“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

07
Nov 11


Eu queria ser mulher para me poder estender

Ao lado dos meus amigos, nas «banquettes» dos cafés.

Eu queria ser mulher para poder estender

Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

 

Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida

E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -

Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro

A falar de modas e a fazer «potins» - muito entretida.

 

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios

e aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -

Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios

que um homem, francamente, não se podem desculpar.


Eu queria ser mulher para ter muitos amantes

e enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -

Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,

com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

 

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,

Eu queria ser mulher para me poder recusar...

 

Da autoria de Mário de Sá-Carneiro


publicado por Ligeia Noire às 20:17

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