“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

25
Mai 11


Sempre me conheci a escrever, sempre me conheci melhor pelo que escrevo.

Ora, vamos lá, ao ponto de situação.

Possivelmente, o Frankenstein apareceu na janela mas numa janela que só existia na minha cabeça… não podia ser ele ou então é uma besta e isso significa exactamente o mesmo.

O tema deste devaneio veio ter comigo em boa hora e, hoje, fiquei a olhar para o título uns bons minutos.

E a verdade é que, as quatro pessoas que sou, estão a mirrar, uma delas até vê uma teia de aranha num dos olhos, teia essa que foi responsável pela descida, a pique, novamente.

O senhor de barbas, nos braços do qual eu desfaleci, disse para fingir que não existia mas é assaz complicado para uma moça como eu. 

O senhor de barbas brincou comigo, fez-me sorrir.

Talvez, mais tarde, fale da teia que uma das minhas pessoas vê, ou talvez não.

O senhor de barbas fez-me lembrar outros senhores de barbas, por exemplo, o meu antigo professor de geometria descritiva, ambos cheios de livros nos anos que os compõem mas, também, cheios de palavras simples e olhos que vêem.

Gosto de senhores de barbas, fazem-me sentir junto de ti Supremo, fazem-me pequenina e comporto-me como tal, involuntariamente.

Essa minha pessoa prefere a escuridão mais do que nunca porque, a teia de aranha que lhe assusta a vista, esbate-se ao entardecer... a ironia.

Essa minha pessoa violou um dos seus mais sagrados adornos.

Hoje, olhou-se e já não sabe se está, do lado de cá ou do lado de lá, da linha vermelha.

A segunda pessoa de mim, aquela que usa a domino, assentiu que não gosta de ninguém mas como isto ainda agora acabou de ver a luz do dia, cobrindo-se ainda de sangue, tem de se esperar e limpar com cuidado, para não cair no erro de se usar de demasiada violência e, claro, apurar a metáfora.

A minha terceira, aquela que me acho, está preocupada com a perfeição do corpo e por isso dá passeios ao luar por entre constantes vislumbres do que poderá vir a segui-la.

A minha quarta pessoa, deve foder as contas ao diabo e foder as percepções aos que a querem navegar nos olhos.

Às vezes, é doloroso percebermos que nos distanciamos tanto, mas tanto dos outros, que eles deixam de falar a nossa língua.

Hoje, enquanto ia a correr com todas as minhas pessoas, senti uma tristeza do tamanho das coisas por medir e senti medo, medo misturado com saudade, saudade de não ter consciência daquilo que sou e daquilo que sonhei ser quando tinha tranças e meias de renda branca.

Ainda uso tranças mas nunca mais pude sonhar ser mais nada.

A dor de pensar, a puta da dor de pensar.

Curar as feridas com beleza e quão bela é esta composição, sangra beleza e sangra coisas simples, coisas humanas, coisas da dor de pensar:

      

And all that could have been


Breeze still carries the sound

Maybe I'll disappear
Tracks will fade in the snow
You won't find me here

Ice is starting to form
Ending what had begun
I am locked in my head
With what I've done
I know you tried to rescue me
Didn't let anyone get in
Left with a trace of all that was
And all that could have been

Please
Take this
And run far away
Far away from me
I am
Tainted
The two of us
Were never meant to be
All these
Pieces
And promises and left behinds
If only I could see
In my
Nothing
You were everything
Everything to me

Gone.. fading..
Everything...
And...
All that...
Could have been...
All that could have been. 

Please
Take this
And run far away
Far as you can see
I am
Tainted
And happiness and peace of mind
Were never meant for me
All these
Pieces
And promises and left behinds
If only I could see
In my
Nothing
You were everything
Everything to me

 

Letra da autoria de Trent Reznor/Lyrics written by Trent Reznor


publicado por Ligeia Noire às 01:38

10
Mai 11

 

I


Palavras feias


Não sabia que ainda me faltavam tantos espancamentos.

Desce lá daí e explica-me as circunstâncias.

Para além da porrada diária, fazes com que os que amo presenciem de camarote almofadado às impossibilidades.

Obrigas-me a ver o esforço deles para me darem a mão, enquanto rasgas e rasgas.

Não consegui, ainda, atingir a dimensão da crueldade.

Como és tu capaz de roubar um sorriso prematuro, um sorriso que tentava habituar-se, ainda, à luz forte da manhã?

Como podes tu, que já não reconheço, ter guardado no bolso uma lâmina nova, uma queda aparatosa, um derrame seco?

A culpa não é minha.

Não venhas bater-me aos neurónios durante a noite porque me sabes inocente, sabes que tentei, sabes que contrariei a minha natureza para estar acima da superfície e tu… tu queres-me morta… morta em vida.

Já violei tudo em mim e no dia em que violar o amor de sangue, vou aí ver-te a cor dos olhos.

 

II  

 

If you come closer, I'll show you how it feels


E espera lá, o que raio foi aquilo?

Por que motivo o acordaste e lhe puseste aquelas palavras, que não sei processar, na boca?

Acordar a flor-selvagem foi idêntico à esponja envinagrada que deram a Cristo quando ele pediu água e eu sei que tu sabes o gosto.

E a ela?

A ela esvaziaste-lhe o peito de mim e da boca saiam coisas triviais.

Acha-me confusa e presa ao círculo por abnegação.

Dás-lhes vidas em que eu estou longe e coberta de neve.

Não gosto disto, não gosto de me encontrar sempre num quarto de paredes brancas e estéreis enquanto morro em cima de lençóis brancos e rosa, como uma árvore no meio da tundra.

E aquela senhora, aquela senhora com quem não falava há anos, apareceu assim, a falar da minha beleza e das saudades e do caminho que não fiz.

Olha para mim!

Por que os fizeste sorrir?

Por que adoçaste o ar?

Às vezes, pareço uma criança esfomeada, cheia de costelas visíveis e de pés desregrados que se cola ao vidro de uma montra cheia de bolos de baunilha, chocolate e chantilly.

Parece que te oiço dizer, sem palavras, que ainda há muita profundidade para alcançar que, por certo, até me deixas ultrapassar o vidro e ter os bolos na boca mas, depois, sentirei nojo, repulsa e tudo me parecerá pequeno e grotesco, visto de dentro.

Por que me dás rosas e caminhos e depois me abres o deserto nos pés?

 

III

 

Now you know how it feels


Há uns tempos, escrevi que tu e todos os que controlas ou que te fazem ou que tu fazes ou o caralho a sete, me preferem desesperada a sepultada.

Ah... não me sabia tão sábia, verdadeira autoridade canónica na arte de descer, cair a pique, sobrevoar o abismo.

E o que prometi vou cumprir, conheço-me como uma mulher de palavra.

Querias que chorasse?

Temos pena, não consigo.

Nem beber consigo, só o sono me assola.

Embora, solenemente, espere uma sede de proporções industriais.

Assim, podes sentar-te na plateia, como os anjos da Ligeia, a ver-me no meio de todas estas palavras imundas de sabor.

Fica tudo mais suicida e dolente.

Não é divertido?

E, como podes adivinhar-me no coração, a raiva nunca é por mim, que sou proscrita, mas pelo que fazes à minha corrente de salvação.

Não há atalho possível sem que por eles não passe.

Espero sim, pela verdade, porque se a culpa é minha, é tua.

Se fiz os buracos aquando da inconsciência, foi com os teus olhos em cima.

Se os fiz em lágrimas, foi na tua casa, até porque não posso continuar aqui sem existires num canto da minha cabeça.

   

Post Scriptum: Pensei em não transpor isto para estes lados porque não sei se ainda faz sentido mas há umas semanas fez e, de alguma forma, ainda faz porque só retirado de dentro e posto à minha frente se torna perceptível. É para isso que escrevo.

publicado por Ligeia Noire às 23:37
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03
Mai 11


Quero escapar-me.

Se me perguntassem qual é o meu desporto favorito, eu diria escapismo.

Pratico-o sempre que posso mas de preferência quando estou à luz do sol e à luz dos outros.

Acho que posso considerar-me uma profissional, tendo em conta os meus longos anos de experiência.

Às vezes, adiciono-lhe violência porque, como não gosto do perigo desequilibrado, me desato pela certeza do castigo em ambiente controlado e higienizado.

E isto é por mim e em mim, uma vez que não gosto de correntes e autoridades alheias, mecanizadas e planeadas.

As flores da Páscoa, que estavam sobre uma toalha de linho na mesa da sala, estão agora e ainda no meu quarto.

São rosas que picam a cada milímetro do seu caule e, não sei como dizer a cor, porque o vermelho, o cor-de-rosa e o roxo podem misturar-se.

Ainda não estão secas mas já não estão vivas.


Breathe the air through the water


Neste fim-de-semana descobri que:

- O meu sangue não é açucarado;

- A minha mãe pensa que tudo o que tem sucedido em catadupa já saiu do domínio das leis da Física.

 Tenho voltado aos pesadelos de coisas que me varrem a cabeça de um lado ao outro e, sinto-me um cão ou neste caso, uma cadela, vadia e inquinada com raiva.

Um bicho desregrado e desconsolado que se atira contra as grades do seu ambiente controlado deixando-as cobertas da saliva seivada que lhe escorre do focinho, até às garras embrutecidas.

E tudo isso é provado pelos factos pequeninos, como o de pegar naquele instrumento prateado e querer cortar todo este cabelo.

Este espécimen que aqui presenciam, sabe-se alterado quando viola aquilo que lhe é sacro.

Não me vai fazer sentir melhor mas a que tenho dentro de mim, quer me fazer ver que sim, para depois vir de dentro, sentar-se na minha garganta e rir-se da minha vontade utópica de perfeição na devastação.

O poeta é um fingidor mas eu sou uma pessoa.

Ainda faltam tantos dias para saber…

E como se me quisesses afagar a fronte fizeste acordar aquilo que melhor me adormece, a flor-selvagem.

Tenho que agradecer-te.

Como me sabes tão bem…

Ele é o escapismo em correnteza de rio precioso.

Pensei que… não, não pensei.

E que palavras ele me trouxe e de que palavras me encheu.

Sei que a estória das gavetas ainda é cal fresca mas não estou zangada.

Ele é teu filho, não o admite, não te conhece conscientemente mas é tão teu filho, por isso, nunca espero que fique e nunca guardo amarguras, porque sei que ele e eu somos de sempre e isso é melhor que ser de agora.

Foi tudo isto e é tudo isto que me escorre dos dedos enquanto tento escapar-me ao saco negro e industrial que se aproxima a passos largos.

publicado por Ligeia Noire às 01:08

28
Abr 11

 

E os olhos, os meus olhos, o que mais me inquieta são eles... sempre foram eles porque sei que têm pessoas dentro, uma, duas, não sei...

 

Não perdeste tempo.

Tomaste-me a espada e foram eles, foram os olhos que me castigaste.

É essa a tua retaliação? Golpe baixo.

Não sei se cobres os pés mas, se eu estivesse neles, teria sido humana e teria optado pela alforria mas tu preferes ir mais longe, tu preferes que eu me enterre e saboreie o lodo.

Queres que te mate em mim também?

Não gostas de estar vivo é?

Consideras o teu estado vida?

Para onde foi a tua compaixão?

O que é que resta? Ah já sei... mas até isso estás a foder...

Quando cheguei a casa não havia força nos braços para levantar as coisas do chão, as enzimas corroíam o estômago mas o mostrengo apertava-me as costelas... pensei em anestesiar-me mas tenho todos os músculos a fermentar.

Não digas que sou eu que me desfaço, me destruo e me como, não ouses dizer que a culpa me cai nas mãos porque estou em ebulição.

Porventura, riste-te ao ver-me a atitude ante o prenúncio de desgraça mas não tive forças, senão, para me apagar e adormecer com olhos de ribeira.

Nunca em mim, o desejo de estar a sonhar foi tão pesado e ansiado

És mestre na arte de atingir as carnes mais frágeis, os instrumentos mais sagrados.

Contra tudo o que me naufraga nada posso fazer, sou o eterno tecido infectado, a dádiva muito querida que desgasta mais os bolsos que os sorrisos. 

Prefiro não saber o que fariam os possuidores se pudessem volver no tempo.

Não me faças isto…

Sabes que não tenho espírito de mártir e rasgaria o cenário de uma golfada.

Não tenho medo de o fazer.

Podes condenar-me a outro receptáculo mas a vitória não te sairá incólume e não precisas dizer que não é a vitoria que procuras.

Se querias carregar-me de tão pesadas pedras, espessasses-me os ossos.

Ainda espero acordar e ver-me limpa.

À cabeça apenas acorreram violadores de pele e aos olhos as doses de sal do costume, não te ameaço, é a forma de me colar para prosseguir a tua história.

Quando o corpo nos falha, que interessa a alma?

Que interessam as palavras?

Que interessam as obrigações e as pessoas?

E perguntas-te então porque escrevo… porque és a única criatura que me pode ajudar.

Satisfeito?

Achas que estou com medo?

Não é medo, é terror.


publicado por Ligeia Noire às 23:55

26
Abr 11


Se calhar, tudo isto é o paradoxo com pernas.

Se calhar, só consigo amar a mim própria, loucamente, excessivamente e gravemente.

O amor obsessivo que prefere o nada se não tem o tudo.

A paixão pela perfeição inteira que desfaz, devagarinho, tudo o que lhe contradiga os olhos.

Não me peças para explicar.

Há dias em que me sinto o lírio mais belo para que, em outros, me possa comer as pétalas e culpar-me pela morte do caule em estertores.

Às vezes, sinto isto tenuemente como se esse eu (seja lá quem esse eu for) não quisesse que me apercebesse.

Como se deixasse de ser eu, se soubesse as teias em que me emaranhei, desde que o ar me inchou as narinas.

Serão todos caprichos, volúpias, jogos de sedução de que me canso?

Amores que verto de demasiado alto para que nunca ninguém lá consiga subir.

Não sei se me obrigo a fazer-me companhia ou se estou obcecada comigo toda.

As unhas, o coração que me lateja na carótida, o cabelo que me tapa o torso, as mamas que me resvalam para as mãos… e os olhos, os meus olhos, o que mais me inquieta são eles... sempre foram eles porque sei que têm pessoas dentro, uma, duas, não sei.

Não sei, não sei, sinto-me tão irrequieta e infectada, como assustada e reticente.

Quero continuar a aguçar-me e a escavar-me mas tenho medo de não ter migalhas suficientes para me alimentarem o caminho de volta.

E os amantes?

(ir com calma, caminho minado).

Queria senti-los muito mais do que no cadáver mas nunca deixei que me descobrissem, nunca achei que o soubessem fazer.

Aquieto-me sempre, plantando palavras em todos os cantos do cérebro, para me alimentarem a certeza de que eles não me sabiam, de como nunca seriam capazes de me atordoar.

Havia sempre um lanho no rosto, uma mordacidade que faltava, um beijo que dormia, um inebriamento que nunca sucedia.

Sempre fechei os olhos.

Mas, por certo, nunca deixei que fossem algo, sempre os reduzi a si próprios e, alguns, temo, a meros lenços de seda mas, depois, sinto-me rosa florida de sangue e apraz-me amar o mundo e todos e todos, sinto-me a virgem pura que quer aperfeiçoar o Homem, a Mulher Escarlate que abarca a imensidão e sorrio sem nada, só pelo prazer de ver o sorriso.

Acho que são as pessoas que tenho nos meus olhos que fazem isso.

Amo os que têm o meu sangue e por isso apenas, egoisticamente, conheço o amor.

Volto a ti e desço-me as mãos nas tuas, agora, que estás de branco vestido (outra vez) e de coração cheio, espero que me aches dentro de tudo isto.

Eles são todos eu?

E tu também me és ou eu é que te sou?

Vence-me e não digas que a vitória te é indiferente!

Eu que sempre quis ser a presa, eu que sempre quis a loucura, eu que sempre quis o extremo, sou a raposa sempre, a suicida consciente, a gata preguiçosa.

Deixa-o descer, deixa-o encher o receptáculo de carne, a carne de sangue e vence-me.

Mesmo que seja efémero, mesmo que ele seja um Filho-da-lua e tenha de voltar contigo.

Percebe-me o peito que te fala alto e lê-me o olhos.

Anseio que todos os espinhos das doces rosas se me enterrem nas mãos, desejo-os a cravarem-me o peito.

Não ter ossos suficientemente robustos para conter tudo o que ele me fizer sentir.

Desejo consubstanciá-lo e perpetuá-lo na morte.

Anseio por ser a sua viúva negra, de rosto rendado e de amor esfacelado mas sentido e sangrado.

Vá, prova-me que sou una e completa e que este é o meu último naufrágio.

Estou solene e vim sozinha, curvo-me e beijo-te a mão, empunho a espada e aguardo pela retaliação.

publicado por Ligeia Noire às 23:45

11
Abr 11


Escrevi eu um dia num caderno:

nunca me falaste da morte em vida


publicado por Ligeia Noire às 23:42
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25
Mar 11


Ainda vais demorar muito?

Preciso de acabar.

Preciso de ti.

O Inferno adensa-se e hoje o cheiro a adubo misturado com enxofre estava por todo o lado.

Como posso eu cruzar-me contigo, se o meu sono não endurece?

Não me deixes aqui sozinha, não vás embora.

O tamanho do meu desespero... não aguento, é isso, é assim, simples, tão simples que já nem sequer sei o chão que piso.

Não vás embora, não deixes que digam que morreste.

Procuro-te todos os dias.

Tu não podes ir embora, apieda-te de mim.

Isto não pode, tudo isto, tudo o que... não, não quero, olha daí para mim Supremo, olha para dentro, viste?

publicado por Ligeia Noire às 00:18
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18
Mar 11


Há muitos tu neste caderno medicamentoso, e apetecia-me falar do tu de hoje, o tu que não posso clarear em palavras, o tu que não sei se ainda gosto.

Tu que nunca sei como enunciar.

Tu que fazes com que tenha de metamorfosear e camuflar ainda mais as palavras porque és um espírito sempre presente e não tenho a certeza se quero que leias isto.

Como dizem os Interpol de uma golfada I am safe without it mas, às vezes, meus caros músicos, as coisas surgem, aparentemente, abandonadas à nossa porta e temos de as carregar no bolso.

E é assim que me sinto em relação a ti, que estou melhor sem te pensar, sem me lembrar, sem te trazer para

os olhos, às vezes, até acho que já morreu e não me sinto culpada por isso.

Tudo é dúvida, pelo menos em mim.

E também me pergunto por ti mas confesso que já não há atmosfera ou tempo para quebrar, aliás, não há coragem.

Mas hoje aconteceu uma daquelas coisas que me fez retroceder alguns anos e ver-me embevecida a contemplar as maravilhas do que não se pode explicar.

Já não esperava que o universo ainda se importasse em cruzar-nos a distância.

E de facto, parece que ainda não perdi a ingenuidade porque o coração tremeu e os olhos sorriram e eu com eles.

Como se aquilo tivesse provado, que tudo era verdadeiro, real e inequívoco.

Como se fosse suceder para além das nossas vidas e vontades. Como se fôssemos conhecidas de outras reminiscências.

E fiquei feliz por saber que o Supremo ainda não se esqueceu de nós e quer que nós façamos o mesmo.

Na verdade, depois de perceber que apenas eu me sentia alentada, todas aquelas coisas pesaram nos bolsos e na alma.

Não vejo as coisas planas e, se calhar, foi tudo empolado na minha cabeça desde o princípio.

E no princípio era o verbo e o verbo fez-se carne e, uma vez enxaguado dela e de sangue e coisas que alimentam a alma, este pereceu às mãos de si mesmo.

O verbo não foi eterno porque se consubstanciou.

Todavia, foi apenas na sua concretização, no seu alagamento com vida, que este pôde algum dia entender-se e ser entendido.


publicado por Ligeia Noire às 00:55

27
Jan 11


Acordei cedo, como sempre aliás.

Tive pesadelos, como sempre aliás.

Dormi mal, como sempre aliás.

E sinto-me a regressar.

Não me apetece comer, não me apetece levantar-me.

Já não sei falar.

Queria poder fechar as pálpebras, adormecer e não ter corpo.

Uma voz, lá longe e mais problemas, problemas no único universo que me atinge.

Gostava que a desconhecida se fosse embora, gostava de ter a fada verde no armário para me embalar.

Deveria ter feito coisas esta semana, deveria ter-me portado como uma pessoa.

Deveria ter respirado, deveria ter aberto os olhos.

Na verdade, tive-os escancarados, direccionados para dentro e vi, lá ao fundo, a quantidade abismal que está para chegar.

Tenho medo.

Achas que não deveria?

Não sei, tu nunca falas, se calhar não sabes falar.

Mas sabes ficar aí especado e sei que sabes medir a dor porque já te vi as mãos.

E sei que sabes que estou a partir-me em pedaços cada vez mais pequenos e sei que sabes que o faço deliberadamente.

Gosto de fingir que sou uma pessoa, gosto de fingir um futuro, gosto de fingir tudo isto antes de adormecer mas cansei-me.

Já não tem graça, já fingi tudo o que havia para fingir.

Já não quero mais.

Acho que já aqui te disse que se a corda de suspensão partir, escusas de intervir em sonhos, escusas de achar que sou tua filha ou irmã ou célula ou o que quer que seja.

Eu não tenho somente medo, eu estou verdadeiramente aterrorizada.

Foi tudo demasiado longe, quantidades industriais de lonjura.

Já não há mais nada do que desistir,

Talvez me vá deitar agora e deixe apenas a música de amparo.

Não estou zangada contigo, estou apenas triste e dorida.

É verdade, consigo estar ainda mais triste, consigo fazer o negro ficar ainda mais negro e dói saber isto.

Como queres que eu amanhã acorde?

Como queres que eu me levante e me sente a uma mesa estéril e engula um prato com comida?

Como queres que eu me vista e saia assim tão violácea para a rua?

Como queres que suporte olhos e mais olhos a quererem violar-me a dor, corpos e mais corpos entregues à completude, a passarem por este abismo?

Como queres que vá à selva?

Como queres que entre numa sala de ninguém e armada de caneta e folhas escreva coisas que não sei e não atinjo?

Como queres que me olhe ao espelho e não veja estes lanhos neste cansaço amortalhado?

Estou aqui há muito tempo, deste-te conta?

Deixaste-me aqui, há muito tempo, e fiquei no mesmo sítio, os meus pés, pequenos, são agora raízes.

Falo contigo por meio de letras e sons e olhos e dores e noites e sonhos e pesadelos porque és o único que me sabe toda e porque estou louca.

Gostava muito, assim demasiadamente muito, de poder chegar a algo, tu sabes… a alguma coisa que me pudesse abrandar, que me pudesse aliviar.

Neste tempo longo que é teu, que edificaste, que patrulhas, neste teu tempo em que eu nunca, sequer, me cheguei a apaixonar por alguém, homem ou mulher.

Mais um lanho neste rosto de abismo ou então é, (riso… arlequim salta e brinca com a rapariga que precisa de ir embora), como se estivesse apaixonada mas pelo amor ou então por alma que não cabe neste mundo.

Tu sabes, tu sabes sempre.

Achas demasiado?

Achas que…

Não sei o que achas, nunca falas.

É uma parte importante não é?

Dizem que sim, disseste um dia que sim.

Às vezes sinto falta de mim e sinto uma solidão imensa, tão grande que não suporto estar com alguém e isso parte-me mais bocadinhos.

A insuportabilidade de ter de continuar sabendo que nada disto algum dia mudará, sabendo que nada disto está realmente descoberto.

Sabendo que tu nunca vais falar.

Mesmo que eu pare de cair, mesmo que eu um dia pare de cair, se calhar nesse dia, descobrirei que tu és eu.

  

publicado por Ligeia Noire às 17:51
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17
Nov 10


Em verdade, em verdade, vos digo:

se não comerdes a Carne do Filho do Homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós.

Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue tem a vida eterna e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.

Pois, a Minha Carne é verdadeira comida e o Meu Sangue, verdadeira bebida.

Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele.  (Jo 6,53-56)

 

Viste-me a laçar os braços e a balançar o cabelo?

Viste-me a comer o pó e a molhar as mãos todos os dias?

Viste-me a mergulhar nos pesadelos e a gritar de garganta rasgada?

Deste-te conta de que as minhas mãos estão partidas e os meus olhos não são, senão, ribeiras que correm?

Tens sentido o tremor e a fadiga que exalo?

Não te cansas, também, das vozes incansáveis?

Ficas quieto quando me ouves estrebuchar em golfadas sôfregas de continuidade?

A violência desenhada nos teus dedos, a espera pelo receptáculo que te contenha.

A desvontade da vã procura.

A desflora, a cerimónia da completude.

Continuo à espera que desças, continuo à espera de morrer pela espada.

O ódio e a rejeição são tamanhos que temo já nem sequer conhecer-me.

Regaço vazio e dormente das horas que se acumulam, das pedras que carrego às costas, das veias que se acobrearam, de tudo o que fica lacrado e não corre, de tudo o que, morto, não apodrece.

De todo o cansaço e desapontamento que já não levanto do chão.

De todas as casas escuras onde procurei abrigo.

Será assim o final?

Ou terá ele mais espinhos e abrolhos e far-me-á o crânio ficar, ainda, mais apertado?

Onde está o teu filho, Supremo?

Onde está o teu filho para entrar no labirinto e desbastar as coisas todas?

Quero aquietar o coração, quero aplacar a alma, quero juntar as mãos e prender a vontade.

Fala-me de respostas e beija-me a fronte.

Preciso enrolar-me no teu colo para chorar o mundo e adormecer os olhos.

Espera por mim.

 

publicado por Ligeia Noire às 18:50
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