“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

18
Mar 12

 

 I

 

 

Numa Sexta pequenina

 

Ainda me dói a cabeça, ainda me doem as costas, já é Sexta-Feira.

Já estamos no mês de Março e respondo ao Cavaleiro-das-Terras-Brancas que o tempo passa cada vez mais depressa.

Houve um dia, há um ano, em que estava à espera do autocarro por entre o sol e o céu azul e chega à paragem uma rapariga alta de cabelos fartos, encaracolados e louros, louros.

Tinha umas pernas longas e um porte atlético, deduzi que fosse nórdica.

Um ano depois, vi-a na sala, ri.

Vou observando os seus movimentos e a forma como abre em sorrisos os olhos, afinal não é nórdica.

Hoje, falámos um pouco e, enquanto a ouvia, fui-me dando conta da ironia do destino, ali, as duas sozinhas e não poderíamos ser mais díspares.

Ela é tão delicada, natural, limpa e bonita.

É isso, limpa, limpa, limpa, forte e optimista e limpa.

Ela é a aurora nas suas vestes claras e no seu cabelo de espigas.

Quer conhecer muitas coisas e conhece muitas coisas, nos seus olhos não se vê o medo, só a vontade.

Estou triste.

     II

 

Écailles de Lune part 2

    

Esta canção é desconcertante, desconcertante ao cubo.

Quando confrontado com uma crítica a um dos seus álbuns, o senhor que criou a entidade Alcest, decidiu responder.

O escriba dizia que as canções eram lúgubres, tristes e cheias de noite, mais ou menos isto, o músico ficou muito admirado, não percebia como as composições chegavam tão distorcidas a ouvidos alheios, aquilo era exactamente o oposto do que ele queria transmitir.

Quando petiz, esteve em contacto com uma espécie de Souvenirs d'un autre monde e, esse outro mundo, era-lhe tão confortável, tão puro e tão belo que se apaixonou por ele.

A dita paixão foi tão forte que o fez criar o conceito acima mencionado na tentativa de traduzir e perpetuar o que tinha presenciado.

Uma espécie de Mãe-Terra, um universo de verde líquido vestido que acolhesse os que fossem capazes de abrir os ouvidos e os olhos de dentro.

Eu consigo compreender os dois pontos de vista, percebo o que o Neige diz, consigo aperceber-me dessa dimensão maternal e cristalina nas canções mas também entendo o que os escribas vão apontando, a melancolia e a tristeza que fica.

Eu sei que não era para ficarmos tristes e alagados mas o que acontece, pelo menos comigo, é que esse teu mundo é tão desoladoramente belo, cheio de pequenas plantas e férteis arbustos, tão desaparelhado deste que, embora seja demasiadamente sublime, fere-nos o peito por sabermos ser impossível de alcançar ou, pelo menos, de ficar mais um pouco dentro deste.

Deixa uma espécie de acre nos lábios, quando ligamos o interruptor cromado da lâmpada led e abrimos a janela.

 

III

    

Écailles de Lune part 1

 

Acordei com o senhor da rádio a falar de uma Laura, tenho de trabalhar, tenho de ligar o interruptor branco da luz que cresce com o tempo.

Não ia falar de ti, pelo menos não anteontem mas acontece que sonhei contigo e não é algo que costume suceder muitas vezes.

Acho estranho, és (foste?) tão presente na minha vida e acho que te encontrei por terras oníricas umas... duas ou três vezes.

Hoje sonhei contigo mas não me lembro de mais nada, só daquela avenida estendida ao sol e cheia de demasiadas pessoas.

Será que descobriste que estive nesse mesmo sítio há tão pouco tempo?

É que ando a perguntar-me como se me adensaram os punhos de calcário para não compor palavras e to comunicar nessa altura.

Confesso que me deu um gozo levezinho andar por aí, rir-me por aí e fugir-te ao sol e fazer-te saber quando já estava segura por entre a luz da lua e em terrenos bem mais concentrados e arborizados.

Ainda, há dias, escrevia se não será isto um desperdício de tempo, pele e boca mas, mas, mas, não, não é, não é, não pode ser.

Ah! Perco-me do sentido do que fazia sentido.

Enquanto vinha para casa, e o senhor acima cantava as terras que são só dele, pensava no quão estranhamente inconveniente é reconhecer que és apenas tu, o sabedor do meu mais largo segredo, tu que nem sequer sabes exactamente de onde sou, ou o que faço, sabes deste laço branco atado e também da minha pele, da minha boca, dos meus cabelos, das minhas unhas, dos meus olhos abertos para onde quase saltaste e do laço branco bem atado, como é que isto é possível?

Que idiotia… todas estas coisas a encastelarem-se dentro da minha cabeça e a não me deixarem ver em condições.

Não entendo, não entendo Supremo mas por que raio isto começa a gatinhar ali ao fundo, se planeámos acabar com as noites desenhadas e voltar para dentro da linha vermelha?

E agora deixas que estas palavras, feitas imagens, atormentem todos os cantos da minha cabeça.

Eu detesto-o.

publicado por Ligeia Noire às 12:51

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