“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

07
Jun 13


Ante Scriptum: Tenho de me levantar demasiado cedo amanhã, tenho de aturar aquele bando de aves migratórias mas nada disso importa porque sei que isto vai ficar na minha cabeça o dia inteiro para me embalar enquanto o invólucro me esconde o miolo.

 

All is quiet, empty streets,
All is quiet, the city sleeps,
Close my eyes,
On my knees,
And time is passing me by;
Time is passing me by,

I can't move, can't turn back;
Out of reach, my heart is black.
My silent shout
Won't set me free
And time is passing me by.

Time is passing me by. Time is passing me by. Time is passing me by...

 

Letra da autoria dos Cult of Luna

 

Esta banda Sueca tem-me prostrada aos seus pés desde a primeira vez que as minhas orelhinhas os encontraram, os meus ouvidos digo.

Eu gosto tanto deles que tenho a certeza que, enquanto não os vir ao vivo, não morro.

Sim, é assim tão dramático.

Hoje, neste dia de nada, encontrei um brinde, um segredo, uma música, uma pérola que me levou de volta ao Inverno, aos pingentes de gelo.

Gosto tanto e estou tão feliz que disse cá para mim, há que eternizar isto, tenho de escrever isto porque, como sabes, aqui não há lugar para mais nada, não há vídeos nem imagens, só palavras, então há que escrever, traduzir o que vai aqui dentro.

Deambulava eu por esses ciberespaços fora, quando encontrei um vídeo de uma canção dos supracitados suecos, a Passing Through, do mais recente disco Vertikal.

Esta canção é a minha preferida de todo o álbum.

Não é cantada pelo Johannes mas pelo Fredrik, numa voz cândida e cristalina e doce que vai tecendo as palavras uma a uma, como se estivesse estado ali, naquele sítio nevado, durante a gravação do álbum.

Num dos concertos que deram em Helsínquia, a banda foi convidada a tocar, acusticamente, assim... uma espécie de curta-metragem.

Então, quatro deles foram para uma espécie de portuário ou estaleiro naval, nada que espante pessoal que gravou num antigo hospital psiquiátrico ou num celeiro no meio de uma floresta.

A dureza do ambiente que se revela bela num instante, faz-me lembrar daquele sonho com as máquinas gigantescas, a mesma sensação de que não há mais ninguém no universo, és tu e o Mundo.

Aparecem ali, assim, aparecem e tocam com neve a cair, sem parar, neve de um céu nocturno que brilha quando se cruza com um luzeiro e, sem caldeirão ou pentagramas, proporcionam ao Mundo feitiçaria da pesada.

Eu nem sei bem explicar mas é tudo o que sempre quis que uma das bandas que me está perto do coração fizesse, são todos os meus lugares comuns realizados de uma só vez:

Noite

Neve

Inverno

Vento

Música

Escandinávia

 

É tão bom mas tão, tão bom que já tenho vontade de viver mais um bocadinho.

 

We shot it in one take and my fingers were so cold that I couldn't feel them after only halfway through the song, I didn't get the feeling back for over 30 minutes after we got inside. All wind sounds you hear are real — no special sound effects to make it sound cool — the sound is straight from the mic. It was fucking freezing and fucking windy. The blizzard came from Sweden where it had closed cities and roads and it got worse later on during the night. The images actually do not give the cold justice. Johannes Persson

 

Depois do Klas ter saído, não achei que seria a mesma coisa, fiquei mesmo fodida e como o Anders também anda por aí ocupado, confesso não ter feito grandes esforços para os ir ver em Janeiro, pronto.

Para além da voz do Klas ser grandiosa e servir que nem uma luva ao tipo de som que fazem, a sua atitude carismática, elegante e portentosa em palco dava aquele toque especial às actuações mas estes gajos nunca andaram à volta do espalhado mas do conciso, do conceptual, da unidade, do todo.

E isso não os tombou, são oito gajos em palco porra!

Bem, agora sete, dois deles a tocar bateria e já foram um bando, parecem um exército, não há declínio, há movimento.

Este disco, de capa maravilhosa, voltou a acordar hoje, sinto-me em casa e bem preciso de me sentir em casa.

 

publicado por Ligeia Noire às 21:26
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05
Mar 13


Somos órfãos até de nós próprios.

Abandonámo-nos.

Não há nada aqui, não há magia, esperança, fé.

Não sei como era séculos antes, ou nos primórdios... mas, agora, está tudo ainda mais maquinal do que na ida Metrópolis, não há nada aqui em baixo, já não há, acredito que houve, nalgum momento no tempo mas não agora, não agora.

Não há misticismo, mistério, fantasmagoria, epifanias…

Estive a ouvir Sigur Rós, aquela música que parece uma litania fúnebre.

Nos meus anos de adolescente, lembro-me de estar a ver a tabela de discos na televisão e do nome destes gajos aparecer, várias vezes, por ali. Passavam telediscos deles também, deviam vender bem por cá, aliás sempre tive a ideia de que a relação de Portugal com eles era bastante profícua.

Na altura não ligava muito a música, nem sabia bem o que era.

O que passava era uma merda e aquilo que não o era, não chegava cá.

No caso destes islandeses, não percebia ou achava aborrecido e demasiado divagador, já não recordo.

É curioso que, mesmo na altura da ditadura das editoras, que graças à internet acabou de vez, havia alguns furões que conseguiam escapar até lugares tão recônditos quanto aqui o bosque que, certamente, seria bem mais perdido que Reiquejavique.

Estou a conhecê-los, hoje, depois de tantos anos…  hoje e agora que a minha cultura de música etérea e shoegaziana é um pouco melhor e a solitude mais à vontade.

Nas alturas em que me resvalo, um pouco, da violência para permanecer por outras paragens, páro muito.

Devo agradecer aos Alcest que, tantas bandas novas e admiráveis já me ofereceram e que, uma vez mais, me desataram novos/velhos atilhos.

E, pronto, já que o Winterhalter e o Neige foram gravar o novo disco para a Islândia, no estúdio e com o produtor dos Sigur Rós e, graças a uns pozinhos vampirescos lá me decidi a visitar as encostas destes ambientes sonhados.

Escusado será dizer que as que mais me adocicam são as tristes, as muito tristonhas.

Impossível não me lembrar, um pouco, dos Dead Can Dance, Cocteau Twins e mesmo dos My Bloody Valentine, tudo divindades e, mais uma vez, é preciso maturidade e calmaria para namorar as conchas.

A escrever-te e a lembrar-me do primeiro concerto que os My Bloody Valentine deram em Portugal, foi num festival novo, lá p’ro Algarve, onde os Offspring eram cabeças-de-cartaz e actuavam a seguir aos referidos, já podes imaginar o conflito de públicos…

Li por aí um fã da banda americana dizer que até gostou do som dos irlandeses (à parte do holocausto) mas que gostava que os vocais estivessem mais audíveis, fossem mais proeminentes.

Destaque é tudo o que o Shoegazing não é, aliás, conta-se por aí que o epíteto do género foi começando a pegar porque os guitarristas que iniciaram por este terreno estavam sempre de cabeça baixa, olhos postos nos pés, isto é, nos pedais a causarem a tão definitória distorção.

Assim, a voz neste género não tem a mesma superioridade ou não coloca a cabeça no outeiro como a da ópera, a do rap ou a do RnB.

A voz, aqui, é mais um instrumento, as palavras só estão ali porque sim, podiam significar coisas ininteligíveis, podiam, olha a glossolalia da boca da Elizabeth Fraser, da Diamanda ou mesmo o dialecto esperançoso do vocalista dos Sigur Rós, não interessa, é para o the greater good como diria o Reznor que anda por aí a espreitar.

E não sei porque fui por aqui, eles nem sequer são shoegaze, são pós qualquer coisa, rock, sim rock ah já tinha dito…

E coloquei os auscultadores e fui à deriva até ao monte.

Já estava a escurecer e caiu aquela ambiência nocturna que me causa água na boca, o céu com bocados bem escuros, o vento espesso a sacudir as árvores todas, ainda bem que tinha o cabelo entrançado e preso com ganchos, não chovia e estava frio seco.

Lá de cima, olhei para o lá em baixo e lembrei-me da dureza de tudo e lembrei-me de uma entrevista do Johannes dos Cult of Luna aquando, provavelmente, do Somewhere Along The Highway, ou seria do Salvation?

Não, não era… em que eles tinham ido gravar para um celeiro, ou cabana lá p'ro meio dos nenhures suecos e, durante a noite, viram uma rapariga de branco lá ao fundo e nunca chegaram a saber de onde vinha ou para onde foi…

Bem, se calhar inventaram isso, como inventaram a historia do Holger Nilsson no Eviga Riket, confesso que fiquei fodida, até já estava com ideias de traçar um paralelo entre os males do Reino do Ugín e o mal nascente do Twin Peaks mas agora não me apetece, não, que não existam pessoas, aparentemente, sofredoras de distúrbios mentais a cometerem crimes e a não assumirem os mesmos, acusando seres aparentemente fantasiosos…

Digo isto porque estava ali, no alto, com o vento a levantar as folhas que não caíram e o céu negro cedia algumas pingas de chuva ou lágrimas de Deus porque a música chorava e porque o Mundo é um lugar tão triste e tão sozinho e tão sem pai, porque estou triste e quando estou triste todas as gotas são lágrimas.

 

publicado por Ligeia Noire às 01:08
música: "Dauðalogn" dos Sigur Rós
sinto-me: de noite

01
Out 12


Espera e escuta:

Não sei se estou a forçar-me a pensar assim mas há momentos antes de adormecer em que se escondem, por detrás das pálpebras, vislumbres de querer ser a tua mulher: Cavaleiro-das-Terras-Brancas.

Vestir a renda que teceste desde o dia em que me viste de vestido sem cor e cabelo todo descido, ó aranha laboriosa, ser assim e acreditar nesse "ser assim", piedosamente.

Também eu quero entrar nesse estupor e apagar tudo o que se fez de mim antes.

Existem estes momentos daninhos em que penso que, talvez, pudesse ser feliz se subisse ao teu cavalo, é como se eu fosse duas, a que quer durar no abismo rodeada de pecado, avassalando o corpo para desumanizar a alma e a que quer escolher o caminho sem lobos.


Lamb of God have mercy on us

Lamb of God won't you grant us?

 

Existem estas vontades dentro de mim e há trilhos que corroboram as duas.

Esta portinhola donde me espreito com ele e me ouço a dizer que não haverá melhor pescador, ao que objectas:

e o que faz deste melhor do que os outros?

E com franqueza te clarifico meu amigo, ele não é sequer pescador é cavaleiro e o cavalo é branco.

Agora, que me permiti a ver a impossibilidade de animar o meu Frankenstein e que o Aristocrata não existe, pelo menos aquele que eu fazia dele, vingo-me na aceitação da normalidade bacoca dos dias que começam às nove.

E objectas outra vez, ao quase ter fechado a boa vontade a estes vislumbres de luz em horas de sono:

Queres fazer isso para acabares com as tuas vigílias, fechar a porta e oferecer sorrisos cheios ao que te ama e aos que te esperam inteira.

Espera Supremo, deixa-me descer daqui, puxar a aldrava e molhar os dentes.

Sabes… não há propósito neste soalho, nesta manta nos pés descalços ou no amortiçar dos olhos na Geena, não sei se é desistência ou impossibilidade, sei que é tristeza sem cauda.

…porque a minha outra vontade, meu senhor, a urgente, a extasiada, a licenciosa, a mais funesta das vontades feitas fome quer atingir o mais puro negro, engolir negritude sem plenitude possível, transfigurar-se em pura fonte de carvão, que jorrará na boca do mais casto dos lírios brancos, até que essa maldita flor nevada se torne negra, faça a chuva que fizer.

É negra que a quero, negra, tão negra que tudo o que se acercar do bocado de terra onde ela esbracejar as raízes se torne negro também, como se ela fosse um sol pousado.

Ser imprópria para consumo, desgraçada, obscena, vadio vaso quebrado sem retorno ou extrema-unção.

Escandalizar e escancarar olhos e bocas além-caminho, mostrar-vos o avesso do que vos abscondo, ó mundo expirado sem saber de suicídio.

publicado por Ligeia Noire às 14:50

03
Ago 10


You woke me up, left me naked in a world that I dont recognize anymore.

Who is responsible for this?

The only thing worse than evil is apathy, a crime we are all guilty of.

So we just walk along in silence but now... I cannot go further.

 

Lyrics by Cult of Luna/Letra dos Cult of Luna

publicado por Ligeia Noire às 12:21
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09
Jun 09


The sun.

The light in your eyes,

trapped me in a cage.

When you saw me, you saw yourself.

We were the ones who marched and fell.

 

Letra da autoria de Cult of Luna/Lyrics by Cult of Luna

publicado por Ligeia Noire às 01:07
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08
Jun 09


Night falls, silence takes a grip.

Guilt I retrieved, a burning will to die.

I need this to be over before I am bleeding dry.

Somewhere along the highway these tracks must end.

I pass a crowd on my way to the house on the hill.

Dead man with pitchfork arms tells me all that he knows.

Leave me here for the crows.

In the Fall she came back and with her, the birds. 

 

Letra da autoria dos Cult of Luna/Lyrics by Cult of Luna

publicado por Ligeia Noire às 23:11
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31
Ago 08


Crossing over


Traces in snow

A red line grows through and leads me below

Nothing on this side ties me

One step, one glimpse of an eye

One moment can change everything

Wait here 'til my words spread across the sky

And into the chambers of every soul


Letra da autoria de Cult of Luna/Lyrics by Cult of Luna

publicado por Ligeia Noire às 14:52
etiquetas: ,

20
Jul 08

 

I 

 

Todas as vezes que estive lá.

Todas as vezes que ajudei a engolir a dor.

Todas as vezes que arranquei pedaços podres e que magoavam, àqueles de quem eu cuidava com tanto enlevo.

Todas as vezes que o peito enegrecido ficava transparente para os acolher e lhes limpar a alma.

Todas as vezes que chorei porque fazia doer ver-lhes as lágrimas.

Todas essas malditas e insuperáveis vezes que eu estive lá.

Que eu deliberadamente quis estar.

E das quais não me arrependo porque as considero de uma sepulcral e cândida beleza.

Uma beleza que alguém, engenhosamente, nos deixou partilhar e, assim partilhando, se criar correntes de aço.

Uma corrente para momentos de queda livre.

Uma corrente que nos aprisiona quando nos damos em redenção, em escudo para sermos flagelados, ultrajados com os espinhos e pedras que infligem aos que amamos.

Algo que queremos fazer porque é bom, doce...deitarmos os que amamos no nosso colo.

 

II


Eles...

Por quem? A quem escrevo?

Não sei... não me apetece saber.

Odeio ressuscitar as coisas que os outros querem mortas.

As coisas que para mim nunca se cobriram de terra.

Sabes porquê?

Porque o mundo volta a ruir, a queimar, a enclausurar-me e começo a ter de deixar de esperar.

Começo, realmente, a aperceber-me de que, às vezes, é mesmo preciso resignarmo-nos à sentença de culpa.

Ao invés de lhes cuspir a doença, que nesta altura lhes seria imperceptível, porque a porta se fechou.

Às vezes, é preciso ser-se maior do que nós próprios...

Mas devo dizer que é um processo complicado, aquele no qual temos de lidar com o que sabemos não ser verdade.

Lidar com a incompreensão dos que querem ver com os olhos fechados.

Lidar com as fábulas em que nos querem inserir.

Lidar com o embevecimento daqueles que nos rodeiam e, sermos suficientemente enormes, para abarcarmos o

seu estado, sem nos mostrarmos como sempre fomos.

Para não corrermos o risco de nos acharem egoístas.

Para não corrermos o risco de nos acusarem de lhes toldarmos o mundo de negro.

Tudo isto é abrasivo e corrompe-me.

Chegando ao limite de me perder cá dentro.

De já não ter respostas e não querer perguntas.

E no limite, no reflexo do espelho, não sei se sou eu vinda do casulo ou se sou o próprio casulo, podre e apático que não se deu conta de que já não existe nada para proteger ou guardar.

 

III

 

É duro sermos e representarmos tudo um dia atrás do outro.

A demência.

O cansaço.

A perda.

O ressentimento.

A raiva.

A lembrança.

A violência.

A saudade.

É a mistura incolor num corpo e numa alma que, como um cálice, aprisiona o que só pode revelar à mais bela, pura e leal divindade – que não me encontra-.

 

IV

 

Disseram que de uma certa forma me consideravam ingénua.

O dia passou, a noite veio em meu auxílio e a palavra ressuscitou na minha cabeça.

O que é ser-se ingénua? 

Será esse um bocado de mim pelo qual as pessoas entram e tentam domesticar-me?

E acreditarão elas que me conhecem realmente?

Que sabem quem eu sou?

Estou cansada.

Sinto que vai ser difícil, muito difícil.

Por isso mesmo me ande a salvar constantemente.

Tentando provar a mim própria que me preocupo.

Porque na verdade estou sempre sozinha quando o corpo decide ceder e lançar-se em queda livre.

E seria demasiado deprimente ter de pedir para se aperceberem que, agora... agora é a minha vez de ser levada ao colo até ao descanso do abraço que clamo há tanto tempo...

Do refúgio que não chega.

Do colo que se afastou porque eu quero sentir que me querem deitada nele.

 

V

 

Eu gosto de flores e de quando em vez elas ficam fracas, perdem pétalas e a sua altivez esvai-se.

Nessa altura já eu tenho água a escorrer-lhes para as raízes.

A espera provoca a chegada do dia em que já só se poderá colocá-las numa jarra e assistir à sua morte.

Talvez deixa-las num livro para um dia recordar o quanto nos foram preciosas.

Às vezes é difícil confrontar as pessoas porque simplesmente elas não estão preparadas para abrir os olhos.

É como se estivéssemos em dimensões diferentes.

A culpa não é delas ou, se calhar, estou a ser demasiado ingénua...

 

*You woke me up.

Left me naked in a world that I don´t recognize anymore.

Who is responsible for this?

The only thing worse than evil is apathy.

A crime that we are all guilty of.

So we just walk along in silence, but now I cannot go further...

 

*Excerto de Echoes / Cult Of Luna

publicado por Ligeia Noire às 15:14

14
Jul 08

 

 I

 

O quarto está escuro, silencioso e vazio.

A música soa, as texturas dela assustam-me...

Fazem com que sinta o branco da parede a descolar-se e a dançar...

Dança pelo vazio, descendo, subindo e inundando a minha cabeça.

As cortinas ondulam, pesadas... sinto-lhes o peso.

Talvez porque as janelas estejam fechadas e o ar aqui dentro esteja morto e conturbado.

A cama esta quieta, muito quietinha.

Como se o meu peso a desinspirasse.

A música continua à minha volta e por momentos tive medo... porra como tive medo!

Aquele medo que nos esfria o corpo.

Nos esfria os ossos por dentro da carne.

A carne que sentimos a latejar...

 

 II

 

 Tive medo e quis acender a luz para toldar o escuro mais negro dos cantos mas esqueci-me de mudar a lâmpada ontem.

Resta-me abrir um pouco a janela por entre a cortina pesada que ondula.

 Estendo o braço e o coração salta, salto sem me mexer. 

Salto cá dentro, dentro do meu corpo.

Assusto-me porque, sem pré-aviso, a voz rasgou por entre os acordes...

Desesperada.

Raivosa.

Como se estivesse a penar por entre o nevoeiro que deambula lá fora.

O coração foi abrandando graças à paragem brusca.

Sustive-a porque já não aguentava mais... sou fraca... 

Tentei respirar bocadinhos da aragem orvalhada e densa que crescia lá fora.

Não havia luar nem estrelas.

O céu estava estéril e descolorido.

Voltei e desapertei o torniquete que a sustinha.

Soava agora um piano.

Um som pequenino que via lá ao fundo, junto à porta, com ganas de crescer.

A tinta tinha voltado a vestir as paredes de sempre.

Vi que as cortinas se tinham juntado à imobilidade da cama.

Esqueci-me de colocar flores neste quarto, esqueci-me.

Os meus olhos ainda percorrem os cantos que não querem luz.

Fechando-se com medo que a música lhes dê vida.

No entanto continuo, porque me é impossível deixar de ouvir.

 

 III

 

 Já não sei se estou aqui.

Continuo a sentir que não estou sozinha...

E, quando a música se engrandece do pequeno e difuso local à beira da porta, vejo-a levantar-se.

Flutua sem me deixar perceber a distância...

Abate-se sobre mim e fico inerte de corpo enquanto, cá dentro, o sangue escorre como se esperasse o golpe final.

Completamente desprotegida e com o coração aterrado.

Para lá da compreensão...

Para lá do dia...

A madrugada estende-se e coisas acontecem, brotam.

publicado por Ligeia Noire às 18:02

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