“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

09
Mar 11


Os meus olhos não são azuis mas às vezes assemelham-se a rios imorredouros.

As mãos são pequenas, demasiado pequenas para cobrirem todas as imperfeições, golpes, fracturas, dores ressequidas e poças insalubres que vertem dos sonhos enquanto durmo.

E conturbam-se os meus olhos e vejo a lama, o lodo e as folhas mortas, deslizarem de um lado para o outro.

É, às vezes, fico assim instantaneamente, como se fosse um saco de pó virginal que num ápice se torna em fuga eterna e dá morte ao portador.

E sozinha prossigo, já nem tu, já nem tu…

O tempo terminou-nos.

Não queria prosseguir, levantar e retomar mas as mãos tapam os lanhos e a puta mente cada vez mais.

Sabes no que te estás a tornar, certo?

Sabes que para onde estás a descer não há retorno.

Podias ter saltado.

Podias ter saltado

Podias ter saltado

Podias ter saltado.

Tu...

podias

ter

saltado, foda-se!

Mas preferiste abandonar-te ao sono, à paralisia, ao veneno.

Podias ter sido uma pessoa.

Podias ter saltado...

Sinto tanta pena de ti, perco-me na misericórdia que te sinto quando te cobres e quando te levantas tarde para obrigar a noite a prolongar-se na tua cabeça.

Perco-me de pena quando te vejo os olhos rasos a perdurarem na lareira e aqueces as mãos devagarinho, para que o tempo não saia dali e te deixe sozinha.

Sento-me e vejo-te não dormir e vejo-te chorar e vejo-te o peito a doer e as mãos a enxugarem os olhos vermelhos.

Vejo-te assim e perduras-me na memória e tanta é a pena que sinto de ti.

Nunca ousei imaginar o tanto que durarias!

E não, não minha querida, sabes que não é uma vitória.

Sabes que é apenas o amontoar, cada vez mais veloz, de pedras feias que irás ter de contar e carregar até ao vale dos indigentes.

És como aquelas espigas mirradas, aquelas cerejas verdes, aquelas formigas aleijadas, o tempo que durais é sempre tempo a mais, tempo desnecessário, tempo de vergonha.

Deveria pegar-te ao colo e baloiçar-te o corpo magoado nesta minha cadeira mas sabes... não é a mesma coisa.

É como quando tocamos o nosso rosto, ou damos a mão à nossa mão, é tecido do mesmo fabricante e os leucócitos nem sequer se aborrecem em sair dos casulos.

A soberba arte de afastar tudo (mas mesmo tudinho) e todos de vossa mercê é notável!

Às vezes nem sequer se apercebem de que já não os queres ali... de que já vestiste a armadura.

E, meu amor, assim te vejo continuar a afundares-te nas tuas estórias e nos teus comprimidos pueris que te desmamam cada vez mais da vida, até te tornares incompreensível.

Até toda tu te conseguires deglutir.

A desumana consciência, constante e negra.

publicado por Ligeia Noire às 17:40

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