“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

04
Fev 15

 Desde que, há uns anos, cheguei ao episódio catorze da segunda temporada do Twin Peaks e aquilo empacou e não encontrei um que não empancasse, desisti de ver. Quando finalmente consegui um episódio incólume, já me tinha esquecido do que tinha visto antes e já estava fora daquela ambiência. O que significa que o Fire Walk With Me vai ter de esperar.

 Entretanto, voltei à trilogia japonesa do Guilty of Romance, um filme de três horas que ainda está à espera de ser acabado. Uma verdadeira subversão da moralidade religiosa e social. Depois, ando a ver um filme do senhor Chabrol, ando... ando porque é mais um que deixei a meio por falta de concentração.

Como descobri este gajo? Porque gostei, assaz muito, de uma entrevista que li num jornal português qualquer. Tanto gostei da atitude e maturidade dele que fui procurar por um filme para me iniciar mas não sei se o filme não me estará a dar um secão do caralho, e calma aí que sou grande admiradora do cinema francês mas, se calhar, é uma lição... lá porque ele é interessante não quer dizer que faça coisas que te agradem.

Ideias e feitos são coisas diferentes.

É como o Dani Filth, A Cristina Sccabia ou o gajo dos Watain, eloquentes, sarcásticos, cultos e inteligentes, que dá gosto ouvir mas que fazem música que não me agrada.

E lá deveria eu estar calada....

Acabei por finalmente me concentrar e voltar ao tal filme do Chabrol: La Demoiselle D’honneur e que tola fui, é preciso ter paciência e saber alcançar cada detalhe e que filmaço! Que golpe de mestre hã? Tenho de procurar mais, mais dele e mais do Rollin.

O Rollin da pornografia e dos vampiros que dava outra página por aqui mas que não sei por onde começar, só sei que quero visitar o cemitério do La rose de fer, que me emociona a forma como enquadra as mulheres, enquadra-as como retratos e veste-as como sílfides.

Entretanto, ouço Draconian.

Magnífica discografia de um dos últimos redutos do metal de inspirações góticas ou do Doom, consoante o preconceito do ouvinte.

O meu encontro com estes Suecos fez-se através da Loud, aquando da critica ao Turning Seasons Within, fiquei entusiasmada para o ouvir porque gosto de metal pesado, arrastado, viúvo, elegante de rendas funéreas e sentimentos funestos mas ou me aparecem bandas de letras insípidas e vozes sem chavo de personalidade ou então mais do mesmo. Lembro-me de não ter ficado com travo amargo depois de o ouvir mas também nunca mais lhe peguei.

Sucede que, no último ano, andei com ele sempre no leitor de discos e decidi-me a desbravar o resto da discografia. Entretanto a Lisa Johansson cansou-se de palcos e tournées e quis ter uma vida mais regular, acho que a nova vocalista é sul africana e se chama Heike e é mais ligada a estas coisas do som pesado e do oculto. O que não quer dizer que seja oiro sobre azul. Às vezes, as melhores combinações são as mais inusitadas, veja-se o caso da Lírica Tarja e dos Metaleiros Nightwish. Abrindo aqui uma nota para dizer que, como qualquer apreciador do género, estou ansiosa por este Endless Forms Most Beautiful, inspirado, não pelas melancolias da alma marina do Tuomas, mas por Carl Sagan, Whitman e o Dawkins.

Apesar de nunca ter apreciado muito a Floor Jansen, concordo que foi a melhor escolha. Mas voltando aos Draconian, são mais uma daquelas gotas no oceano de que já não se sente o gosto nos dias de hoje, ou então estão bem escondidas nessas Atlântidas, à espera de um virar de esquina sortudo.

 

Post Scriptum: Cruzei-me por aí com um vestido de renda negra, rodado e de colarinho branco também rendado e pensei: ora aqui está um belo vestido de noiva, espero que me chegue às mãos depressa para o tocar, para, em cima, lhe demorar o olhar e para o guardar até chegar a hora.

Reparo agora que não sei ainda como me referir ao escolhido, não há nome que lhe sirva... que chatice, apenas para dizer que encontrou uma nova banda e que gosta muito e eu gosto muito também, gosto que ele esteja feliz.

Gostava de ser rica para o tirar daquele emprego desértico de inspiração mas não sou... Continua nos caminhos do mago inglês e a praticar os rituais que o conselheiro lhe indica, para que suba a um lugar que eu não sei. Coisas misteriosas, este meu gato cor-de-laranja faz...

Ontem escreveu este poema e eu, hoje, escrevo-o aqui:

 

Whilst the black beast hangs
The dark stars moan.
And antimatter sheds its light
into the heart of darkness.
Why so glum, sir?
Eat the dense cake which sits
untouched
in your heart of hearts.
Grab the mass
Feel it throb through your heartbeat.
Who is moving?  You, it, us?
The Earth spins unbidden
Uncaring but,
Unnecessary to us is
The heaviness it conceals and feels
What really matters is
that we stay stuck
in the gravity trough.
Like the pigs we all are,
striving to be angels,
As our base
struggles desparately to separate
From our head.

 

By/de C.S.

publicado por Ligeia Noire às 10:22

01
Nov 14

 

Ligeia sou eu e ela.

 

Edgar Allan Poe, não é novidade alguma que é um dos meus escritores preferidos, logo, qualquer filme inspirado nalgum dos seus escritos me passa pelas vistas. Então quando me veio parar às mãos o The Tomb a.k.a. Edgar Allan Poe’s Ligeia salivei só de pensar na noite que se avizinhava, isto em 2009, Ligeia é a minha estória preferida de Poe e de todos. O filme não é grande coisa, cheio de lugares comuns, interpretações desinspiradas e um argumento cheio de frases feitas e que se perde pelo caminho mas mas mas e mas porque há sempre um mas, obcequei-me pelo filme… sabes quando há algo no qual vês potencial e então devotas-lhe condescendência e ficas ali a ver tudo o que poderia ter sido?

Claro que o filme é apenas levemente inspirado no conto, assim como já o do Roger Corman em 1964 o tinha sido mas a premissa era boa, os protagonistas eram carismáticos mas faltava um argumento de jeito, conhecimento de causa e calo. Existiam cenários brilhantes, uma bailarina russa que em tudo encarnava a nossa bela sirena, testa alta, esbelta, a leveza e o andamento sorrateiro de um gato que o ballet lhe forneceu ao corpo, cabelos longos e fartos, não negros, não de azeviche mas belos.

Cheguei ao contacto com a actriz por estar muito indignada com o facto de terem referido no filme que Ligeia era um nome de origem russa, quando é grega a sua proveniência e ela respondeu. Respondeu dizendo que sabia mas que não podia fazer nada.

A estória revolve em torno de um professor universitário que nas suas várias palestras sobre o ocultismo repara numa mulher que está sempre presente. Essa mulher é uma estudante de nome Ligeia que viu a sua mãe morrer há muitos anos e no seu leito de morte, esta passou-lhe o desejo de descobrir a cura para a morte através do aprisionamento de almas humanas.

Ligeia estuda religião e misticismo e procura incessantemente por resolver o que falha quando tenta sugar as almas do último suspiro das suas presas. A história não tem nada que ver com a do Poe mas nem tem de ter, apenas lamento ter caído no bacoco triângulo amoroso, na femme fatale e num final previsível e enfadonho. Com um protagonista aborrecido e com olhar sedado durante todo o filme e um argumento que se perde a si mesmo, não há muito o que fazer. Talvez apenas o momento em que ele visita Ligeia e bebem absinto juntos… talvez aí se tenham salvado uns dois cêntimos do tesouro.

Ouvi dizer que o filme era do mesmo realizador do do corvo mas não tem de perto nem de longe o mesmo misticismo e olha que o corvo tinha um argumento e premissas bem simplistas mas lá deu frutos.

 

Julho, 2014

 

 

Da Finlândia ao Mundo

 

A primeira vez que venho aqui escrever depois de tanto tempo, não me apeteceu dizer nada porque nada havia para ser dito.

No entanto, andava por aqui um certo incómodo, uma necessidade de beijar e modelar palavras. O que me fez pensar no quanto da minha escrita é necessidade…

Mas para lá com as indagações, dói-me a cabeça e, apesar de ter andado a ouvir coisas tão díspares por estes dias e semanas, o que toca agora e desde ontem é o Colours in the dark da Tarja.

Não me sai da cabeça aquela imagem aquando da 500 letters, precisamente na parte em que ela canta: “Why do you want to hurt me?”. Quando bate com o salto umas três vezes no chão.

A Finlândia faz parte dos meus amores de sempre e para sempre.

Não sei bem se começou com os H.I.M., talvez tivesse começado antes mas sei que, ao contrário da Rússia, foi a música que a trouxe até mim e não havia nada para não gostar.

Desde os abetos, das bétulas, do sol-da-meia-noite, da neve ao épico Calévala, a toda a correnteza de música divina que lá nasce, que lhes corre nas veias.

Não há apreciador de metal que não respeite e namore o mistério da terra dos mil lagos.

Tentei aprender Suómi, língua de casos, e como tanta coisa, ficou por aí num caderno vermelho à espera que volte a nascer em mim a paciência, a disciplina e o tempo.

Acima de tudo, há um fascínio assombroso pelo longínquo, pelo frio, pela neve, pelo raro e pelo misterioso.

É romantismo sim, o mesmo fascínio que os povos sul-americanos, africanos, os chineses ofereciam aos olhos dos românticos do século dezoito, o exótico.

Não é que seja pelos músicos mas porque eles são, para além de música, formas de compreender o país e de saber mais sobre ele.

Mas depois percebo o apelo da decadência francesa e das suas catedrais góticas, da misantropia norueguesa, do cinema sueco, da batcave inglesa, dos celtas e do folclore escocês, da rebeldia irlandesa, ai e o cinema, o cinema sim. A Irlanda talvez se tivesse despertado em mim depois de todo o aborrecimento nas aulas de literatura, mais tarde fui procurar tudo o que faltava, porque o que sabia eu na realidade?

O IRA, o Oscar Wilde, o Stoker?

Depois, veio o teatro, as batatas, a fome, a metáfora do mar, os rituais e a música e que música…

Curiosamente, depois de começar a namorar com o Cavaleiro-das-terras-brancas é que comecei o meu apaziguamento com os Estados Unidos da América…

O paradoxo!

Eu era daquelas que dizia não ter nenhuma vontade de provar, conhecer, ou de saber a terra, o ar, os bichos de tão arrogante e sufocadora nação. E foi preciso um russo para me apaziguar com os yankees.

Havia desprezo e ignorância em mim, a mesma ignorância que me levou a insultar o Camões, até estudar o Renascimento, o Petrarca e o Sá de Miranda.

Somos tão mesquinhos na nossa ignorância.

Talvez literatura e línguas tenha sido a área certa, gostava de ter tido mais sal no sangue para me ter dedicado a sério.

Eu vejo, admiro, degluto os aromas, as letras, a poesia, os quadros, a música, a História, o folclore, a mitologia mas depois não sei.

Tentei aprender francês sozinha mas depois tinha de trabalhar, de fazer camas e carregar sacos, de varrer e estender roupa e depois havia a saúde que me preocupava e fui-me esquecendo e tudo ficou arrumado como cartas de amantes em caixas de madeira.

 

Julho, 2014

 

 

Masonic Youth: “O Caos é uma ordem por decifrar”

 

Ouvindo o novo dos Wovenhand e pensado quão maravilhosa será esta edição do Amplifest, com os intemporais Swans, que vou começar a desbravar, a deliciosa Pharmakon, que anseia por calor num mundo maquinal de que ela se serve, e o celestial Eugene na sua roupagem Wovenhand. Soube que já andava p’ra aí um álbum novo e eu que ainda não absorvi o último... Todo o brilhantismo da mistura da folk americana das montanhas, do post punk inglês com aquele toque ritualístico e até psicadélico que só se encontra ali e ali somente.

Quero um dia poder falar da obra de arte que é o filme de Jim Jarmush, Only Lovers Left Alive, ele disse que éramos nós ali, escarrapachados e somo-lo e somo-lo tanto que assusta.

Leio o Homem Duplicado de Saramago e penso.

Como cresceram e me desiludiram a maior parte dos amigos muito amigos, como não tenho amigos agora que queira e como me sinto segura e crescida com olhos que me protegem.

Sempre soube que todos os que não mereciam ou mereciam mas eu não o considerei, conseguiriam um lugar ao sol e eu seria a indigente do costume. Não venho reformular nada, apenas confirmar o seu caminho em direcção à terra prometida e com ares de escolhidos pelo altíssimo, qual Israel em dia de Julgamento Final.

Comprei um vestido de renda, negritude e flores, pareço eu em gomos irascíveis de Primavera, é para ele, para o reencontro depois de séculos de desencontros e ocupação em prazeres mundanos.

 

Julho, 2014

 

 

I’m your little scarlet, Starlet.

Singing in the garden, kiss me on my open mouth.

 

O Cavaleiro-das-Terras-Brancas ligou-me ontem.

Passaram-se meses e meses e continua enamorado, leal, doce, músico suave.

Disse-me um poema, confesso que não sei de quem ou que dizia, estava tão surpresa que as palavras eram apenas sons. Fiz mais uma vez anos e, de todos, ele foi o que mais me surpreendeu.

 

Agosto, 2014

 

 

Mother and the enemy

 

Tenho tantos discos para ouvir e tantos livros para ler, tantas tranças para fazer, amigos para sossegar, o vestido vermelho para remodelar, coisas, sabes, coisas…

Mas o que faço são retalhos de contorno, retalhos de entretimento enquanto espero que o sol maior chegue e a minha vida se espraie toda, se desabroche e nunca amanheça.

Oiço Mother and the Enemy dos Lux Occulta banda polaca que me suscitou a curiosidade depois de por acaso lhes descobrir o último álbum: Kolysanki.

Já tentei vir aqui e escrever umas linhas mas paro sempre e depois volto e paro outra vez, não é que não queira conversar contigo Supremo mas não sei por onde começar porque não há o que começar, não há tormentas, estou em paz e o que me atormentava não tem agora poder algum.

 

Setembro, 2014

 

 

Dia dos mortos

 

Tenho tentado escrever, tenho vindo aqui, tenho escrito e depois guardo. Não sei se é porque não consigo terminar o que escrevo, se é porque sinto que nem sequer comecei.

Oiço Culto of Luna, o Vertikal e sinto-me cheia de força, aliás, já nada me mete medo, apenas me preocupo com a saúde, todo o resto se tiver de ser será e pronto.

Há muito tempo que aprendi a viver um dia de cada vez, como os bêbados em recuperação.

Vou casar, ah rio e sei que ris comigo e rimos ambos e tu daí lanças-me esse teu olhar docinho de soslaio e eu desfaço as tranças e salto de nenúfar em nenúfar e não quero saber e realmente não quero mesmo saber.

Só falta esperar e eu espero.

Voltando ao plano dos mortais, não sei de mais nada, dos amigos nem sombras, também, se queres saber, pouco me importa, queixam-se, desabafam, viram-se do avesso, criticam-se, um enfado terrível! Talvez já não goste de nenhum deles porque deixei andar e não me importei, nem me importo e quando voltam… apenas me enfadam mais.

Serei crua, talvez, mas não me importo.

Tudo talvez se resumirá ao: “quando estive não estavam”, quando estavam… não estavam na mesma ou ao  facto de sempre ter sido um lobo solitário, gosto de estar sozinha; como dizia o Bukowski:

 I am the best form of entertainment I have! Let's drink more wine.

 Às vezes, a gente percebe que isto é tudo uma troca de favores, um comércio de necessidades e depois a gente abre a pestana e manda foder tudo e sente a leveza a coçar-nos as asas e ah! É bom sentirmo-nos solitários e feitos de aço, além camarada que a gente vê terra lá ao fundo!

E acabando com a melhor banda do mundo,

All is quiet, the city sleeps…

 

 

publicado por Ligeia Noire às 00:29
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29
Jul 14

 

07:45

 

Estou no quarto, sozinha, as cortinas não são opacas o suficiente para ocultarem a evidência da manhã que não quero aguentar, antes pelo contrário, são caramelizadas e transparentes.

Foram os melhores dias da minha vida, podia contar-te tudo mas não quero, foi um ritual de luz negra e vermelha de velas que só a nós pertence.

Cheiro-o em todo o lado, arrumo a garrafa de vodca polaca que o pai lhe ofereceu, a de sumo de maçã que comprámos numa pastelaria ao calhas (bolas, como ele gosta de sumo de maçã…) e a de água para o saco de lixo improvisado.

Ali está a toalha, ali, a um canto, deito-me na cama grande e tento dormir, não consigo, deito-me na pequena e fecho os olhos, durmo?

Se calhar dormi, não sei, não consigo respirar bem. Levanto-me um bocadinho, encosto-me à travesseira e fixo os olhos no vestido com que cheguei e que usei ontem também e que está, também, ali meio dobrado na cadeira, ainda deve cheirar a vinho verde branco fresco que nele foi entornado ontem, tenho de usar outra coisa… umas calças talvez, sim, umas calças e um casaco.

Está frio e nevoeiro, agradeço-te Supremo, agradeço-te pelo frio, preciso de acabar de fazer a mala, ver debaixo das camas, guardar os trocos na carteira, ir à casa de banho buscar o champô e a pasta de dentes… não me deixes pensar Supremo, olha, abrirei a janela e o ar matutino far-me-á sentir melhor.

Assim faço.

A vista é amontoada, grafitis por todo o lado, ah como os odeio! Aos rabiscos e a estas gaivotas que jamais se calam e que, em conluio com as melgas, me não deixaram dormir em condições.

Não penses, mantém-te ocupada.

Fomos ao alfarrabista do costume, não tinha os livros que procurava… levei a aparição por um euro, acho que o vou ler na estação, afinal de contas serão quatro horas de espera e preciso de escapar por um pouquinho que seja.

As lágrimas despontam outra vez, maldito sejas espaço e maldito sejas tu também ó tempo.

As gaivotas continuam o seu horrendo crocitar e o quarto parece-me uma masmorra, sinto-me a asfixiar.

Estou tolhida.

Amo-o e tento não pensar muito nisso para que os pulmões não se adelgacem mais… Quero ir embora deste sítio mas não quero ir embora na verdade.

Tenho medo e cheiro-o em todo lado.

Ontem, antes do jantar, não conseguia estancar o pranto, doíam-me tanto os olhos… Deveria brotar sorrisos borboleteantes e caricias doces mas ah Supremo… como me esmaga a dor da partida… sentia ali que não sabia ainda lidar com aquilo que sentia, quão pequena e marginal era eu perante tamanho tormento, tamanha abundancia de impossibilidade.

Ele, silencioso, pôs o telemóvel a carregar e foi tomar banho, tirei os sapatos, apenas, e deixei que a lingerie me constringisse enquanto me enrolava e fechava os olhos para que tudo ficasse bem.

Em cima da cama repousavam os discos que ele comprou umas horas antes e a caixinha vitoriana que me ofereceu, caixinha de madeira tão bonita… ao olhá-la vem-me à memória o entusiasmo da senhora comigo, com ele e com a nossa história. Embevecida contou-me sobre si e sobre a sua paixão por todas as coisas belas e delicadas que tinha na loja e de que eu também gostei muito. Perguntou-me coisas, apresentou-se, ah o sonho americano ainda, suspirou ela (ele zombou quando lho traduzi no caminho de regresso). Ele estava lá ao fundo com o marido dela, Alberto, assim se chamava o dono. O Alberto ia-lhe mostrando velhos leitores de vinil e máquinas de escrever, a esposa Maria mostrava-me nesse instante outra caixinha de madeira com arabescos na tampa e forrada a veludo verde, havia um baúzinho de madeira negra e floreados brancos mais bonito mas ela gostava mais da outra.

 Olhei-o enquanto este se deliciava com a máquina de escrever de teclas brancas que estava encostada à parede numa mesinha. A que a mãe lhe ofereceu de madeira envernizada, clara é mais bonita, mais graciosa, pensava eu.

Ele percebia que eu e ela falávamos dele porque mencionei o seu nome, sorriu em protesto. A Maria pediu que voltássemos lá um dia, assentei e sorri, ofereceu-nos os discos e só cobrou a caixinha, ah as aventuras! A vida que só se vive aqui e uma vez, arrematou com ar quimérico e saímos.

Tudo isto se me revolvia na tempestade que desembocava do peito ao cérebro sem precedentes, enquanto repousava inquieta e em profusão de cabelos.

Ele lia na banheira e eu sentia que ia morrer de sofrimento contido. Tão difícil se nos apresenta a tarefa de desviar a atenção do indizível. Não havia coisa alguma em que pudesse desaguar o pensamento e subsequentemente me fosse abrir as narinas e descansar o peito.

Abri a janela e deixei que o ar nevoeirento e nocturno me abraçasse um bocado e chorei outra vez. Sentia-me partida e infinitamente desolada.

Regressado do banho, deitou-se na cama grande, abriu o livro e continuou a ler, fechei a janela, tentei pensar nas coisas mais banais e aborrecidas de que me lembrava. Ele chamou-me, chamou para que me deitasse ao seu lado, o direito.

Fechou o livro, talvez tivesse lido apenas duas páginas. Era um livro de capa castanho-escura, grosso e volumoso, sobre as aventuras do Crowley na Alemanha, acho, não sei, apenas acho porque estava preocupada, triste e a respirar às metades.

Ajudou-me, pausou-me, protegeu-me, beijou-me, abraçou-me, salvou-me como lhe é apanágio.

Tentámos ver televisão para que o tempo que não queríamos que passasse, passasse porque o tempo tem de, tem sempre de… ir, mover, circular, tic tac, tic tac.

Filme aborrecido de meados dos noventa, filme que me fez lembrar daqueles romances de bolso à venda nas tabacarias. O sono ia puxando as pálpebras, ele foi descansar um bocado para a cama pequena,

O tempo de passar deve ter passado um bocadinho porque acordei sobressaltada com o toque do telemóvel, soergui-me e atendi.

Eram horas.

O coração esquadrinhou-me as entranhas, abracei-o e peguei-lhe na mala mais pequena.

A noite fria e aveludada pelo nevoeiro deu-me um arrepio inesperado, palavras curtas, beijo curto, abraço espartilhado.

Colocámos as malas na bagageira, ele voltou-se, dissemos até breve e abraçámo-nos.

Partiu, foi, ido.

Eu… eu fiquei ali, mesmerizada, arreigada ao chão, cheia de frio com um vestido de chiffon negro pejado de flores silvestres, renda e que ainda cheirava a vinho branco porque tudo estava arrumado e nada mais havia para vestir e, também, porque achei doce acaso ser o mesmo com que o recebi.

Chorei, cravei as unhas nas conchas das mãos e fiquei ali, assim de madrugada, sombria, enquanto um varredor de ruas observava e seguia o seu caminho ao mesmo tempo.

Subi, embrulhei-me na cama e as lágrimas alojavam-se, quentes, no pescoço.

Amanheceu, não sei se dormi, estou aqui e amo-o e estarreço-me, não por ama-lo mas pelo sortilégio que tudo isto é.

E falar do porvir, de rotinas ou pessoas… mareia-me e desola-me.

A tristeza que sinto é só minha e é triste.

Encontrei o filho-da-lua, desatei o laço branco e agora quero dormir, estar sozinha e não me mexer muito porque ele já não está e eu continuo, perduro-me.

 

I will take you away with me.

Once and for all.

Time will see us realign.

 

publicado por Ligeia Noire às 14:41

05
Out 13

 

Beware

 

[Intro]


(He came to me with money in his hand
He offered me, I didn't ask him
I wasn't knocking someone's door down
I was running from that
When I got out, I was in that
I was already through that
I had that, I had the studio
I went to the studio, I went to Fox studios!
I had it all, I looked at it and said:
«This is a bigger jail than I just got out of.»
I don't want to take my time going to work
I've got a motorcycle and a sleeping bag
And 10 or 15 girls. What the hell I want to go
Off and go into his - and go to work for?
Work for what, money? I got all the money in the world
I'm the king, man. I run the underworld guy
I decide who does what and where they do it at
What am I going to run around and act like I'm some
Teenybopper for someone else's money?
I make the money, man. I roll the nickels
The game is mine, I deal the cards)

 

I close my eyes and seize it
I clench my fists and beat it
I light my torch and burn it
I am the beast I worship...

 

And I know soon come my time
For in mine void a pale horse burns
But I fear not the time I'm taken
Past the point of no return
Wage war like no tomorrow
Because no hell, there won't be one
For all who deny the struggle
The triumphant overcome

 

Trips to where, few have been
Out of thin air, upon high winds
Rites begin when the sun descends
Have felt what few will ever know
Have seen the truth beneath the glow
Of the ebb and flow, where roots of all mysteries grow
I am below, so far below
The bottom line
Transmitting live, transmissions rise


From the depths out of controlled by
Suspended glance of an unblinking eyes
Imminent gaze cast 'pon the path that winds
'Pon the path I find, and claim as mine
To ride the waves, of unrest
Made to make me shine as a testament
To why the ways of the blind will never get
Shit but shanked by my disrespect
Dismiss this life, worship death
Cold blood night of serpent's breath
Exhaled like spells from the endlessness
In the bottomless wells of emptiness
Channelled to invoke what we represent

 

Secret order
Elitist horde of
Creeping fire
Seizing power
Riders of the lupus hour
Eye on palm
Time is gone
Moonlight drawn
Fly till dawn
Sacrifice to rise beyond
Deep inside the violent calm
Of the coming storm
In blood sworn
To glorify and for life adorn
With all that dies to become unborn

 

I close my eyes and seize it
I clench my fists and beat it
I light my torch and burn it
I am the beast I worship...
I am the beast I worship

 

In the time before time eyes 'bove which horns
Curve like psychotropic scythes
And smell of torn flesh bled dry
By hell swarms of pestis flies
Vomiting forth flames lit by
An older than ancient force
That slays this life with no remorse

 

The spiral storm
Of flames inside
The torch I raise
The force I ride

 

Feel my vessel go up in flames
Flesh torch lit by thee unnamed
Direct connection to the source
Vestment of unnatural force
Forever burning black torch
Wisdom of the old and true
Possessed by the chosen few
Shining to reveal the ways
Of a darkness that pervades
All that is and ever was
Inferno of witches blood

 

Worship is not on bended knee
Nature knows not of mercy
To pray is to accept defeat
Power pisses on the weak
Bow and beheaded by the beast
Beggar on a bitches leash
Scum is desperate for relief
Worship is the way I ride
Witching currents through the eye
Of storms that force the false to die
Worship the flames with which I rise
Into apocalyptic skies

 

Harsh winds flay mine flesh to bone
In splintered skeleton I roam
Wastelands with not to call my own
But the path I walk alone
The hunger burns, within my gut
As my bones turn into dust

 

And I know soon come my time
For in mine void a pale horse burns
But I fear not the time I'm taken
Past the point of no return
Wage war like no tomorrow, know well there won't be one
For all who deny the struggle
The triumphant overcome ...

 

I close my eyes and seize it
I clench my fists and beat it
I light my torch and burn it
I am the beast I worship...
I am the beast I worship

 

 

Letra de Death Grips/Lyrics by Death Grips

publicado por Ligeia Noire às 12:01
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29
Mai 13

 

Bow down in position against the polished steel


Não, não retornarei ao bondage e quejandos, se bem que é tudo farinha do mesmo saco.

A historia do Year Zero dos Nine Inch Nails é a História do rumo que a humanidade leva.

Estás a ver o Metrópolis, Matrix, The Island, George Orwell, Blade Runner, enfim a porcaria do totalitarismo et cetera e tal?

Ora.

Faz-me lembrar um pouco do livro A Trança de Inês também... quem podia ou não procriar e mais uma dúzia de filmes em que se controla o que comes, em que se elimina o sexo, em que nos vestimos com fardas e em que se paga multa por dizer palavrões, o que seria de mim.

Rio a preceito.

Estaremos muito longe dessa realidade ou nunca saimos dela?

 

I pushed a button and elected him to office and a...

He pushed a button and it dropped a bomb

You pushed a button and could watch it on the television

Those motherfuckers didn't last too long ha ha

I'm sick of hearing about the haves and the have nots

Have some personal accountability

The biggest problem with the way that we've been doing things is

The more we let you have the less that I'll be keeping for me

 

Well I used to stand for something

Now I'm on my hands and knees

Traded in my God for this one

He signs his name with a Capital G

 

Don't give a shit about the temperature in Guatemala

Don't really see what all the fuss is about

Ain't going to worry about no future generations and

I'm sure somebody's going to figure it out

Don't try to tell how some power can corrupt a person

You haven't had enough to know what it's like

You're only angry 'cause you wish you were in my position

Now nod your head because you know that I'm right—all right!

 

Well I used to stand for something

But forgot what that could be

There's a lot of me inside you

Maybe you're afraid to see

 

Well I used to stand for something

Now I'm on my hands and knees

Traded in my God for this one

He signs his name with a Capital G


Capital G escrita pelos N.I.N.


Álbum conceptual sobre o esclavagismo moderno, sobre as mentiras em que vivemos, a hipocrisia e a periculosidade das religiões, as guerras entre facções, no mesmo pais e que são financiadas por nações ocidentais, de supostos tementes a deus e morais cidadãos.

O dinheiro, o dinheiro, a corrupção, os ismos, a lavagem cerebral constante, sob o signo do medo que permite o controlo, cada vez maior, da individualidade.

A tristeza desmedida daqueles que percebem a inutilidade de esbracejar, a inutilidade de viver.

O inimigo que muda todos os dias, ao ritmo das prioridades monetárias e estratégicas.

 

I should have listened to her

So hard to keep control

We kept on eating but our

Bloated bellies still not full

She gave us all she had but

We went and took some more

Can't seem to shut her legs our

Mother Nature is a whore

 

I got my propaganda, I got revisionism

I got my violence in high def ultra-realism

All a part of this great nation

I got my fist, I got my plan, I got survivalism

 

Hypnotic sound of sirens

Echoing through the street

The cocking of the rifles

The marching of the feet

You see your world on fire

Don't try to act surprised

We did just what you told us

Lost our faith along the way and found ourselves believing your lies

 

I got my propaganda, I got revisionism

I got my violence in high def ultra-realism

All a part of this great nation

I got my fist, I got my plan, I got survivalism

 

All bruised and broken, bleeding

She asks to take my hand

I turn just keep on walking

What, you'd do the same thing in the circumstance, I'm sure you'll understand

 

I got my propaganda, I got revisionism

I got my violence in high-def ultra-realism

All a part of this great nation

I got my fist, I got my plan, I got survivalism


Survivalism escrita pelos N.I.N.


A HBO queria fazer uma mini-série baseada no álbum, não sei como isso anda... curiosamente, depois deste hiato, que ninguém acreditou que fosse mais do que isso, um hiato, foi anunciado já existir um álbum pronto a sair ainda este ano e com a participação do grande Atticus Ross.

É estranho ver os NIN numa editora discográfica, especialmente aquela mas acho que, no final de contas, todos nos rendemos às evidências, não podemos fugir à máquina.

Já andam por aí as habituais acusações de vendido e hipócrita.

O que se entende, se pensarmos naquele Trent banhado em lama, extremamente sexual, que partia instrumentos, se espolinhava e se comportava hereticamente perante quem quer que fosse.

O gajo que tinha a liberdade de escolher entre ter ou não as veias cheias de álcool, heroína ou coca e que berrava: pigs get, what pigs deserve.

Claro que sinto saudades, principalmente porque nos rouba a esperança de fugir à máquina, porque nos diz que, pelo menos por fora, todos acabamos por conformar-nos e curvar-nos perante o aço polido .

Há três coisas inimigas do que se foda tudo: casamentos, filhos e idade.

Não há excepção, o pessoal do rock se está confortável e tem a vida organizada, não pode continuar por aí a compor cenas como Head like a hole/ Black as your soul/ I'd rather die/ than give you control porque soa deslocado ou pior, falso.

Há sempre alguma verdade no: Foda-se quando estava no esgoto e a sentir-se uma nulidade é que lhe dava a sério.


(...) but I guess it’s the story of being an artist in the way that you have to...or you’re born that way that you want to lose yourself entire in what you’re doing, you’re willing for one single successful note... you know you’re willing to give up everything for that particular moment in time. Just to be able to be reborn through a note or through a line of words .
And the search for that can be extremely haunting for a lot of people and I guess that’s one of the reasons that a lot of people end up being ...you know... mentally ill or end up committing suicide or doing too many drugs or alcohol just to...
Numb the sensitivity that comes with being an artist..
You have to keep your ears and your eyes open, all your senses open to all the possible stuff that goes on around you, you’re like a sponge sucking in all the possible information and when you’re filled with that it just bleeds out of you.

And it hopefully bleeds out in a way that you can be... it can be a cathartic process for the artist and then it can be hopefully very cathartic for the person who sees or hears the piece of art. It’s not something you’re trying to do it’s something you have to do to be able to exist I guess. That’s the reason why I do music it’s... that’s how I started; I didn’t know how to cope with the world... and then I found an instrument and through that I realized that I’m able to cope with the world and its evils a bit better through writing songs. 


Ville Valo na entrevista do Digital Versatile Doom


Estes gajos não são mais do que ninguém, é por isso que detesto dizer que sou fã de alguém, odeio idolatria, sou apreciadora daquilo que fazem, admiradora, mas são tão humanos como nós, tão filhos da puta como nós, tão doces como a vizinha do lado.

Quantas vezes não vimos estes gajos a implicar com os técnicos de luz, de som, os fãs e até uns com os outros, já toda a gente conhece o feitio de merda e o egocentrismo dos artistas.

Mas ainda há por aí criancinhas que acham que eles têm de permanecer imutáveis, perfeitos e que lhes devem alguma coisa, eles dão-nos música, nós damos-lhe dinheiro: fim da linha.

Não preciso saber se ele fodeu x ou y, se gosta de morangos, se gosta de comédias românticas ou se ninguém os atura nos bastidores.

Claro que quando são artistas que guardas junto ao peito, o interesse acaba por resvalar para o lado de dentro, para a pessoa que se esconde nas letras e nos sons mas eles não te devem nada, se descobres coisas com as quais não concordas (especialmente ele, que fez o que fez até agora pela indústria musical, indústria musical, porcaria de contra-senso) o problema é teu.

Um jornalista perguntou há uns anos a opinião do Valo sobre esta cena dos músicos fazerem DVDs biográficos, ou mostrarem o seu dia-a-dia, acho que foi relativamente ao Some Kind Of Monster, ele disse que não era algo que fizesse mas que cada um sabe de si.

No entanto, ao fazerem isso estão a permitir que as pessoas entrem na intimidade deles e que seja desmistificado todo um imaginário que, invariavelmente, se vai criando à volta deles e daquilo que eles escrevem nas suas canções.

Não há mal nenhum nesse tipo de romantismos porque, mesmo que não passem de irrealidades, a probabilidade de convivermos com essas pessoas e descobrirmos que, afinal eles não têm nada de oculto ou de idealismo ou de ódio ao conformismo e que, na verdade, são uns preguiçosos, egocêntricos, bêbados e comedores de dinheiro e raparigas de peito arrebitado, é mínima.

A fantasia, aqui, justifica-se sempre, não quero saber o que fazem, nem como fazem, eu tenho, eu compus aquela imagem deles e pronto.

É quase como roubar um chupa-chupa a uma criança por prazer, maldade hã?

Acho que foi o Manson que contou ter sido levado ao concerto dos Kiss pelo pai quando era adolescente. Sendo ele um fanático pelo Gene Simmons estava mais do que extasiado, o que se desfez completamente quando o conheceu e percebeu que ele era um completo idiota.

Sim, já sei, quando a linha se desenrola no campo da música nunca mais me calo.

Homens inteligentes sabem quando é tempo de se camuflarem e minarem por dentro, tenho a certeza que o homem do teledisco da March Of The Pigs vestido de calças de vinil vermelhas e vontade de foder o mundo está ali dentro e sempre estará.

Aliás, eu sou das que gostou bastante do With Teeth e do Year Zero e das que ficou muito orgulhosa quando subiu ao palco com o Atticus para receber o Óscar, mesmo que essa merda seja o epíteto da máquina e não valha a ponta de um corno.


What?

You’d do the same thing in the circumstance, I'm sure you'll understand.


We do babe, moving on…


O Year Zero é deliciosamente dançável e curiosamente orgânico, no sentido carnal da cena, só o Trent consegue tirar da electrónica sangue suficiente para que esta transmita calor.

 

They're starting to open up the sky

They're starting to reach down through

And it feels like we're living in that split-second

Of a car crash

And time is slowing down

And if we only had a little more time

And this time

Is all there is

Do you remember the time we

And all the times we

And should have

And were going to

I know

And I know you remember

How we could justify it all

And we knew better

In our hearts we knew better

And we told ourselves it didn't matter

And we chose to continue

And none of that matters anymore

In the hour of our twilight

And soon it will be all said and done

And we will all be back together as one

If we will continue at all

 

Shame on us

Doomed from the start

May God have mercy

On our dirty little hearts

Shame on us

For all we've done

And all we ever were

Just zeros and ones

 

And you never get away

And you never get to take the easy way

And all of this is a consequence

Brought on by our own hand

If you believe in that sort of thing

And did you ever really find

When you closed your eyes

Any place that was still

And at peace

And I guess I just wanted to tell you

As the light starts to fade

That you are the reason

That I am not afraid

And I guess I just wanted to mention

As the heavens will fall

We will be together soon if we

Will be anything at all

 

Shame on us

Doomed from the start

May God have mercy

On our dirty little hearts

Shame on us

For all we've done

And all we ever were

Just zeros and ones


Zero-Sum escrita pelos N.I.N.




O álbum termina com esperança, há sempre uma réstia dela, uma verdade maior, uma rebelião, nem que seja na nossa cabeça.

Falar do Reznor é falar da gente que descobri por causa dele : Danny Lohner, o Finck, o Chris Vrenna, o Manson, o Manson, que não descobri por causa dele... na verdade, foi o oposto, mas do lado de um outro Manson, o irmão mais novo, o eterno Peter Pan.

De todo um grupo de gente criativa, que mudou a música e que nos abriu um guarda-chuva, guarda-chuva esse, que continua a proteger-nos até hoje, um guarda-chuva negro, opaco.


publicado por Ligeia Noire às 13:10

18
Abr 13

 

Ante-Scriptum: Estou a rever o Lost e, como a Senhora de Negro disse, esta série está para os anos dois mil como o Twin Peaks para os oitenta e os Ficheiros Secretos para os noventa, olhando ali para baixo vejo os raios de brilhantismo e ao mesmo tempo sinto o sufoco, a miséria e o desespero da condição humana, especialmente adensada desde o início do capitalismo, um punhado deles a espalhar o pó de cima do trono.


Sawyer: So we're stuck in the middle of damn nowhere. What about we talk about that other thing?

You know, the transmission Abdul picked up on his little radio.

The French chick that said "they're all dead."

The transmission's been on a loop for... how long was it, freckles?

Kate: 16 years

Sawyer: Right.

Let's talk about that.

Boone: Well, we have to tell the others when we get back.

Shannon: Tell them what exactly?

Boone: What we heard.

Shannon: You didn't hear anything. I'm not a stupid translator.

Sayid: No one's going to tell them anything.

To relay what we heard without fully understanding it will cause a panic.

If we tell them what we know, we take away their hope.

And hope is a very dangerous thing to lose.

Kate: So we lie.

 

publicado por Ligeia Noire às 22:47
música: "Dream House" dos Deafheaven

15
Abr 13


In the hallowed halls of… national security agencies and the pentagon, the top military, top security people… the top people knows essentially this reality but the masses of people don’t.

And the people in authority, the elite as it were, the power brokers had desperately tried to keep the lid on this thing because… it is not simply visitors from another planet or from another star or another galaxy, or even another dimension, it’s not simply that.

It isn’t that simple.

We’ve learned over the years… that several of these intelligences have been involved with us from the beginning of human History and the evidence has been collected that the human race, literally, is a hybrid race and that some of these advanced intelligences from whoever they are from have been involved in genetically manipulating us, as a species, from the beginning of our History.

Man is a hybrid from a lower order; we’ve been genetically manipulated by advanced intelligences into what we are.

Now that in itself is dynamite, for God’s sake!


Robert Dean, rtd. Command sergeant major from the US army


publicado por Ligeia Noire às 14:34

06
Mar 13


Ante Scriptum: Vivo com obsessões, ando envolta na União Soviética e desta feita caminho por Chernóbil e lembrei-me deste filme do Ridley, o gajo que, para além de um cineasta que sabe o que faz, prova ser um letrista que escreve em condições.

E ao regressar ao âmago da trilogia veio esta avalancha de sentimentos que já tinha começado há umas semanas, senão meses... esta condição de sufoco, de impossibilidade, esta compaixão que só compreendi com o Kundera e de que falarei mais tarde.

Tudo isto intercede junto da minha índole virginiana de mãe estéril que amamenta todos.

Este hino à aberração, esta elegia ao desaparecimento baixinho, aquele em que nunca se existiu.

Este pedido de boca seca e coração empalado para que venhas e consertes estas dobradiças guinchantes, este medo do que não se vê, do que não se conta.

Houve uma professora que comentou, assim sem delongas, que estava morto, que a pós-modernidade era isto e aquilo e eu contei dois e pensei: um conjunto de nada e coisa nenhuma e ainda por cima sem graça é o que caralho é, na verdade.

Morto, disse a gaja, assim, e escrevi na cabeça e chorei em casa porque tenho medo e lembrei-me do outro também e como não sei de cor fui perguntar à senhora Wikipédia, sempre pronta a ajudar os oprimidos:

 

Deus está morto!
Deus permanece morto!
E quem o matou fomos nós!
Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes?
O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas.
Quem nos limpará desse sangue?
Qual a água que nos lavará?
Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar?
A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós?
Não teremos de nos tornar, nós próprios, deuses, para parecermos apenas dignos dele?
Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje!

Nietzsche, A Gaia Ciência

Vês Supremo? 
Anda depressa, senão depois acontece-me como o gigante dos olhos verdes: too late: frozen.

Heartless

When I woke up this morning the trees didn’t work
bird song had turned to gunfire and the stars were in the dirt
The snow feels like a heatwave,
The sunshine feels like rain.
If a feather touches my skin, it causes me pain

Come back, come back
And make the world work again.
Come back and put an end to all this mess,
Come back and prove the world’s not heartless.
Come back and prove the world’s not heartless.

The air is thick as tar and my skin is bruised and stung
I try to talk but no one understands my tongue
With every passing second,
I age a million years
When I fall and graze my knees
The universe cheers

Come back, come back,
And make the world work again.
Come back and put an end to all this mess,
Come back and prove the world’s not heartless.
Come back and prove the world’s not heartless.

When I call your name out
it tends to shrapnel in my mouth
And the last time I looked up the north star was south.

Come back, come back,
And make the world work again.
Come back and put an end to all this mess,
Come back and prove the world’s not heartless.
Come back and prove the world’s not heartless.

 

Lyrics by Philip Ridley/Letra da autoria de Philip Ridley


publicado por Ligeia Noire às 21:47
etiquetas: ,

05
Mar 13


Somos órfãos até de nós próprios.

Abandonámo-nos.

Não há nada aqui, não há magia, esperança, fé.

Não sei como era séculos antes, ou nos primórdios... mas, agora, está tudo ainda mais maquinal do que na ida Metrópolis, não há nada aqui em baixo, já não há, acredito que houve, nalgum momento no tempo mas não agora, não agora.

Não há misticismo, mistério, fantasmagoria, epifanias…

Estive a ouvir Sigur Rós, aquela música que parece uma litania fúnebre.

Nos meus anos de adolescente, lembro-me de estar a ver a tabela de discos na televisão e do nome destes gajos aparecer, várias vezes, por ali. Passavam telediscos deles também, deviam vender bem por cá, aliás sempre tive a ideia de que a relação de Portugal com eles era bastante profícua.

Na altura não ligava muito a música, nem sabia bem o que era.

O que passava era uma merda e aquilo que não o era, não chegava cá.

No caso destes islandeses, não percebia ou achava aborrecido e demasiado divagador, já não recordo.

É curioso que, mesmo na altura da ditadura das editoras, que graças à internet acabou de vez, havia alguns furões que conseguiam escapar até lugares tão recônditos quanto aqui o bosque que, certamente, seria bem mais perdido que Reiquejavique.

Estou a conhecê-los, hoje, depois de tantos anos…  hoje e agora que a minha cultura de música etérea e shoegaziana é um pouco melhor e a solitude mais à vontade.

Nas alturas em que me resvalo, um pouco, da violência para permanecer por outras paragens, páro muito.

Devo agradecer aos Alcest que, tantas bandas novas e admiráveis já me ofereceram e que, uma vez mais, me desataram novos/velhos atilhos.

E, pronto, já que o Winterhalter e o Neige foram gravar o novo disco para a Islândia, no estúdio e com o produtor dos Sigur Rós e, graças a uns pozinhos vampirescos lá me decidi a visitar as encostas destes ambientes sonhados.

Escusado será dizer que as que mais me adocicam são as tristes, as muito tristonhas.

Impossível não me lembrar, um pouco, dos Dead Can Dance, Cocteau Twins e mesmo dos My Bloody Valentine, tudo divindades e, mais uma vez, é preciso maturidade e calmaria para namorar as conchas.

A escrever-te e a lembrar-me do primeiro concerto que os My Bloody Valentine deram em Portugal, foi num festival novo, lá p’ro Algarve, onde os Offspring eram cabeças-de-cartaz e actuavam a seguir aos referidos, já podes imaginar o conflito de públicos…

Li por aí um fã da banda americana dizer que até gostou do som dos irlandeses (à parte do holocausto) mas que gostava que os vocais estivessem mais audíveis, fossem mais proeminentes.

Destaque é tudo o que o Shoegazing não é, aliás, conta-se por aí que o epíteto do género foi começando a pegar porque os guitarristas que iniciaram por este terreno estavam sempre de cabeça baixa, olhos postos nos pés, isto é, nos pedais a causarem a tão definitória distorção.

Assim, a voz neste género não tem a mesma superioridade ou não coloca a cabeça no outeiro como a da ópera, a do rap ou a do RnB.

A voz, aqui, é mais um instrumento, as palavras só estão ali porque sim, podiam significar coisas ininteligíveis, podiam, olha a glossolalia da boca da Elizabeth Fraser, da Diamanda ou mesmo o dialecto esperançoso do vocalista dos Sigur Rós, não interessa, é para o the greater good como diria o Reznor que anda por aí a espreitar.

E não sei porque fui por aqui, eles nem sequer são shoegaze, são pós qualquer coisa, rock, sim rock ah já tinha dito…

E coloquei os auscultadores e fui à deriva até ao monte.

Já estava a escurecer e caiu aquela ambiência nocturna que me causa água na boca, o céu com bocados bem escuros, o vento espesso a sacudir as árvores todas, ainda bem que tinha o cabelo entrançado e preso com ganchos, não chovia e estava frio seco.

Lá de cima, olhei para o lá em baixo e lembrei-me da dureza de tudo e lembrei-me de uma entrevista do Johannes dos Cult of Luna aquando, provavelmente, do Somewhere Along The Highway, ou seria do Salvation?

Não, não era… em que eles tinham ido gravar para um celeiro, ou cabana lá p'ro meio dos nenhures suecos e, durante a noite, viram uma rapariga de branco lá ao fundo e nunca chegaram a saber de onde vinha ou para onde foi…

Bem, se calhar inventaram isso, como inventaram a historia do Holger Nilsson no Eviga Riket, confesso que fiquei fodida, até já estava com ideias de traçar um paralelo entre os males do Reino do Ugín e o mal nascente do Twin Peaks mas agora não me apetece, não, que não existam pessoas, aparentemente, sofredoras de distúrbios mentais a cometerem crimes e a não assumirem os mesmos, acusando seres aparentemente fantasiosos…

Digo isto porque estava ali, no alto, com o vento a levantar as folhas que não caíram e o céu negro cedia algumas pingas de chuva ou lágrimas de Deus porque a música chorava e porque o Mundo é um lugar tão triste e tão sozinho e tão sem pai, porque estou triste e quando estou triste todas as gotas são lágrimas.

 

publicado por Ligeia Noire às 01:08
música: "Dauðalogn" dos Sigur Rós
sinto-me: de noite

19
Fev 13


Apanho-me, ocasionalmente, com aquele sorriso idiótico no rosto desde que ele me disse (e o quê fica aqui no bolso).

Ando a congeminar uma relação nas arestas e furúnculos da do Lord Henry - Dorian Gray ou melhor, a que ficou por acontecer entre o outro Lorde, o real, o de terra nenhuma e a empregada do restaurante, sim essa é mais plausível, afinal de contas sou uma mansita e só vou abrir cortinas.

A diferença é que sou mulher, mas Eva também era e Lilith e a Babalon, e tenho o sortilégio involuntário do meu lado.

Então, que me dizes a transformá-lo?

E se eu tentasse?

E se eu fizesse como os punks e os batcavers e adaptasse o que tenho, àquilo que quero?

Seria assim tão ofensivo, imoral, infame?

Eram só uns pozinhos…

E não há nada como experimentar.

Conduzir.

Podia construir-lhe um casulo bonito (nunca para aprisionar mas para condicionar), adicionar-lhe violência, capacidade predatória, ficaria perfeito e podia ser que resultasse e eu finalmente falasse enoquiano sem ter de me aproximar do pó estelar.

Fico toda emborboletada só de pensar no que posso atingir, no perigo do abismo.

Claro que depois ele conceberia uma realidade ainda mais nefasta mas, também, no jardim do início, a serpente só falou, foi a Eva quem comeu e deu a comer…

Quando um não quer, dois não dançam.

 

publicado por Ligeia Noire às 23:16

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