“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

13
Jan 11


Chego e sento-me e olho quieta para o céu nocturno da cidade que me acolhe.

Na minha terra os únicos pássaros que interpelam a noite são as corujas e os mochos e, claro, os morcegos mas essas são criaturas de outros passeios.

Aqui, desde ontem que oiço chilreios constantes à hora das bruxas, como se dialogassem com a noite.

Estarão presos por certo, não os imagino em árvores.

O que mais sinto falta neste quarto anti-séptico, nesta terra de ruelas, é a solidão deliberada, a dança a horas da vontade, deambular e restar-me em sítio incerto e calmo.

Enquanto aqui sigo sentada, ao som do chilreio nocturno de pássaro que desconheço, percebo-me calma, aquietada mas também triste, não triste por mim, hoje não, mas triste por saber-me certa da minha solidão de entendimento.

Não me atingem e eu canso-me.

Sei que sabes que já falei disto mas acabo sempre por pisar no charco, não é?

Curioso, o ser humano, sempre à espera que da próxima vez seja diferente, sempre a esperança, a luz ao fundo do túnel que como diz o Valo a maior parte das vezes, senão todas, é apenas um comboio em andamento.

E move-se rápido e atinge-nos e nunca morremos, nem saímos do percurso porque a viagem é circular e não há esquinas para nos escondermos, ou caminhos alternativos.

E no meio de toda esta conclusão que me atinge sempre, tenho momentos, ou tive momentos em que pensei que nem tu, espírito distante, escapavas, pensei já não te conhecer e, perdoa-me dizê-lo, mas até não te gostar, não te conseguia escrever, as palavras não existiam e tudo o que me saia dos dedos não ladeava o coração.

É muito tempo sabes, é muita água, muitas rosas esfaceladas e nuas além-caminho.

Muito tempo, muito tempo mas questionar é natural e por certo continuo a amar-te.

De ti falei e de ti haverei de falar em palavras escritas mas precisas esperar porque tu és e eu preciso de muito tempo para agarrar palavras para ti.

E tu,flor-estranha-da-selva, por ti tudo é mais fácil porque o que te sinto é feito de carne e abraços.

A ela, jamais a perderei porque é minha, já tu, nunca serás meu.

E eu preciso colher as flores e levá-las para a minha câmara para as contemplar a noite inteira.

Tu tens sido demasiado constante, tu que deveria detestar calmamente, adoças em demasia e fazes-me ansiar demasiado, tu assustas-me tanto.

E ainda faltas tu, minha mourning child, disseram-me que pareces doente, que o teu rosto está sereno e triste e pálido, muito pálido, que os teus braços e pernas estão finos, o teu cabelo escuro e pousado nos ombros, está tão quieto como tu, o teu colo e o teu peito estão sós e o teu corpo está delgado.

Eles não entendem, eles não te sabem abraçar e eu sei mas não posso.

Gostava de ter esse teu corpo frágil no meu colo e fazer-te chorar noites inteiras para que finalmente pudesses prosseguir a vida.

Não te quero entender a dor, particularmente essa, que jamais te vai abandonar, receio, mas tudo o que fizeres, eu não questionarei, o amor de sangue é extremo e eu não questiono.

Mas permite-me que refira o quão bela me pareceste, o quão formosa a quietude te poisou no rosto, apenas as lágrimas perturbavam a brancura dos teus traços, jamais te havia vislumbrado tão bela e, apesar de terem sido olhos alheios a dizerem-me da tua curta visita, pressinto que continuas bela porque continuas triste.

Perdoa-me se te soo incorrecta e assaz íngreme mas não existem desvios ou imprecisões nestas palavras.

Recordo o momento em que me abraçaste com olhos de ribeira… o mundo ruiu cá dentro por saber-me sem curas para o teu pesar, para o corte abrupto e imperecível com que o teu coração foi afrontado.

Quando de ti me falaram, eu sabia que tinha de voltar a desenhar-te, a acabar-te o devaneio em que no passado Verão te enleei.

Sei que não lês isto e fico contente, pois acredito que este mundo começa à noite e para lá dos nossos olhos, onde as almas deambulam e se cruzam e dançam e nada mais importa.

Gostava de deitar-me em mantos de veludo carmesim e deixar a Clair de lune embrulhar-me e colocar-vos jarras, imensas de flores.

Das minhas mãos só podem sair carícias, dos meus braços laços ininterruptos e do meu peito, do meu peito e no meu peito mantenho tudo guardado nada sai.


publicado por Ligeia Noire às 04:04
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