosto do aparece porque quer, do apeteceu-me, ou o quero e quero agora, do não saber muito bem se comportamentos extremos ou romantismos de cavaleiro medieval se revolvem por detrás daqueles olhos.

A paixão e o amor ficam tão bem misturados com o por desvelar e a vontade e nós sabemos que tudo o que abandona a escuridão e o segredo da noite é feio, chato, obrigacional e vendido e, na verdade, não, não quero que exista.


publicado por Ligeia Noire às 14:50
música: "Physical" versão dos N.I.N. do original de Adam & Ants
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22
Mai 13


Estava a gostar das conversas que tinha com ele, gajo interessante, para onde é que ele foi?

Se calhar foi porque lhe disse que não achava piada ao BD²S²M, piada é pouco, acho ridículo, se calhar ainda mais que ridículo mas isso daria uma longa conversa, conversa essa que não me apetece ter agora. Pior, é quando se vê esta cena associada a certas subculturas só porque há o negro em comum, nada mais errado quando nessa mesma subcultura a liberdade de dois seres se olharem ao mesmo nível é imprescindível, pronto bacano, não posso fazer nada, como diria o Lord de terras nenhumas: práticas hospitalares…

Disse-lhe que, às vezes, me odeio à la Cobain e que preciso de me castigar, se calhar foi isso que o assustou, caricato, se calhar tomou-me a pulsação e pensou que era uma cortadora de pulsos ou alguma merda similar, claro, que se me conhecesse saberia que alguém que desmaia até em mesas de café se a conversa desalinha para essas bandas, ou que nem sequer consegue medir a tensão arterial sem cair para o lado, só poderia estar a falar de castigos no sentido primário da palavra.

Era outra coisa sim, deixa-me explicar.

Há dias em que está muito frio, então uso apenas uma blusa, está a chover muito, não abro o guarda-chuva (às vezes faço-o por prazer), depois há as ocasionais intoxicações até não saber onde estou, ou a conquista e o envolvimento com pessoas de quem não gosto e, às vezes, nem sequer desejo.

Há, também, as ocasionais violências controladas em comportamentos rotineiros, nada de mortes pequenas e imundícies.

O que mais prezo em mim é o cabelo, prezar é dizer pouco mas se falarmos de castigos, este estaria no top five, há um ano, mais ou menos, as coisas andaram um pouco mais negras do que o costume, saúde principalmente e eu precisava de uma fresta, estás a ver aquela cena que se faz nos filmes quando não há tempo, nem hospitais e se precisa de atalhar a respiração e vai logo com uma bic?

Ora aí está, moi estava a entrar em ebulição, demasiados pecados, madeira demasiado pesada, a da cruz que o Supremo me pôs às costas digo, e lá vem o castigo.

Casa-de-banho, tesouras, cabelo seco, preso e penteado, para ofender mais, e zás!

Lá ficou pelo meio das costas, para ti pode não parecer castigo mas se me conhecesses saberias o quanto de desconsideração este acto estava pejado.

Bem, na verdade, senti-me bem, mais ou menos como se tivesse matado, como se eu fosse duas e estivesse a rir de mim mesma, que se fodesse, é o lema, porque essa ira permitiu-me respirar.

Eram estes os castigos de que falava, limpos e requintados.

E, agora, nem de propósito, um docinho para vossa mercê, parece que foi escrita para si, hã?

 

Am I still tough enough?

Feels like I’m wearing down

Is my viciousness

Losing ground?

Am I taking too much?

Did I cross a line?

I need my role in this

Very clearly defined

I need your discipline

I need your help

I need your discipline

 

You know once I start I cannot help myself

And now it's starting up

feels like I'm losing touch

Nothing matters to me

Nothing matters as much

I see you left a mark

Up and down my skin

I don't know where I end

And where you begin

I need your discipline

I need your help

I need your discipline

You know once I start I cannot help myself

Once I start I cannot stop myself

  

Discipline lyrics by N.I.N./Letra dos N.I.N.

publicado por Ligeia Noire às 13:33

16
Mai 13


Intro


Antes de tudo deixa-me bendizer o dia em que regressei ao Lost porque é soberbo, foda-se!

 

Ruminações


Eu, na verdade, não odeio ninguém porque quem não ama, não odeia, ou então gosto de toda a gente e odeio metades.

Estou certa de que desconfio de tudo e lembro-me daquele gajo que disse que mataria os pais, os filhos, até o puto de cinco anos do seu inimigo, sem remorsos mas, não o cão, o cão não teve escolha, os maquiavélicos e os seus soft spots por animais.

Podem ser uns desalmados desde que, para nós, deixem a alma subir aos olhos.

Não sei porque estou a escrever hoje, não estou triste, nem contente, estou aqui somente, sei que daqui por algumas semanas estarei cheia de medo, a semana passada estava em pleno jogo, agora estou aqui, volúvel mas inerte.

Talvez seja uma boa oportunidade para memorizar e ordenar a história do homem de tranças que conheci há uns anos, sim, faz-me sorrir pensar nele.

 

Baptismos concupiscentes


Era uma vez uma rapariga e a sua amiga que gostavam de se sentar afastadas no banco de madeira, quando o sol já sobrava da fotossíntese previamente feita, cognominando todos os indivíduos que lhes chamavam a atenção.

Engraçado nunca ter aparecido nenhuma rapariga que interessasse…

Havia o olhos-pretos-que-são-verdes, referíamo-nos ao gajo literalmente assim, era o James Dean lá do sítio, casaca de cabedal negro, calças de ganga, cabelo preto liso e ligeiramente comprido, uns dez anos mais velho, claro está. O nosso carácter voyeurístico só podia ser estimulado na hora de almoço quando ele fumava perto do lago, ou no sítio dos fumadores, como o pessoal chamava a um recanto ladeado por bancos de madeira e encimado por uma ramada.

Nunca falámos, quer dizer, mais ou menos porque uns tempos depois, na paragem para as férias de Natal, em que já nos encontrávamos no caminho para casa, ele passa por nós, abranda o carro e diz qualquer coisa que nunca chegámos a perceber, escusado será dizer que ganhámos o dia.

Muito mais tarde, já ele tinha acabado o curso, voltámos a vê-lo e, por incrível que pareça, foi numa loja bastante conhecida da zona, lembro-me como se tivesse sido ontem, estávamos na entrada e a nossa reacção, após um espanto desmesurado, deve ter sido um riso nervoso porque coincidências não existem.

Seguidamente, reparámos que ele acompanhava uma mulher já com uma pronunciada gravidez, o que foi ainda mais cómico.

Havia o nosso-menino, este era passível de devassidão da nossa parte porque era bastante mais novo do que nós, havia o caracóis... ah o coletinho por quem a minha amiga teve uma enorme paixão platónica. Chegou até a escrever-lhe uma carta que escondia debaixo da cama e que nunca chegou ao destino.

Ei! Quase me esquecia! O saltinhos... fumava cannabis e gostava de dias apartados para festas de trance privadas regadas a bombons pueris, tinha cabelo espesso curto, pele branca, olhos verdes e um ego altaneiro que de certeza provinha do peso do nome de baptismo que carregava.

Era amigo de um amigo nosso, no final de contas acabámos por descobrir que o nosso amigo era o nível acima e que este ser saltitante era apenas um narciso bem adorado

A última lembrança que tenho dele é de mão dada com uma amiga de uma amiga mas, também, já lhe havíamos perdido o interesse há muito.

Havia outro, quase no final da nossa estadia, não houve cognome individual para o dito, eles eram um grupo e o nome designava o colectivo, havia o que usava a t-shirt dos Bizarra Locomotiva, de cabelo grisalho e o semblante mais esquisito que já presenciei, mal eu sabia que havia de assistir a um concerto desses Bizarra e comprar-lhes o álbum negro uns anos depois.

Havia o amigo de cabelo agressivo, camisa bordeaux, ora preta, ora escocesa, calças negras, docs vermelhas ora pretas.

Aguava-se em mim a estética quando ele passava, era um colírio no meio de tanta monotonia, não seria gótico, nem punk, um intermédio talvez…

E o outro, o meu amigo, vi-o há pouco tempo num concerto, um pouco mais velho do que eu, bem… era mais do que um pouco, o que me atraiu nele… os piercings? As camisolas com desenhos animados? O ar de puto crescido? Ter filhas com a idade da minha irmã? Ou o flyer que ele me entregou daquele bar muito conhecido com o número e o e-mail no verso?

Estávamos na tasca do outro lado da rua, e essa tasca dava uma outra página... era um início de tarde langoroso porque tínhamos acabado o projecto final e já tínhamos o peso de tudo nos ombros e os olhos da saudade, fino leva a fino e vi-o ao fundo, do fundo da rua com o grupo dos que nomeei acima, ele inverteu a marcha e veio ter à mesa onde estávamos, para gaúdio dos meus amigos que levaram os dias seguintes a atiçar a língua.

Ficámos amigos, trocámos números, música, foi ele que me deu a conhecer Queens of The Stone Age, umas cenas de drum 'n bass e um músico tradicional brasileiro do qual não me lembro do nome porque não gostei.

Passeios ao início da noite, cervejas, ideias e depois houve aquela conversa à chuva, numa ponte por cima de uma linha férrea, beijámo-nos, pausei o beijo, depois não sei se não pude ir aos passeios do costume ou se ele foi embora, sei que nunca mais nos vimos até há um ou dois anos no tal concerto, foi estranho apenas.

O último, o trancinhas.

Já falei dele tantas vezes, este gajo foi o verdadeiro fascínio, era um bizarro, à parte de algumas maleitas físicas causadas por anos de drogas duras, era verdadeiramente belo.

Chamávamos-lhe trancinhas porque somos literais, gostávamos da imagem de marca das pessoas, daquilo que as identificava.

A este senhor, era simples, ele usava tranças, cabelos loiros e longos e finos e meios ondulados nas pontas, entrançados que ornamentavam os olhos azuis dum rosto preclaro. A primeira vez que o vi, estávamos longe, do outro lado do átrio, ele estava sentado na relva a enrolar tabaco avulso, parecia um guerreiro medieval, ficámos intrigadas e entusiasmadas. Ao vê-lo de perto nada tinha de bélico, havia um profundo ar silente de águas beiradas de juncais que era apenas perturbado por sorrisos infantis.

Que belo, sim.

Às vezes, punha um malmequer branco no meio das tranças e atravessava a cantina a assobiar, eu ficava fascinada.

Foi no bar do senhor de barbas e por culpa das minhas amigas que primeiro falei com ele. Vendo o meu entusiasmo foram pedir-lhe lume ao balcão, ele veio até à mesa, elas foram até à entrada fumar. Dessa conversa lunática, lembro-me de me ter convidado a colocar as palmas das minhas mãos nas dele e a fechar os olhos, não sei se era da tensão ou da estática mas senti verdadeiramente qualquer coisa de bizarro.

Foi ele que me leu Kafka no banco de madeira, na hora de almoço, foi ele que me ofereceu um disco de seu nome Born in Fire Vol.4, era um cd de metal extremo de uma editora holandesa, acho que a única banda que conhecia, e de nome, eram os Nile, não gostava do género mas guardo-o até hoje.

O pessoal gozava comigo, cantarolava mas ele era singular e por conseguinte tinha as suas singularidades.

Gostava de Radiohead, um dia veio até à minha porta emprestar-me um disco deles ao vivo, não me lembro qual era mas sei que tinha a morning bell, que eu ouvia sempre de manhã enquanto me vestia.

Às vezes, ligava-me e ria e depois eu só ouvia os acordes de uma guitarra e a voz do Kurt Cobain e quando a canção terminava ele desligava.

Foi ele de quem falei quando numa noite, depois de um passeio, nos convidou para jantar, sopa de meia-noite dizia ele, eu recusei, ele insistia e as meninas estavam na sacada preparadas para lhe lançarem, à cabeça incauta, os vasos da senhoria…

Eu sei que todos o achavam alienado, consumido mas ele descobriu coisas de mim que mais ninguém sabia, coisas que eu nunca lhe contei mas que sabia que ele sabia.

Acho que a última vez que falei com ele foi por telemóvel, era difícil acompanhar-lhe o raciocínio, perguntei-lhe quem era, perguntei-lhe tanta coisa…

Ele falou-me de uma namorada, da Holanda, (percebi de onde tinha vindo o disco onde estavam os Nile...) de empregos na Alemanha, disto e daquilo.

Ele sabia como me embaraçar, ele sabia que eu detestava que as pessoas olhassem para mim, o que era difícil quando ele de cabelos soltos caminhava pela cantina e se sentava na minha mesa e pescava do meu prato…

Nunca mais o vi, que será feito dele?

Ainda enlaço o cabelo com fitas, brancas às vezes.

 

publicado por Ligeia Noire às 23:33
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12
Mai 13


and I watch you stumble

drunk out into the night

to cat call ladies

you're thirsty for blood, you're picking a fight

and I wanted to ask you

man, what do you do in the daylight


So bum me a cigarette, buy me a beer

till i'm happy to be here, happy to be here

with all of my family, hookers in heels

and the men who watch them like hungry black eels


Run into me sunday

tell me you had one hell of a time

and through the haze and the gun smoke, I'm forced to believe

you're probably right

And someone lies bleeding

someone got violent and did not think twice

and I watched you my brother, making a fool of the moon tonight


So bum me a cigarette, buy me a beer

till i'm happy to be here, happy to be here

with all of my family, hookers in heels

and the men who watch them like hungry black eels
am I just a spark?

Lyrics by Noah Gundersen/Letra da autoria de Noah Gundersen


publicado por Ligeia Noire às 11:57
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09
Mai 13


I

Quando comecei a ver o filme senti que iria ser uma desgraça, como poderia conseguir transportar-se tamanhos conceitos para o cinema, uma obra onde as personagens são apenas ilustrações, possibilidades do escritor, onde se fala do tem de ser e da queda e do abismo, de existir, não, não se pode.

Então, lembrei-me do que aprendi nas minhas esparsas aulas de literatura e cinema, um filme adaptado de um livro é uma obra nova, não tem de seguir a perspectiva do livro e, assim, comecei a apreciar o dito, até porque tem mais de duas horas e dá tempo para pensar em gostar-se dele ou não.

Já o tinha tentado ver há uns dois anos mas ou adormeci ou não me cativou ao início.

Não me vou pôr p'ra aqui a analisar um ou outro porque não sei ser imparcial, objectiva ou construtiva.

Gostei da brisa leve e cómica com que o realizador escolheu permear a acção e pronto.

 

 II

 

Porque eu encontrar-te-ei, sou mais alto do que tu e posso dizer-te que não precisas repensar e pesar o mundo todo naquele punhado de segundos e sei que ao dizer-to, deixarás que suba aos olhos a alforria de que eles precisam para me mostrarem que somos da mesma laia.


Unleash The Red, Lucifer’s Chorale e When Love Starts To Die estão à altura do que eu esperava que este disco fosse mas são só estas, há umas mais próximas destas, outras menos… e, agora que a impulsividade se foi, vou clareando a percepção e admitindo que o erro começa logo no "eu esperava que" olha, foda-se minha cara, vai ouvir outra coisa porque não falta o que ouvir... mas eles ainda brincam mais comigo porque, apesar de tudo isto, dou por mim a ouvir várias vezes esta açucarada mas, curiosamente, praticável Hearts at war e a canção falou comigo e disse-me tudo isto:

 

So, after all that we have done
Are you feeling cold
Like the winter sun
and have you thought about all the words that
We left unsaid?
Don’t be scared
You shouldn’t be

Hearts at war
Drunk on dreams
Of all that’s been lost now
Let them bleed
Just let them

Run away as far as you can
And hide behind all the promises
But I’ll find you
Cause you’re a fire
And I’m the rain
Don’t be afraid


Hearts at war

Drunk on dreams
Of all that’s been lost now
Let them bleed
Hearts at war
Think of love
There’s no escaping
What we have brought upon ourselves again

Hearts at war
Drunk on dreams
Of all that’s been lost now
Let them bleed
Hearts at war
For thinking of love
And there’s no escaping
What we have brought upon ourselves again

There is no way, I’m waiting
We’ve brought this upon ourselves again


Lyrics by H.I.M./Letra da autoria dos H.I.M.


Se ele soubesse mais do que o meu nome e o meu ego bêbado, se ele soubesse deste caderno medicamentoso, ya isso.

No entanto, ele sabe que sou uma rapariga que se veste de negro, incerta, ambígua e amiga, muito, da amiga dele.

E que sei eu dele?

Não quero saber nada.

Foi para isto que vim aqui hoje escrever, estava era a tentar prolongar a coisa mas não consigo, quanto mais ansiosa e inquieta mais preciso de escrever, para controlar o desassossego.

Uns, sabem de antemão que vivem o peso e esperam do peso a validade da vida, outros vivem a leveza de uma existência que vai arrecadando pontos no carreiro que leva à morte desde o dia em que se nasce.

Outros, ainda, adormecem em Sextas-feiras leves e acordam para Segundas-feiras pesadas.

Esses, que são volúveis, têm dias em que desejam, de todo o coração, que o seu corpo seja hóstia e que, ao comungarem de si, os outros consigam a felicidade.

Noutros dias, esses volúveis, vão fitando as notícias e esperam que a Coreia não esteja a brincar e encete fogo no rastilho porque não poderiam estar mais à vontade com a liberdade de não serem mais.

 

publicado por Ligeia Noire às 00:41

06
Mai 13


Eu gosto muito do chamado Depressive Suicidal Black Metal e, uma das razões, prende-se com a forma como a voz é gemida cá p'ra fora, gosto do desamparo e da tortura que circulam por essas ambiências, ouça-se a versão dos Tristram do tema Ur Ångest Född originalmente dos Hypothermia.

Gosto de música extrema que passa a linha vermelha... Gnaw Their Tongues, Sunn O))).

E se falamos de vozes e os efeitos que nos causam, não há comparação possível com ela, a Dona Morte, a Senhora que quase me deixou surda, quando ainda não sabia que se devem levar os ouvidos protegidos para os concertos e, se se tratar de um concerto dela, é bom que se faça por isso. Chorei, sorri, arrepiei-me, senti as vísceras contraírem-se, tive medo, cheguei a tapar os ouvidos em alguns momentos por impossibilidade física, vi gente a abandonar a sala, vi estrangeiros, góticos, metaleiros, inconspícuos, senhores do topo da pirâmide... lembro-me de um homem alto sentado, uma ou duas filas atrás de mim, de cabelo castanho claro pelos ombros, casaca de cabedal e silêncio.

Lembro-me de tudo, do amor que senti pela rapariga que estava sentada ao meu lado, que me quis acompanhar ao concerto e que nem sequer conhecia ou sabia para o que ía.

A felicidade, quando a Diamanda se levantou do piano para agradecer a tamanha ovação e respondeu ao meu sorriso idiótico de tão rasgado, com outro sorriso.

Sou apaixonada por esta mulher, apaixonada a um nível de que me lembro ter sido descrito num dos episódios do Sete Palmos de Terra pela Claire.

Uma das minhas fantasias, é um dia poder ouvir o Plague Mass alto e bom som e sem auscultadores.

Perguntaram-me como podia gostar daquilo, que era sofrível, doloroso...

É instintivo, gosto porque gosto, depois, porque me sinto abarcada por ela, depois, porque me sinto assim e, depois, pela dor, pela revolta, pela negritude, pela raiva, pela loucura e até pela dormência que fica como no final de um orgasmo. A Diamanda leva-me desta merda de mundo para outro sem tempo ou pessoas e dá-me coisas, muitas coisas.

Houve uma manhã em que estava a ouvir o Plague Mass enquanto caminhava por uma rua, era de manhã e estava sol, demasiado sol, havia algum trânsito e eu sentia-me uma merda porque não tinha trabalho, dinheiro, os amigos não compreendiam ou tinham-me fodido e as contas deslocavam-se na minha direcção como comboios desgovernados (pouco mudou) não podia estar sozinha para enlouquecer um pouco e, controlar isto tudo, em silêncio e enjaulada, era demoníaco.

A música ia ecoando na cabeça, mexia-me no corpo todo e, eu ia saindo dali, do sol, das pessoas com olhos, da esterilidade da realidade, das demandas, das obrigações e quando dei por ela, já tinha saído do passeio, já tinha alguém a insultar-me e o sol a avermelhar-me o cabelo.

Há outro Mundo quando a oiço, há compreensão.

Não gosto de mais nenhuma mulher como gosto dela, não há ninguém como ela.

publicado por Ligeia Noire às 22:50
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05
Mai 13


O Chino tem uma forma muito especial de cantar as palavras, elas saem com efeitos que não se conseguem em pro-tools.

Cada vez que ele começa com o Can you explain to me how... separam-se ali águas.

Aquela voz de dormida incompleta, de sexo passional, cheia de saliva, às vezes, e, outras, desamparada de esperança, e a esperança é uma coisa muito importante.

Ai de nós se a perdemos. 

Achas que sabe a verdade?

Que a Terra tem um buraco, uma cratera, para que será?

Hoje é só para isto, escuro, corpo estendido e a esperança de encontrar o buraco.

 

Can you explain to me how
You're so able? How?
It's too late for me now
There's a hole in the earth
I'm out

There's a hole in the earth
I'm out

Can you explain to me now
If you're still able? Whilst...
I think you know the truth
There's a hole in the earth
I'm out

I hate all of my friends
They all lack taste sometimes

There's a hole in the earth
I'm out
There's a hole in the earth

Please take a bow
(This is the end)
Somewhere
(This is the end)
Somewhere

There's a hole in the earth
There's a hole in the earth

I hate all of my friends
I'm out
There's a hole in the earth
I will wait
Somewhere

 

Hole in the earth by Deftones/Letra da autoria dos Deftones

publicado por Ligeia Noire às 16:53
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