“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

21
Jun 11

 

Tive de parar o filme, várias vezes, para respirar.

Medo puro, duro, real e numa esquina, casa, mundo perto de nós.

Sufocante, a noite.

A noite, quando temos medo, dura tempo incontado.

A casa grande na floresta, num país que ainda permanece tão recôndito quanto nos tempos do Drácula.

O telefone toca e… como descrever… são uma matilha, não têm leis, nem a moral que os idiotas das escolinhas acham que existe lá fora, às vezes, pergunto-me se vivemos no mesmo mundo...

Gosto muito de cinema de terror, gosto muito desta vaga de cinema extremo mas, a diferença, é que quando a ameaça é sabida como real, quando sucedeu, quando a vemos nas notícias a espancar velhos ou transexuais, ou a matar casais, o caso muda de figura.

Nunca apreciei bandos, tenho pavor de me cruzar com eles.

A diferença é que este mundo não tem veludos, nem anjos, nem risos, os problemas não são feitos de desamores e futuro, e diplomas e livros e sofrimentos de rendas e eyeliner, este sítio tem sangue, tem fome, tem cães humanos cheios de seiva.

Numa entrevista, que vi hoje, dos anos noventa, a Diamanda dizia trazer sempre com ela um revólver.

Uma vez que, não acreditava que se podia descer uma rua em Nova Iorque, incólume.

A menos que se parecesse invisível ou que não se saísse da norma porque há sempre algo que pode despoletar uma investida.

É por isso que, às vezes, rio sozinha quando me sento a uma mesa de quatro pernas a ouvir coisas dos livros, com gente à minha volta, parece-me tudo tão caricato.

É como se o mundo estivesse hipotérmico e nós saíssemos à rua de lingerie.

Tenho medo, claro que tenho medo, escrevo aqui muitas coisas mas aquelas que realmente me assustam, nem sequer tenho a audácia de lhes pôr letras.

E na cabeça funciona o: "não penses nisso, não penses nisso".

Não sei lidar com o medo, o medo assusta-me, o medo…

Vou contar uma história que me aconteceu há vários anos.

Na minha aldeia, quando eu era mais pequena, era costume mungir as vacas e levar o leite a uma leitaria.

Dava uns trocos e as vacas são muito bonitas.

As minhas eram turinas, o que eleva ainda mais a cena.

Às vezes, era eu que pegava na cântara às costas e levava o leite com a minha prima até ao destino, o qual não ficava nada perto, mas era fixe.

No Inverno, como escurecia muito cedo, tentávamos andar mais depressa mas a noite encontrava-nos sempre.

Um dia, quando vínhamos a descer o caminho já perto de casa, uma sombra moveu-se por trás de nos e falou qualquer coisa que agora não me lembro.

Congelei da cabeça aos pés e o coração esganou-se, senti tanto medo que não conseguia respirar e pareceu tempo infindável mas foram apenas segundos até me aperceber que a minha prima estava a cumprimentar a dita figura e que, na verdade, era um vizinho que voltava para casa depois de ter estado a roçar mato para as cortes.

O alívio foi tão mas tão grande que senti uma felicidade pura como nunca julguei ser possível.

Não sei se foi a primeira vez que senti medo mas sei que ficou gravado num neurónio qualquer.

No entanto, a noite, para mim, é como heroína, temo-a e amo-a, é mãe de todos e não excomunga ninguém.

E mesmo sendo uma temente do medo, não sou refém dele, aliás, uma das coisas que mais gosto é de me sentar à lareira a ouvir histórias, lendas, folclore ou seja lá o que for que os mais velhos têm para contar.

É delicioso.

Há uma história que o meu pai volta e meia conta e que me assusta sempre.

O meu pai sempre trabalhou longe e a maior parte das vezes vem à noite com o saco às costas.

Mais uma vez, a noite foi mãe e o Inverno pai.

E, não de propósito, moramos no monte, bosque, mato, floresta, com meia dúzia de casas, agora, a maior parte desabitadas.

Vinha ele de regresso do trabalho, era fim-de-semana, e no caminho vê ao fundo um vulto e, conforme o Jonathan Harker se refere às noivas como sendo senhoras pelos trajes que envergavam, ele pensou ser um homem pelo alto chapéu, casaco comprido e postura.

Como o meu pai é o meu oposto, destemido, nada de estranho lhe ocorreu e ao passar pelo dito saudou-o com um "boa noite" mas não ouviu resposta e nunca lhe chegou a ver o rosto, seguiu o caminho.

Quando chegou a um carreiro mais abaixo, olhou para o local e, o "homem", estava estacado no mesmo sítio.

Nada mais sucedeu.

Na minha terra, há uma superstição em relação a saudações, diz-se que, à noite, nunca se deve saudar ninguém a menos que se conheça.

O meu pai não vai nisso mas, até hoje, lhe ficou na memória o estranho vulto sem rosto que o olhava do alto do seu chapéu negro e casaco comprido.

Há muitas preciosidades destas que guardo no bolso.

E, embora este filme nada tenha que ver com o sobrenatural, que aprecio, invoca o medo, o medo da realidade, o medo do que sabemos que acontece e que tem pernas e mãos.

Sufoca, sufoca e sufoca.

E que barulho era aquele?

Que brinquedo era aquele?

E aqueles chamamentos animalescos e aquele autocarro que parou e que prosseguiu como prossegue a voz que ouço quando me sento na mesa de quatro pernas, a árvore que morre na floresta.

Ainda ontem me diziam que o pandemónio está aqui e agora.

E que, quando se começarem a deglutir uns aos outros, a diferença estará naqueles que tiverem dinheiro para construir muros altos ou então um frasquinho de salvação em direcção à luz.


publicado por Ligeia Noire às 23:51
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