“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

29
Set 10


A fraca que cresce em hipocrisias

As sombras com dentes de luz sem carne para mastigar.

São costelas partidas em sangue coagulado

São sorrisos de puta e olhos de máscara veneziana.

Contempla devagar e crava os olhos em todos os lanhos, em todos os rasgões porque eu escapo-me e deixo-me ali, porque eu sou legião.

Porque eu sou o rato mirrado de patas calejadas.

Sei dos vossos olhos tenros que se fecham quando os julgam abertos.

Sei da travessia que tenho lapidada nas costas e do sal que trago nas unhas.

Sei quando o Supremo aviva as margens e me naufraga sem dimetiltriptamina.

O terror que se esconde nas minhas pálpebras, o suor que se cola, do pescoço às mãos, em cordas tensas.

Os dentes que rangem em estertores.

É o pesadelo do que me nasce sem possibilidade de aborto.

As sinapses que se revestem de úteros malditos e geram olhos de vidro, comboios siberianos, escadas industriais, medos feitos carne, sem rosto, dos quais me elevo e pairo numa queda constante e à qual regresso sempre e em doses absurdas.

Águas escuras e florestas que ficam ali, inexpressivas e abundantes.

Todos, todos.

Muitos e tamanhos e escondem-se dentro da minha cabeça e fazem ninhos e procriam e não consigo dormir e acordo e tremo e engulo o grito rasgado que delapida a garganta de tão descarnada.

E o dia trá-los, aos de fora, aos reais, aos que não metem medo, aos que se compõem de olhos virgens e peito cheio de furúnculos.

A esses... A esses dou-lhes olhos quádruplos e o espelho do festim de nevoeiro.

Na vigília há sempre velas acesas. 

publicado por Ligeia Noire às 00:30

17
Mai 10


Olhava para ela como um rato pequeno e mirrado.

Um bicho insignificante que pedia clemência.

Ela olhou-me do alto de si e, tremeluzente, foi-se embora.

Eu fiquei no meio da humidade da cave, à espera, a comer-me e a comer-me… talvez a mim pertencesse o condão da finitude.

Anos e mais anos cheios de dias de dor insuportável, foram-se empurrando e aglutinando em cima das minhas costas, as costas de um pobre rato de bigodes encarquilhados.

Ela voltou vestida de tudo e disse:

O teu espaço é tão grande e tu não sais do sítio!

Já não sabia rastejar, já não sabia se tinha corpo.

O corpo de um rato cheio de nada.

Eu era o que sou e eu sou o que fui.

Sempre que ela descia ao meu ninho, eu podia perceber de quanta miséria era portadora, de quantas chagas me ocupavam as patas, dos restos de pêlo que do meu corpo apodreciam.

E, desta minha indignidade, conseguia ver todo o vazio que exalava.

O vazio que ocupava, o vazio que sentia e o vazio em que vivia.

Eu era um rato esfacelado de vazio.

Um rato disforme, um rato que havia caminhado com as suas patas pequenas até à cave, que de negra era tão virgem e tão mãe.

Ela era uma coisa.

Uma coisa que me fazia arder os olhos.

Ela alcançava o meu gasto e ressequido pescoço de rato e provava-me o quão literal é "quase-morrer".

Ela dizia-me muitas coisas sem palavras… coisas que me deixavam os olhos fechados pela dor de tamanho alcance.

Ela fazia doer tudo o que ainda se escondia por debaixo daquela pele escamada de rato.

Os meus ossos mendigos e definhados ressoavam a voz dela e eu ouvia-a muito, como se toda eu fosse ouvidos.

Ela só falava coisas pequenas e raras, coisas que me faziam chorar.

Ela era tamanha.

Tão grande, que os seus braços me tocavam o coração.

Eu tinha um coração, um coração de rato pequeno, também ele mirrado e espesso.

Ela tocava-o com aquelas unhas de mármore, garras que me colhiam os gemidos.

Era um buraco a minha casa.

Eu tinha uma casa.

E essa casa, era a casa de um rato.

Quando abri os olhos pela última vez, vi-a de perto.

Tinham passados muitos anos, anos mais compridos do que aqueles outros.

Tempos sem que ela me viesse encharcar a cabeça de coisas feias.

Coisas feias que aleijam e não se esquecem, não cessam e abrasam de lâmina afiada.

E lá estava ela, vês rato pequeno, vê-la ali?

Com aquela voz que não é igual às vozes disse-me em tons de vidro:

Foste assim de bicho vestida e, vais assim de bicho que jaz com os olhos pequeninos e aguados, como quem

sempre pediu um bocadinho de pão, daqueles muito pequenos, e ficou uma vida à espera de que lhe matassem a fome.

Ela debruçou-se do alto da sua altura e pegou-lhe numa das patas, colhendo-o como se colhe um rato da cave, tão pequeno que, naquela altura de branco vidral, nem sente.

Nem sente.


publicado por Ligeia Noire às 00:19

06
Fev 10


As vezes o tempo pára e começas a aparecer devagarinho.

E pedes-me que te alcance e te olhe por dentro, como se fosses um copo de vidro.

Estou enamorada de um conjunto de fantasmas, crio tudo aquilo que não existe.

O cansaço e a violência às vezes dão lugar a isto.

E todos os locais me enfastiam e tudo me parece remoto e desnecessário e todas as coisas são parte do meu cavaleiro utópico.

O ar fica encalhado no meio da garganta e, de tanta impossibilidade, ao chegar a este mundo só me apetece volver.

Grades e grades e mais grades com correntes.

Desespero.

As paredes do quarto apertam-se e de repente são as costelas que sinto apertadas impedindo o sangue de se prolongar no peito.

Sinto o corpo contraído e náuseas e vertigens e a respiração descompassada.

Só me apetece gritar, partir tudo.

Como se estivesse a sufocar de impossibilidade.

Gostava de poder fechar-me numa canção.

Não queria ter de sentir esta insuficiência de vida.

É o que dá viver ao género da Alice no país das wonderlands.

Só vivo realmente na minha cabeça.

Rejeito tudo porque nada me absorve, satisfaz, extasia como aquilo que moldo cá dentro.

Assim é.

 

publicado por Ligeia Noire às 14:12

01
Jun 08

 

I'm a loser baby so why don't you kill me?



publicado por Ligeia Noire às 13:54
etiquetas:

14
Mar 08


Eu imagino-me por entre os teus braços.

Eu imagino-me a soluçar de prazer, de dor, de sortilégio.

Eu vejo os meus cabelos por entre os teus dedos.

Eu suo.

Estás.

És meu.

A tua língua perdida nas minhas unhas.

A força dos teus braços, o som da minha resistência ao embater na parede gélida.

A prisão deliberada.

A violência…

As minhas lágrimas caem-te nos olhos.

Os gritos inaudíveis de tão mudos.


E eu ali.

O meu uivo continuado e sôfrego.

A tua exalação no meu pescoço condenado.

Esqueço-me de como se fala.

Arroubada.

És absinto escarlate, sinto-te os dentes.

Doem-me as mãos mas não cesso porque já não sei processar a dor.

Beijas-me, tu beijas-me e deitas-te no meu peito desabrochado.

Não quero acordar, adormeceste a minha existência.

 

publicado por Ligeia Noire às 14:00
etiquetas: , ,

29
Fev 08


I push my fingers into my eyes

It's the only thing that slowly stops the ache

But it's made of all the things I have to take

Jesus it never ends, it works it's way inside

If the pain goes on...


I have screamed until my veins collapsed

I've waited as my time's elapsed

Now all I do is live with so much fate

I've wished for this, I've bitched at that

I've left behind this little fact

You cannot kill what you did not create


I've gotta say what I've gotta say

And then I swear I'll go away

But I can't promise you'll enjoy the noise

I guess I'll save the best for last

 

My future seems like one big past

You're left with me 'cause you left me no choice 


(I push my fingers into my) eyes

It's the only thing that slowly stops the ache

If the pain goes on, I'm not gonna make it!


Put me back together or separate the skin from bone

Leave me all the pieces, then you can leave me alone

Tell me the reality is better than the dream

But I found out the hard way - nothing is what it seems


(I push my fingers into my) eyes

It's the only thing that slowly stops the ache

But it's made of all the things I have to take

Jesus it never ends, it works it's way inside

If the pain goes on, I'm not gonna make it!


All I've got - all I've got is insane


(I push my fingers into my) eyes

It's the only thing that slowly stops the ache

But it's made of all the things I have to take

Jesus it never ends, it works it's way inside

If the pain goes on, I'm not gonna make it! 


All I've got - all I've got is insane


Letra da autoria de Slipknot/Lyrics by Slipknot


publicado por Ligeia Noire às 13:55
etiquetas:

13
Abr 07

 

 Mesmo que a força me largue abandonada, persistirei contudo fraca mas viva porque os meus lábios mover-se-ão ainda...

Mesmo que tudo isto me teime em sufocar, o destino prefere-me desesperada a sepultada.

Ainda que não possua a capacidade de deter belas palavras e de as ornamentar de melancolia, elas bailarão para a eternidade na minha mente como: sons, reflexos ou sentimentos sem, no entanto, o meu corpo as conseguir descodificar e mover para que doa menos um pouco.

Mesmo que dê muita vontade de cortar até ao fim, enlaçar até ao fim, suster até ao fim, existirá sempre a vontade física a subsistir por mim...

publicado por Ligeia Noire às 08:59

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