“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

29
Jul 14

 

07:45

 

Estou no quarto, sozinha, as cortinas não são opacas o suficiente para ocultarem a evidência da manhã que não quero aguentar, antes pelo contrário, são caramelizadas e transparentes.

Foram os melhores dias da minha vida, podia contar-te tudo mas não quero, foi um ritual de luz negra e vermelha de velas que só a nós pertence.

Cheiro-o em todo o lado, arrumo a garrafa de vodca polaca que o pai lhe ofereceu, a de sumo de maçã que comprámos numa pastelaria ao calhas (bolas, como ele gosta de sumo de maçã…) e a de água para o saco de lixo improvisado.

Ali está a toalha, ali, a um canto, deito-me na cama grande e tento dormir, não consigo, deito-me na pequena e fecho os olhos, durmo?

Se calhar dormi, não sei, não consigo respirar bem. Levanto-me um bocadinho, encosto-me à travesseira e fixo os olhos no vestido com que cheguei e que usei ontem também e que está, também, ali meio dobrado na cadeira, ainda deve cheirar a vinho verde branco fresco que nele foi entornado ontem, tenho de usar outra coisa… umas calças talvez, sim, umas calças e um casaco.

Está frio e nevoeiro, agradeço-te Supremo, agradeço-te pelo frio, preciso de acabar de fazer a mala, ver debaixo das camas, guardar os trocos na carteira, ir à casa de banho buscar o champô e a pasta de dentes… não me deixes pensar Supremo, olha, abrirei a janela e o ar matutino far-me-á sentir melhor.

Assim faço.

A vista é amontoada, grafitis por todo o lado, ah como os odeio! Aos rabiscos e a estas gaivotas que jamais se calam e que, em conluio com as melgas, me não deixaram dormir em condições.

Não penses, mantém-te ocupada.

Fomos ao alfarrabista do costume, não tinha os livros que procurava… levei a aparição por um euro, acho que o vou ler na estação, afinal de contas serão quatro horas de espera e preciso de escapar por um pouquinho que seja.

As lágrimas despontam outra vez, maldito sejas espaço e maldito sejas tu também ó tempo.

As gaivotas continuam o seu horrendo crocitar e o quarto parece-me uma masmorra, sinto-me a asfixiar.

Estou tolhida.

Amo-o e tento não pensar muito nisso para que os pulmões não se adelgacem mais… Quero ir embora deste sítio mas não quero ir embora na verdade.

Tenho medo e cheiro-o em todo lado.

Ontem, antes do jantar, não conseguia estancar o pranto, doíam-me tanto os olhos… Deveria brotar sorrisos borboleteantes e caricias doces mas ah Supremo… como me esmaga a dor da partida… sentia ali que não sabia ainda lidar com aquilo que sentia, quão pequena e marginal era eu perante tamanho tormento, tamanha abundancia de impossibilidade.

Ele, silencioso, pôs o telemóvel a carregar e foi tomar banho, tirei os sapatos, apenas, e deixei que a lingerie me constringisse enquanto me enrolava e fechava os olhos para que tudo ficasse bem.

Em cima da cama repousavam os discos que ele comprou umas horas antes e a caixinha vitoriana que me ofereceu, caixinha de madeira tão bonita… ao olhá-la vem-me à memória o entusiasmo da senhora comigo, com ele e com a nossa história. Embevecida contou-me sobre si e sobre a sua paixão por todas as coisas belas e delicadas que tinha na loja e de que eu também gostei muito. Perguntou-me coisas, apresentou-se, ah o sonho americano ainda, suspirou ela (ele zombou quando lho traduzi no caminho de regresso). Ele estava lá ao fundo com o marido dela, Alberto, assim se chamava o dono. O Alberto ia-lhe mostrando velhos leitores de vinil e máquinas de escrever, a esposa Maria mostrava-me nesse instante outra caixinha de madeira com arabescos na tampa e forrada a veludo verde, havia um baúzinho de madeira negra e floreados brancos mais bonito mas ela gostava mais da outra.

 Olhei-o enquanto este se deliciava com a máquina de escrever de teclas brancas que estava encostada à parede numa mesinha. A que a mãe lhe ofereceu de madeira envernizada, clara é mais bonita, mais graciosa, pensava eu.

Ele percebia que eu e ela falávamos dele porque mencionei o seu nome, sorriu em protesto. A Maria pediu que voltássemos lá um dia, assentei e sorri, ofereceu-nos os discos e só cobrou a caixinha, ah as aventuras! A vida que só se vive aqui e uma vez, arrematou com ar quimérico e saímos.

Tudo isto se me revolvia na tempestade que desembocava do peito ao cérebro sem precedentes, enquanto repousava inquieta e em profusão de cabelos.

Ele lia na banheira e eu sentia que ia morrer de sofrimento contido. Tão difícil se nos apresenta a tarefa de desviar a atenção do indizível. Não havia coisa alguma em que pudesse desaguar o pensamento e subsequentemente me fosse abrir as narinas e descansar o peito.

Abri a janela e deixei que o ar nevoeirento e nocturno me abraçasse um bocado e chorei outra vez. Sentia-me partida e infinitamente desolada.

Regressado do banho, deitou-se na cama grande, abriu o livro e continuou a ler, fechei a janela, tentei pensar nas coisas mais banais e aborrecidas de que me lembrava. Ele chamou-me, chamou para que me deitasse ao seu lado, o direito.

Fechou o livro, talvez tivesse lido apenas duas páginas. Era um livro de capa castanho-escura, grosso e volumoso, sobre as aventuras do Crowley na Alemanha, acho, não sei, apenas acho porque estava preocupada, triste e a respirar às metades.

Ajudou-me, pausou-me, protegeu-me, beijou-me, abraçou-me, salvou-me como lhe é apanágio.

Tentámos ver televisão para que o tempo que não queríamos que passasse, passasse porque o tempo tem de, tem sempre de… ir, mover, circular, tic tac, tic tac.

Filme aborrecido de meados dos noventa, filme que me fez lembrar daqueles romances de bolso à venda nas tabacarias. O sono ia puxando as pálpebras, ele foi descansar um bocado para a cama pequena,

O tempo de passar deve ter passado um bocadinho porque acordei sobressaltada com o toque do telemóvel, soergui-me e atendi.

Eram horas.

O coração esquadrinhou-me as entranhas, abracei-o e peguei-lhe na mala mais pequena.

A noite fria e aveludada pelo nevoeiro deu-me um arrepio inesperado, palavras curtas, beijo curto, abraço espartilhado.

Colocámos as malas na bagageira, ele voltou-se, dissemos até breve e abraçámo-nos.

Partiu, foi, ido.

Eu… eu fiquei ali, mesmerizada, arreigada ao chão, cheia de frio com um vestido de chiffon negro pejado de flores silvestres, renda e que ainda cheirava a vinho branco porque tudo estava arrumado e nada mais havia para vestir e, também, porque achei doce acaso ser o mesmo com que o recebi.

Chorei, cravei as unhas nas conchas das mãos e fiquei ali, assim de madrugada, sombria, enquanto um varredor de ruas observava e seguia o seu caminho ao mesmo tempo.

Subi, embrulhei-me na cama e as lágrimas alojavam-se, quentes, no pescoço.

Amanheceu, não sei se dormi, estou aqui e amo-o e estarreço-me, não por ama-lo mas pelo sortilégio que tudo isto é.

E falar do porvir, de rotinas ou pessoas… mareia-me e desola-me.

A tristeza que sinto é só minha e é triste.

Encontrei o filho-da-lua, desatei o laço branco e agora quero dormir, estar sozinha e não me mexer muito porque ele já não está e eu continuo, perduro-me.

 

I will take you away with me.

Once and for all.

Time will see us realign.

 

publicado por Ligeia Noire às 14:41

23
Jul 13


Prelúdio


Enquanto ele lavava as frutas, eu procurava por umas tesouras, não encontrei nenhumas mas uma faca também servia, dobrei a fita ao meio e cortei.

 

Why am I?

Why am I here?

So distant from

My old life?


Está sol hoje, está sol hoje e não sei.

Eu não sei se já tinha sido -aquela- alguma vez... não, nunca.

Fui-me assim pela primeira vez, quero contar-te tudo mas não sei, perco-me toda...

Estava na sacada, o cabelo ainda estava molhado, deixei que pendesse pelo parapeito enquanto bebia cerveja e os olhos se me humedeciam ao som de cada corda da guitarra que ele deixava ressoar.

Mesmo se tivesse querido tentar aquele quadro anteriormente, não o teria conseguido, não assim, não tão imaculado.

 

You see,

I'm waiting patiently

And what this means to me

Nobody ever knows.


Percebi, ali, que as minhas alegrias serão sempre meias alegrias, atordoadas de melancolia e é bom e sabe bem ser assim.

Ofereceu-me rosas de manhã, três rosas, três rosas muito vermelhas.

Às vezes era dia, outras vezes era noite, contemplámos a lua, descobrimos o mar e flores, muitas, as roxas principalmente.

Fomos ali e acolá e eu prometi ir lá e quis que a promessa se tivesse feito verdade já ali, ou então também não importava porque eu era nova, renascida, tudo era diferente e eu não tinha medo, nem sequer percebia porque tinha tido medo quando me senti tão segura depois…

Gosto que ele não use perfume como eu, inebriada sim, aquele cheiro é o mesmo do da última carta, do do último passeio pela cidade religiosa...

No jardim da outra margem, quando ele desenlaçou o cabelo de trigo para que secasse e eu estava deitada no colo dele como se fosse uma reprodução da pietà... pareceríamos duas mulheres a olhos incautos.

Cavaleiro-das-Terras-Brancas é estranho sim, exótico e o trecho join me in death, this life ain’t worth living fez todo o sentido que poderia alguma vez fazer…

Há compreensão em toda a extensão do azul daqueles olhos glaciares e apeteceu-me chorar muitas vezes porque a beleza é assim, triste e avassaladora e de pontas que aleijam a sério.

E dizia-me que compreendia na plenitude o quão verdadeira fui quando lhe disse que era um gato, e chamava-me gata, gata de passos finos e sorrateiros, gata que brinca e esconde os olhos e as mãos nos bolsos dele, gata que não é de ninguém.

Numa das noites que acabava de cair fomos para o pequeno jardim do terraço, havia alemães e americanos e outros e outros e depois havíamos nós, nós sozinhos, ainda com o cheiro dos livros velhos nos dedos, era noite e bebemos muito, e falámos ainda mais e fomos e viemos e brindámos uma última vez.

Lembro-me do castelo, do loureiro, da escadaria de pedra, das ruas estreitas, da água, dos momentos em que parávamos e olhávamos para dentro dos olhos.

Houve até um dia em que fomos dar a um cemitério e, se tudo isto não fosse natural e imprevisto, poderia ter perfeitamente acreditado que estava dentro da cabeça do Poe, musicada pelos My Dying Bride.

Percebes Supremo porque não queria ir embora? Voltar à minha vida miserável, às pessoas que conheço, era como se quisesse ser sempre assim, uma estranha em terra estranha, de braço dado ao Cavaleiro a quem disse o laço branco porque quis, por ser merecedor, por sentir, por derrotar todas as espadas desembainhadas e até o meu punhal apontado ao peito.

 

Have you forgotten

All this beauty

Around you?

All your worries,

Could easily fade

Behind you...

 

Who is pulling you back?

The end is near.

With such...

With her strength.


As portadas escancaradas do quarto enquanto ele enlaçava a fita vermelha nos meus pés…

… Circe poisoning the sea, Sur l'océan couleur de fer, embalavam esta alegria berçal, este querer não ir e querer não me mexer muito para não sentir que estava a perder o orvalho, ah Alcest!

Claro que sim, claro que tinha de banhar a cidade nocturna, nevoeirenta com a voz do Neige, todo o meu corpo se enrolava e escondia ainda mais no Cavaleiro enquanto cantavas: homem nevado...

Houve a My Pain dos Triptykon:


Fall asleep in my arms
Never to wake up ever again

Morning comes as a surprise
To the solitary heart
This world within my mind
Did it ever even exist?

I wish my touch could mend your bleeding wounds
And mark my existence in your time
I fight the impending lure of belated sleep
For fear of waking up and you are gone


Diz tudo, não é?

Mas, curiosamente, foi The Gathering que imperou e perdurou, a brisa nocturna bailava com a voz da Anneke para cá e para lá e fui adormecendo, esperando a bênção de nunca mais acordar.

Não foi luxúria, euforia, tristeza, foi outra coisa... foi desaparelhamento de tudo o que tinha sido até ali, era como se fosse eu, sim, eu, mas eu mais leve, mais graciosa, eu sem passado e principalmente sem futuro, um eu contente, de sorrisos, um eu enamorado, nobre.

Um eu sem ligações, sem conhecer ninguém, um eu que não queria voltar.

Acordar para voltar? Não.

Descobri uma rapariga elevada e cristalina que nunca logrou existir até agora, uma rapariga celestial, mais filha de ti do que outrora alguma vez conseguiu ser.

Sabes, contei-lhe os meus dois segredos, contei-lhe de ti… contei tudo a bem dizer.

Senti-me tão afastada do mundo e de toda a sua feiura, só existiam lírios, gatos, acordes de guitarra acústica e vinho de tantas proveniências, caía-me e caía-me e havia a viagem de comboio com o rio lá ao fundo e a minha cabeça no ombro dele, enquanto os dedos se seguravam às suas mãos como se fosses tu, havia tudo isto a bailar à minha volta.

Misturo os dias todos, ainda é difícil destrinçar, é tudo uma arca russa, um baile sem paragens.

À noite, disse-lhe que estava enamorada, apaixonada, que o amava nas línguas todas que interessavam, não quis saber de depois, depois, depois, depois que se foda... interessava-me dizer-lho e dizer-lho ali.

Chorei por entre o meu cabelo descido e espalhado quando ele estava a tocar sentado na sacada, chorei quando disse que o amava e chorei quando foi embora, chorei três vezes, três rosas, ele levou a metade da minha fita vermelha e eu tive certezas de gelo de que não queria falar com mais ninguém.

E magoa-me que a vida seja tão desajeitada e dura quando comparada àquela que se desenrola quando somos deuses, almas, anjos enlevados e não caídos.

E não sei se fui demasiado egoísta ao pedir que me salvasse mas não pode ser mais ninguém a fazê-lo senão um Cavaleiro de coração puro e alma branca.

Because Circe is always poisoning the sea…

 

к моему любовнику

 

publicado por Ligeia Noire às 14:07
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27
Nov 12

 

Oiço My Dying Bride, o Evinta e, apesar da Loud assentar que foi um exercício inútil, continua a parecer-me um

belo, fantasmagórico, ambiental e melancólico trabalho do que melhor se faz nesse plano.

Estou triste, deve ser de tudo estar acobreado lá fora... bem, agora não, agora está escuro, uma lua siberiana

de tão bela e um céu que se deixa alumiar por ela, finalmente.

Estive a pensar ontem, pensar, e já não sei o que sabia, pelo menos não com certezas de quem agarra a mão dos pais para atravessar a estrada.

É que a culpa também não é minha, é desta inconstância e insatisfação que tenho.

E sabes o que me veio à memória?

Quando estive com a flor-selvagem, exactamente há quatro anos.

E, apesar do que quero dizer se prender com:


-afinal até gosto dele, afinal até lhe sinto um doce carinho nostálgico-


Bem, apesar de ser isso o que queria escrever para que ouvisses de olhos fechados, o que rememorei foi o quão leve, desprendida e animada me deixei ficar, nada mais, apenas corpo e irracionalidade.


Singular.


Tudo foram toques e beijos e mãos e enleios de desejos, sim desejos.

Mas estive lá, não só para o beijar mas para a ver também e lembro-me do antes, lembro-me de estar naquela

casa térrea em rua perigosa e estarem na sala esperando para que me juntasse aos comensais para o jantar.

Estava no jardim feio e escasso porque o telemóvel tocou.


Ela.

Olá.

Ouvi.

Ouvindo…


Cerrei os dentes mas depois a minha raiva tesa escacou-se de tão fraca e chorei uma meia dúzia de lágrimas

corridas para as mãos, para que pudesse ir jantar incólume e esperar pela noite branca.

O quarto era espaçoso, estava muito calor, a rapariga que dormia ao meu lado ressonava, procurei pelos auscultadores e…


Cult of Luna.


Estava naquela paixão arrebatadora de os ter descoberto há meia dúzia de dias e de não conseguir desapegar-me deles.

Eram e são como um exército de templários que se coloca à porta do castelo para que dali ninguém passe; provavelmente até seria a Leave me here ou a Waiting for you… e chorei apenas metade do que havia para chorar, para que ela não acordasse.

Naquelas horas nocturnas tive saudades de casa, odiei os doirados cabelos tabágicos do lado, quis que a flor-selvagem, que dormia a alguns metros e por quem eu não estava enamorada mas que me prendia o sentido, saltasse do tecto como um vampiro faminto e me fizesse esquecer as dores velhas e cansadas, odiava

a cidade e chorava por tudo, pela que já não sei e sei e não sei, perco-me toda...

Ela estava no planeta ao lado desde que as cervejas verdes ocuparam o seu espaço na mesa de pedra do episódio anterior.

Rememorei hoje, esse ontem todo.

No dia seguinte, entrei na escarpa dele para poder voar.

Não pairar, voar, e voei e gostei e foi bom e branco.


I'll be your lover, I'll be forever

I'll be tomorrow, I am anything when I'm high


Nunca a denominei neste caderno, até hoje não consegui arranjar uma palavra que a vestisse, para ela não

consigo...

Tem ficado solta pelas páginas, nomeio-a para mim nas entrelinhas, e não há um nome criado para que Adão a

possa convocar à reunião baptismal e Deus a reconheça.

E, já que falamos de senhoritas, sonhei com a rapariga-que-tem-nome numa destas manhãs de fim-de-semana.

Ela conduzia e eu estava com ela, num carro incógnito, na estrada secundaria que fica por baixo daquela árvore

impossível que não vou nomear.

Engraçado esse sítio porque ela não lhe pertence, nem o conhece mas eu sei-o de cor.

Já parti a cadência do que aconteceu mas ainda vejo o ramo de flores que colhi para ela e que ficou esquecido

na berma da estrada, no meio da erva.

Lembro-me bem delas, açucenas cor-de-rosa e lilás pálido, talvez, mas o róseo abonava o bouquet, eram para ela e faz todo o sentido que pode fazer.

Rosa cai-lhe bem no colo, confunde-se com a sua compleição eterna de mulher em todas as vidas:


Bela e orvalhada.


Acordei com a certeza de que estive apaixonada e ainda continuo nesta coisa de arrebatada e ávida por si, dona. 

 

 

publicado por Ligeia Noire às 12:01

08
Mar 12


Ontem, na minha correria para o átrio a que uma amiga chamou das andanças do Robin dos Bancos, reparei por entre as japoneiras num rapaz que me parecia o ruivo, sim esse mesmo, as mesmas vestes cinzentas, e o mesmo capuz, estava de costas mas aqueles passos pesados e indiferentes… talvez não fosse, talvez não fosse.

Tenho-lhe muitas saudades, foi um dos que mais me fez esticar a corda e o mais carregado de acasos e, claro, o que melhor me perfez o Frankenstein.

Hoje, pelo caminho, reparei num quadro vivo na esplanada de um café onde a catraiada da escola básica gosta de palrar.

Numa mesa amarela, com cadeiras amarelas, estava uma senhora ou seria senhorita?

Não sei, a aproveitar o céu azul e o sol outonal.

Lembrei-me do Mário de Sá-Carneiro…

A mulher dominava o cenário de preto acutilante vestida, de saltos que tocavam o céu, espraiava-se inteira numa esplanada deserta.

Não se movia, não tinha o olhar num outro mundo, como costuma suceder às raras figuras que me prendem os olhos mas tinha-o ali, presente mas no cimo de uma montanha, um olhar feito de adagas de gelo.

Gosto deste meu passatempo, mais do que enrolar os cabelos nas pontas dos dedos mas menos que raptar flores, gosto demasiado de observar e, às vezes, acontecem estes quadros bonitos, de pessoas que tingem o círculo da imobilidade.

Bem, mas vamos aos assuntos pequeninos. 

 

Don’t run from me, I won’t bother counting one, two, three

 

Uma das coisas em que descobri estar errada, é no cansaço a que me permito em relação a determinar pessoas, apercebo-me de três ou quatro traços e não me amolo mais em pô-las à prova.

Ora bem, que dizer, quando brincava em desatar ou não os laços...

Hoje reparo que fiz bem em mantê-los atados. 

Já não me impressionas, afinal não és tão alto como julgas.

E tu, bem, tu nunca chegaste a ser considerada, enfastiaste-me antes disso, ao contrário do primeiro exemplo, tu quiseste subir à pressa, desleixadamente.

De ti, não foi preciso recuar, sempre estive sentada na sacada.

Enquanto lavava uma camisa branca e estroinava os ossos ao som da voz do maldito, reparei que as coisas pequenas são mesmo isso, pequenas.

E a ti, será que ainda faz sentido colocar-te num assunto dos grandes?

 

I’m weak, seven days a week

 

Yeah babe, é desta forma que sou fraca, de neve enrolada e de olhos escancarados e pálpebras fechadas, esperavas que me lançasse e amenizasse, era assim que me querias?

Foi por isso que me bateste à porta, três vezes?

Será por ser esse, o número perfeito?

Pena que o meu sempre tenha sido o sete.

É isso, percebeste bem, minha pungente flor-selvagem, vai batendo, bate durante a noite e de preferência à hora das bruxas.

Não, não vou abrir mas sabes o que me apetecia, assim, mesmo muito?

Sabes aquele castiçal de velas velhas?

Pois, esse mesmo.

Não achas que ficaria encantador no parapeito da janela, pois, eu também acho mas claro, as cortinas teriam de ficar bastante afastadas, não queremos um incêndio (alheio), certo?

As janelas brancas da casa de pedra, bem trancadas, a porta com a aldrava e os fósforos que sobraram do Inverno serviriam para iluminar de vermelho este velho castiçal e, como eu me deito tarde e as noites vão azuladas, nada melhor do que contemplar a mãe-lua e deixá-la trespassar-me o corpo.

Acetinar a pele traz-me sono.

Pois, se calhar até adormeço de cortinas abertas, está uma noite tão deliciosa, não te parece?

publicado por Ligeia Noire às 20:40

09
Jan 12


Não quero que respondas, quero apenas que leias.

Eu mudei muito, eu sei.

A nossa relação mudou muito.

Quero pedir-te perdão por todo o sofrimento que já te causei, que eu sei que foi muito.

Ainda hoje não consigo entender como te pude magoar tanto, dizer-te as coisas que disse, estragar aquilo que era nosso, e apenas nosso.

Tu és como uma flor delicada e ao mesmo tempo fugidia.

Mereces ser bem tratada porque és muito bonita e pura.

Quero que saibas que ainda és especial para mim, ainda te adoro e ainda acredito naquilo que é nosso, ainda que se tenha alterado ao longo do tempo…

Eu continuo aqui, ainda que entenda que a vontade possa estar confusa.

Eu estou aqui para ti, como sempre estive, ou assim deveria ter estado e sempre estarei.

Ainda que cresçamos e as nossas estradas se vão desviando aparentemente. 

 

Post-scriptum: Perdoa-me por ter colocado aqui, neste sítio feio e por vezes cheio de olhos mas teve de ser, é demasiado bonito para se perder no tempo.

E como diz a frase que tu um dia me escreveste e com a qual intitulei o desabafo, tu sempre estiveste presente, sempre, sempre fez sentido, sempre.

Jamais conheci alguém com quem partilhasse aquilo que partilhei contigo, não sou capaz, nem tenho vontade ou coragem para o voltar a fazer com ninguém.

É como se o mundo já não fosse o mesmo.

Como dizia o Tuomas, a perda da inocência é o que mais custa e é o que nunca se recupera.

Deste-me tanta coisa rapariga, que nem tu própria tens consciência.


One sees clearly only with the heart. What is essential is invisible to the eye

publicado por Ligeia Noire às 22:50
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One sees clearly only with the heart. What is essential is invisible to the eye.

publicado por Ligeia Noire às 22:43
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28
Nov 11


-Se não gostas que leiam o que escreves, por que o fazes?

-Não disse que não gostava, só não quero saber, não preciso de o saber porque não o faço para os outros, faço-o por necessidade.

-Pois mas há sempre quem leia.

-Um dia li que isto era, mais ou menos, como escrever e deixar o caderno esquecido em cima de um qualquer banco de jardim depois, alguém pegaria leria e deixá-lo-ia no mesmo sítio, para voltar a ser escrito.

-Compreendo.

Não me importo, assim como assim, pouco lhes há-de interessar e pouco iriam compreender.

Às vezes, arrependo-me de ter aberto algumas janelas, deliberadamente, mas o que está feito está feito.

É como o prazer pelo prazer, não há a vontade de se querer conhecer quem está ali.

Não quero conhecer.

Quero viver no meu mundo, quero olhar para as pessoas como se fosse uma eterna viajante, apenas olhares, cruzares de caminhos, sem palavras, sem violações de linha vermelha, apenas e só, vultos difusos e nevoeirentos, nada mais.

Hoje foi um dia de muito cansaço, hoje foi um dia de demasiado cansaço.

Amanhã, o cansaço será demasiado e depois e depois e ainda depois, até que eu envelheça mais e mais, até não conseguir colocar a domino.

Estou triste, assim triste e frágil e não sei, não sei.

Nada faz sentido, tantas lombadas de livros, tantas pessoas que me cruzaram o caminho, tantos dias que cresceram desmedidos, tantas horas por dormir, tanto e um tanto mais de coisas que não fazem sentido, que não me fazem sentir melhor.

Eu, eu, e eu queria só ser.

Queria seguir um caminho direito e parar ao final dele, não queria ter estes olhos que olham para as pedras minúsculas e para os ramos secos, queria apenas ver o caminho à minha frente e andar.

Queria querer ter um futuro, queria querer ser alguém, queria querer casar, queria querer ter filhos, queria conseguir amar, queria ser aquilo que não posso, não há metáforas, não posso.

Queria que a paranóia, o pânico, o medo, a dissidência, a violência, o abismo e a queda, cessassem.

Queria que tivesses mãos para que pudesse saltar, queria sonhar com as gotas das tuas lágrimas a caírem-me nos olhos e, assim, saberia que nunca foste embora.

O que é que eu faço agora?

Queria ir e não posso.

Estou tão cansada Supremo, estou tão cansada e tu não vês que sou apenas uma criança pequena, nunca deixei de ser a menina dos caracóis que chorava virada para a janela do quarto anti-séptico.

Nunca deixei de ser a rapariga que achava que tinhas mãos como regaços onde me podia sentar e baloiçar.

Nunca deixei de pensar que, haveria uma noite, apenas e só uma, em que abriria os olhos e deixaria de pairar.

Quando chove muito, quando o vento se zanga muito é quando te sinto mais perto, é quando sinto que faço parte daqui, que as coisas me pertencem também.

E tu estarás do lado de fora da janela a pedir permissão para entrar, como os vampiros velhos.

Hoje estou realmente desfolhada, tal como naqueles dias em que me fechava no quarto branco com líquidos transparentes.

Aquando da minha meninice, tinha um quarto pequeno onde passava horas a fazer de conta.

Tinha muitas bonecas e gostava de sobremaneira de as vestir, invejava-as tanto, tanto quanto aquela gata branca, tanto quanto aquela rapariga alta de pulsos finos.

A rapariga.

É a sensação de que algo pode atingir um tão grave grau de beleza que tu não consegues suster, que tu não consegues suportar sequer.

É uma vontade imensa de as possuir, de as ter numa caixinha de laço branco.

As flores são as mais altivas, pensas tê-las para ti assim que as colhes mas morrem-te nas mãos.

Houve um episódio de uma série no qual uma mulher tinha uma obsessão pela princesaSissi, deixou crescer os cabelos e vivia uma vida paralela àquela que o mundo lhe conhecia.

Assim que chegava a casa, abria a porta de um quarto secreto e vestia longos vestidos, soltava os cabelos e colocava-lhes pérolas.

Um dia, até chegou a deixar-se ficar para trás numa visita turística, só para poder dormir na mesma cama.

Gosto muito de bonecas, daquelas que parecem sempre tristes.

Era assim aquela rapariga do estabelecimento.

Nos seus jeans clássicos, blusa branca e casaco de lã, cabelos castanhos lisos e pulsos finos.

Mal ela sabia que eu ficava longos minutos a admirar a forma como se mexia e como pegava nos papéis.

Era disso que mais gostava, de ver as mãos finas e brancas a dançarem, enquanto eu fingia estar no planeta ao lado.

Um dia, trouxe o cabelo apanhado com um belo gancho e a dona do estabelecimento disse-lhe que ficava melhor de cabelos soltos.

Gostava de lhe ter dito: "não a ouças, as flores mais belas, são as que ainda nem sequer desabrocharam."

E gostava que ela tivesse sorrido.

Às vezes, penso se não lho terei dito?

Não me lembro, é tudo tão nebuloso, é tudo tão mutável.

Nunca mais lá fui, nunca mais a vi.


publicado por Ligeia Noire às 21:58
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11
Nov 10


Não consigo fechar os olhos e lembrei-me de que estarias sempre aqui.

E de facto estás.

Na estante branca, do quarto branco, está o teu postal, estão as tuas palavras, estás tu, ainda menina, de catorze anos e, deste lado, estou eu... de olhos tingidos e peito afundado.

Faltam-me as tuas mãos na mesa daquele café escuro.

As saudades que sinto não as posso dizer.


publicado por Ligeia Noire às 02:18
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07
Fev 08


Não entendia como conseguia ver através dos teus olhos o que sentias.

Ver como se tivesses sido parte de mim, há eternidades…

mas eu via… e tu vias também…

Tu olhavas para dentro de mim e curavas as feridas, estancavas o sangue.

Entre nós não pertencia nada mais.

Tu lias-me e eu lia os teus olhos.

Éramos assim.

Tu olhavas para mim e eu via o mundo.

O outro mundo.

O nosso laço.


publicado por Ligeia Noire às 15:15

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