“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

18
Ago 12

 

I 

 

Já não desce e já não fica e não fica porque não desce, apenas e só.

São pressões no crânio, dores de interferências divinizadas.

Que bela sim continuas, que bela e amenizada em todos os teus traços delgados rapariga-que-tem-nome, e que poderia eu dizer-te, que poderia dizer-te eu?

És a escolhida, sempre foste dentre todas, já o disse, eu sei.

Hás-de de branco vestir-te e hei-de ficar doce de tão feliz por te ver o sorriso aberto. Prezada. 

 

II

 

(...)Yes, shall we take a spin again in business?
This time is fixed, let's sweeten our facilities
It took all the man in me
To be the dog you wanted me to be

Shall we take a spin again, no witnesses?
This time is fixed seven three seven is
You won't feel a thing
Begging until you give it up insane

Fish like little silver knives
Make the cuts on my inside
Yeah, let him feast my heart is big, my heart is big
My blood will slide in metal studs (...)


Agora tu:

Queria, ora pois que tudo em ti fizesse força para que as saliências dos teus dedos se desenvolvessem em garras cheias, pejadas de fomes que não se matam com pão branco.

Aliás, eras tu e o outro tu, e a maioria desses tu, porque ao meu Frankenstein jamais lhe concederia o pó animado, se todo ele não fosse um cão raivoso: o meu licantropo de noites uivadas.

Sei lá porque assim foi... o bloco de notas tem várias linhas que me vão surgindo em dias ocos, ora em noites cheias, linhas que preciso clarear, desenvolver, conter no caderno medicamentoso mas que, por estes dias de coisas de polpa, têm-se recorrido do que guardo nos casulos do crânio macerado.

Houve dois sonhos esta semana de que me lembro, no primeiro estava eu com... numa ponte que abarcava todo um ribeiro pedregulhoso.

Era muito, muito alto, como não poderia deixar de ser, e caiu-me o sapato, o meu preferido, lembro-me disto porque mais uma vez os meus sonhos de preto e branco deixaram mostrar as pinceladas carmíneas que adornavam o sapatinho cinderelesco.

O outro foi hoje, ou ontem, sonhei com aquele mancebo conhecido, gosto dele, havia aproximações reclusas quando um indigente surgiu limpando o rosto a um lenço de pano que ia tingindo de sangue quente.

O lenço metamorfoseava-se em imundície, mancha pecaminosa, doença e coisas de atravessar a rua para o outro lado.

Atirou-o para o caminho de pedrinhas acasaladas e foi-se.

As aproximações não continuaram porque o lenço fazia, agora, as honras da casa.

Canta 3D... os segredos todos: 

 

Atlas Air

 

Yes, shall we take a spin again in business?
This time is fixed, let's sweeten our facilities
It took all the man in me
To be the dog you wanted me to be

Shall we take a spin again, no witnesses?
This time is fixed seven three seven is
You won't feel a thing
Begging until you give it up insane

Fish like little silver knives
Make the cuts on my inside
Yeah, let him feast my heart is big, my heart is big
My blood will slide in metal studs

Tourniquet will hold its groove
Tourniquet will keep its grip
It took all the man in me
To be the dog you wanted me to be

Yeah, let him feast my heart is big
My heart is big, my blood will slide
You let him feast my heart is big
My heart is big, my blood will slide

Got nothing to lose but my chains
Internet feeds on my brains
Head in the sand, feet in the clay
And time is still like grease it slips
Sucking in, spitting pips, yeah, spitting pips

Nothing to lose but my chains
Internet beats on my brains
Head in the sand, feet in the clay
A place to piece, a place to pray

A little money should get me on my feet
This gun of smoke is slaying me
And time is still like grease it slips
Sucking in, spitting pips, yeah, spitting pips

My heart was big and like my pride
Let them feast on my insides
And when the filled had spilled its guts
Gently open then it shuts

I'm in the hole three thousand days
A buried soul
They live the dream in terminal
No war too mean

I know the drill, got cells to burn, I'm dressed to kill
A mortal coil and time is still on secret soil
Yeah, pay the bills, cells to burn, mouths to fill
On Boeing jets in the sunset make glowing threats

 

Letra dos Massive Attack/Lyrics by Massive Attack

publicado por Ligeia Noire às 15:42

08
Mar 12


Ontem, na minha correria para o átrio a que uma amiga chamou das andanças do Robin dos Bancos, reparei por entre as japoneiras num rapaz que me parecia o ruivo, sim esse mesmo, as mesmas vestes cinzentas, e o mesmo capuz, estava de costas mas aqueles passos pesados e indiferentes… talvez não fosse, talvez não fosse.

Tenho-lhe muitas saudades, foi um dos que mais me fez esticar a corda e o mais carregado de acasos e, claro, o que melhor me perfez o Frankenstein.

Hoje, pelo caminho, reparei num quadro vivo na esplanada de um café onde a catraiada da escola básica gosta de palrar.

Numa mesa amarela, com cadeiras amarelas, estava uma senhora ou seria senhorita?

Não sei, a aproveitar o céu azul e o sol outonal.

Lembrei-me do Mário de Sá-Carneiro…

A mulher dominava o cenário de preto acutilante vestida, de saltos que tocavam o céu, espraiava-se inteira numa esplanada deserta.

Não se movia, não tinha o olhar num outro mundo, como costuma suceder às raras figuras que me prendem os olhos mas tinha-o ali, presente mas no cimo de uma montanha, um olhar feito de adagas de gelo.

Gosto deste meu passatempo, mais do que enrolar os cabelos nas pontas dos dedos mas menos que raptar flores, gosto demasiado de observar e, às vezes, acontecem estes quadros bonitos, de pessoas que tingem o círculo da imobilidade.

Bem, mas vamos aos assuntos pequeninos. 

 

Don’t run from me, I won’t bother counting one, two, three

 

Uma das coisas em que descobri estar errada, é no cansaço a que me permito em relação a determinar pessoas, apercebo-me de três ou quatro traços e não me amolo mais em pô-las à prova.

Ora bem, que dizer, quando brincava em desatar ou não os laços...

Hoje reparo que fiz bem em mantê-los atados. 

Já não me impressionas, afinal não és tão alto como julgas.

E tu, bem, tu nunca chegaste a ser considerada, enfastiaste-me antes disso, ao contrário do primeiro exemplo, tu quiseste subir à pressa, desleixadamente.

De ti, não foi preciso recuar, sempre estive sentada na sacada.

Enquanto lavava uma camisa branca e estroinava os ossos ao som da voz do maldito, reparei que as coisas pequenas são mesmo isso, pequenas.

E a ti, será que ainda faz sentido colocar-te num assunto dos grandes?

 

I’m weak, seven days a week

 

Yeah babe, é desta forma que sou fraca, de neve enrolada e de olhos escancarados e pálpebras fechadas, esperavas que me lançasse e amenizasse, era assim que me querias?

Foi por isso que me bateste à porta, três vezes?

Será por ser esse, o número perfeito?

Pena que o meu sempre tenha sido o sete.

É isso, percebeste bem, minha pungente flor-selvagem, vai batendo, bate durante a noite e de preferência à hora das bruxas.

Não, não vou abrir mas sabes o que me apetecia, assim, mesmo muito?

Sabes aquele castiçal de velas velhas?

Pois, esse mesmo.

Não achas que ficaria encantador no parapeito da janela, pois, eu também acho mas claro, as cortinas teriam de ficar bastante afastadas, não queremos um incêndio (alheio), certo?

As janelas brancas da casa de pedra, bem trancadas, a porta com a aldrava e os fósforos que sobraram do Inverno serviriam para iluminar de vermelho este velho castiçal e, como eu me deito tarde e as noites vão azuladas, nada melhor do que contemplar a mãe-lua e deixá-la trespassar-me o corpo.

Acetinar a pele traz-me sono.

Pois, se calhar até adormeço de cortinas abertas, está uma noite tão deliciosa, não te parece?

publicado por Ligeia Noire às 20:40

21
Set 11


É tantas coisas, purificador, vida, quente, denso.

Laço.

É-nos familiar, reconhecemo-lo.

De certa forma acalma-nos, reduzimo-nos à nossa fragilidade viva na sua presença.

A mão fria, matutina que encosta os seus dedos compridos ao pescoço.

Ele está ali, por debaixo da fina camada de pele.

Se te debruçares na claridade, podes segui-lo nas veias e capilares rendilhados do corpo.

O sangue quente que volteia em grandes e pequenas viagens.

O sangue sagrado que encheu o cálice do Filho feito Homem.

Nascemos do sangue e quando o seu reduto se estanca, morremos.

Mas e quando não há sangue?

Como naqueles filmes raros em que não há torturas medievais, nem esquartejamentos de matadouro… há o medo sem rosto, apenas… o medo que levámos para a cama, no escuro.

De que rir?

De que sentir agonia?

A ferida que não brota.

Não há porque colocar curativos, torniquetes, ataduras… e agora?

Não entendemos, assustamo-nos, não há nada e se não podes curar, estancar, cortar, coser… é porque é grave, está podre, está a inundá-la por dentro, sufocá-la-á.

A pele está pisada, os olhos estão fundos, as mãos tremem, a pele enrijece mas não há fonte.

O sangue líquido é um alívio, significa que a vida ainda reside.

Mas quanto silêncio, quanto temor, não nos habita na presença de uma ferida que não jorra?

Que não pode ser estancada por falta de entrada...

A capa do disco Halo dos Celan só se pode equiparar à Écailles de Lune dos Alcest e mesmo assim… prefiro a primeira, o que é dizer muito.

Deve ser porque tem vermelho e vermelho sempre foi a minha cor, principalmente se morto.

É, acho que seria um bom cenário para este devaneio ou melhor seria se pudesse trocar todas estas palavras pela imagem daquele álbum.

Diria tudo o que aqui quis dizer mas que não consigo por falta de tudo... engenho, paciência, existência real.

Tudo o que importa é simples, a beleza é simples, a simplicidade é intrincada.


publicado por Ligeia Noire às 21:21

24
Jun 11


Ontem, ontem, ontem vi o meu Frankenstein, inteirinho!

Não há acasos.

Continua tão… é o mundo… chama-nos e é fascinante quando nos apercebemos de que nem tudo é cimento e fome.

Tão seguro, tão ruivamente belo, o cigarro na boca, as mãos alvas e os olhos escondidos.

De onde és tu?

Para onde vais?

Voltas?

Fizeste-me rir, ri muito quando te vi do nada, assim como um santieiro.

Que orvalho te alimenta a encantamento involuntário? 

 

Post Scriptum: Fizeste-me lembrar o Eric Vonk.


publicado por Ligeia Noire às 18:59

03
Mar 11


Um dia destes, quando estava nas escadas à espera, vi uma pessoa dispersa.

Cabelos e barba ruiva, cheio de chuva. Foi a primeira vez que vi um olhar assim.

Ele olhava em frente para algo que não existia, ele fumava o cigarro lentamente. Ele sentou-se no autocarro e encostou a cabeça ao vidro.

A desvontade das suas mãos, os olhos dele estavam tão longe e tão irreparáveis que cheguei a casa e os meus agitaram-se.

Outubro de 2010


E hoje voltou a aparecer, mas desta feita, estava cheio de sol, reconheci-lhe o cabelo enquanto estava sentado nas escadas, como um lagarto a aquecer o sangue liso.

Como é belo, como é ruivamente belo.

Tem um rosto estranho de tão preclaro e brinca com as mãos.

Na calmaria do seu cigarro, na certeza dos seus passos, deixa deliberadamente transparecer o seu jeito áspero e distanciado.

É delicioso presenciá-lo.


publicado por Ligeia Noire às 22:27
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24
Fev 11


E, às vezes as coisas vêm ter connosco.

Na cor do prato em que almocei.

Na sangue que tingiu a rosa do Oscar Wilde.

Na japoneira que atapetou o caminho para casa.

No esmalte que me aformoseia as unhas.

No sumo preferido.

Nas minhas bochechas.

Na Chemical Wedding do Bruce Dickinson.

Hoje foi o teu dia, Mulher Escarlate.


So the nightingale pressed closer against the thorn and the thorn touched her heart and a fierce pang of pain shot through her.

Bitter, bitter was the pain and wilder and wilder grew her song, for she sang of the Love that is perfect by death, of the Love that dies not in the tomb.

And the marvellous rose became crimson, like the rose of the Eastern sky.

Crimson was the girdle of petals, and crimson as a ruby was the heart.


Excerto da história The Nightingale and the rose da autoria de Oscar Wilde


Post Scriptum: Li este conto e perco-me da altura em que o fiz... mas não poderia ter havido dia mais alinhado para que ele viesse bater à porta uma vez mais. A vida é um riso escarninho.

publicado por Ligeia Noire às 21:41
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27
Dez 10

 

Era uma janela alta.

Era uma floresta escura.

Era um sono induzido.

Era uma queda ininterrupta e rubra. 

 

A dama de paus cerrava os punhos e as unhas cravavam-se-lhe na carne rosada.

A dama de paus era preclara e minha.

As bagas cresciam e desenrolavam-se ao sol, as urtigas ladeavam toda a cercania, a imensidão tolhia-me os passos.

E foi assim, errante, que a encontrei.

Coberta pelo entardecer, adocicada e de faces translúcidas.

A minha dama de paus jazia encoberta de nada e furtiva do alheio.

Recolhi-lhe aos olhos duas gotas e ela espreguiçou-os, senhora escarlate.

Levantou-se como uma folha de Outono ao vento e deu-me a mão de vidro.

Trazia os cabelos envolvidos em grinalda de azeviche e os meus olhos não cessavam de a rasgar.

Seriam pois, carmesim, envergonhariam as framboesas que lhe iam resvalando para a boca.

Onde seria essa câmara dela?

Para onde arrastava ela as vestes?

A minha mão tinha-a, os meus olhos beijavam-lhe os cabelos e derramavam-lhe lírios nos pés.

A grinalda era imensa e o rosto escondia-se de mim.

Era um portão alto.

Era um dia a adormecer de Outono.

Eram sapatos graciosos, a desabrocharem caminho por entre as nozes.

Era a mão dela a prosseguir na minha.

Entrámos e o arvoredo escuro de amoras, bétulas e teixos abarcava-lhe o resguardo.

Ela acendia candelabros e castiçais e movia-se como uma sombra.

A câmara alumiou-se, havia urze branca na janela.

Aproximou-se de mim, deixou cair a obscuridade e vi.

Vi-lhe os olhos de ribeira.

Senti-me crua e impossível e mais ela derramava a alma.

A minha dama de paus estava quebrada e chorava, como se eu estivesse a trespassá-la com uma adaga.

As minhas mãos não sabiam de curas, os meus braços não tinham força que a estancasse.

Ela era dela e eu minha e, no entanto, sabíamo-nos de cor e eu não a conseguia conter.

Desci-lhe as mãos ao peito e abracei-a toda.

As lágrimas dela, tão cheias e incessantes, caíam-me pesadas e quentes no pescoço e, o coração, adensava-se-me ao ouvi-la sibilar de dolência.

Minha menina...

Abri-lhe o cabelo e entrancei-o nos meus dedos.

Provei-lhe o rosto e deitei-a no meu colo.

Segurei-lhe o corpo e a lua foi entrando no céu de veludo.


publicado por Ligeia Noire às 02:10

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