“We are like roses that have never bothered to bloom when we should have bloomed and it is as if the sun has become disgusted with waiting”.

03
Fev 14

 

Are you, Are you
Coming to the tree?
Where they strung up a man they say murdered three
Strange things did happen here
No stranger would it be
If we met up at midnight in the hanging tree

 

Are you, Are you
Coming to the tree?
Where the dead man called out for his love to flee
Strange things did happen here
No stranger would it be
If we met up at midnight in the hanging tree

 

Are you, Are you
Coming to the tree?
Where I told you to run, so we'd both be free
Strange things did happen here
No stranger would it be
If we met up at midnight in the hanging tree.

 

Are you, Are you
Coming to the tree?
Wear a necklace of rope, side by side with me.
Strange things did happen here,
No stranger would it be,
If we met up at midnight in the hanging tree.

 

 

Já tenho saudades da Katniss Everdeen, já não lia há algum tempo e ler três livros de mais de trezentas páginas de uma assentada é obra, pelo menos para mim. Pode dizer-se que é assim uma versão juvenil do "mil novecentos e oitenta e quatro", gostei muito mesmo, os filmes são uma espécie de nostalgia da trilogia.

Enquanto me debruço sobre o primeiro álbum dos Sigur Rós que me pediram para ouvir e espero que o espirito santo desça em mim e me ilumine.

publicado por Ligeia Noire às 14:14
etiquetas:

23
Jul 13


Prelúdio


Enquanto ele lavava as frutas, eu procurava por umas tesouras, não encontrei nenhumas mas uma faca também servia, dobrei a fita ao meio e cortei.

 

Why am I?

Why am I here?

So distant from

My old life?


Está sol hoje, está sol hoje e não sei.

Eu não sei se já tinha sido -aquela- alguma vez... não, nunca.

Fui-me assim pela primeira vez, quero contar-te tudo mas não sei, perco-me toda...

Estava na sacada, o cabelo ainda estava molhado, deixei que pendesse pelo parapeito enquanto bebia cerveja e os olhos se me humedeciam ao som de cada corda da guitarra que ele deixava ressoar.

Mesmo se tivesse querido tentar aquele quadro anteriormente, não o teria conseguido, não assim, não tão imaculado.

 

You see,

I'm waiting patiently

And what this means to me

Nobody ever knows.


Percebi, ali, que as minhas alegrias serão sempre meias alegrias, atordoadas de melancolia e é bom e sabe bem ser assim.

Ofereceu-me rosas de manhã, três rosas, três rosas muito vermelhas.

Às vezes era dia, outras vezes era noite, contemplámos a lua, descobrimos o mar e flores, muitas, as roxas principalmente.

Fomos ali e acolá e eu prometi ir lá e quis que a promessa se tivesse feito verdade já ali, ou então também não importava porque eu era nova, renascida, tudo era diferente e eu não tinha medo, nem sequer percebia porque tinha tido medo quando me senti tão segura depois…

Gosto que ele não use perfume como eu, inebriada sim, aquele cheiro é o mesmo do da última carta, do do último passeio pela cidade religiosa...

No jardim da outra margem, quando ele desenlaçou o cabelo de trigo para que secasse e eu estava deitada no colo dele como se fosse uma reprodução da pietà... pareceríamos duas mulheres a olhos incautos.

Cavaleiro-das-Terras-Brancas é estranho sim, exótico e o trecho join me in death, this life ain’t worth living fez todo o sentido que poderia alguma vez fazer…

Há compreensão em toda a extensão do azul daqueles olhos glaciares e apeteceu-me chorar muitas vezes porque a beleza é assim, triste e avassaladora e de pontas que aleijam a sério.

E dizia-me que compreendia na plenitude o quão verdadeira fui quando lhe disse que era um gato, e chamava-me gata, gata de passos finos e sorrateiros, gata que brinca e esconde os olhos e as mãos nos bolsos dele, gata que não é de ninguém.

Numa das noites que acabava de cair fomos para o pequeno jardim do terraço, havia alemães e americanos e outros e outros e depois havíamos nós, nós sozinhos, ainda com o cheiro dos livros velhos nos dedos, era noite e bebemos muito, e falámos ainda mais e fomos e viemos e brindámos uma última vez.

Lembro-me do castelo, do loureiro, da escadaria de pedra, das ruas estreitas, da água, dos momentos em que parávamos e olhávamos para dentro dos olhos.

Houve até um dia em que fomos dar a um cemitério e, se tudo isto não fosse natural e imprevisto, poderia ter perfeitamente acreditado que estava dentro da cabeça do Poe, musicada pelos My Dying Bride.

Percebes Supremo porque não queria ir embora? Voltar à minha vida miserável, às pessoas que conheço, era como se quisesse ser sempre assim, uma estranha em terra estranha, de braço dado ao Cavaleiro a quem disse o laço branco porque quis, por ser merecedor, por sentir, por derrotar todas as espadas desembainhadas e até o meu punhal apontado ao peito.

 

Have you forgotten

All this beauty

Around you?

All your worries,

Could easily fade

Behind you...

 

Who is pulling you back?

The end is near.

With such...

With her strength.


As portadas escancaradas do quarto enquanto ele enlaçava a fita vermelha nos meus pés…

… Circe poisoning the sea, Sur l'océan couleur de fer, embalavam esta alegria berçal, este querer não ir e querer não me mexer muito para não sentir que estava a perder o orvalho, ah Alcest!

Claro que sim, claro que tinha de banhar a cidade nocturna, nevoeirenta com a voz do Neige, todo o meu corpo se enrolava e escondia ainda mais no Cavaleiro enquanto cantavas: homem nevado...

Houve a My Pain dos Triptykon:


Fall asleep in my arms
Never to wake up ever again

Morning comes as a surprise
To the solitary heart
This world within my mind
Did it ever even exist?

I wish my touch could mend your bleeding wounds
And mark my existence in your time
I fight the impending lure of belated sleep
For fear of waking up and you are gone


Diz tudo, não é?

Mas, curiosamente, foi The Gathering que imperou e perdurou, a brisa nocturna bailava com a voz da Anneke para cá e para lá e fui adormecendo, esperando a bênção de nunca mais acordar.

Não foi luxúria, euforia, tristeza, foi outra coisa... foi desaparelhamento de tudo o que tinha sido até ali, era como se fosse eu, sim, eu, mas eu mais leve, mais graciosa, eu sem passado e principalmente sem futuro, um eu contente, de sorrisos, um eu enamorado, nobre.

Um eu sem ligações, sem conhecer ninguém, um eu que não queria voltar.

Acordar para voltar? Não.

Descobri uma rapariga elevada e cristalina que nunca logrou existir até agora, uma rapariga celestial, mais filha de ti do que outrora alguma vez conseguiu ser.

Sabes, contei-lhe os meus dois segredos, contei-lhe de ti… contei tudo a bem dizer.

Senti-me tão afastada do mundo e de toda a sua feiura, só existiam lírios, gatos, acordes de guitarra acústica e vinho de tantas proveniências, caía-me e caía-me e havia a viagem de comboio com o rio lá ao fundo e a minha cabeça no ombro dele, enquanto os dedos se seguravam às suas mãos como se fosses tu, havia tudo isto a bailar à minha volta.

Misturo os dias todos, ainda é difícil destrinçar, é tudo uma arca russa, um baile sem paragens.

À noite, disse-lhe que estava enamorada, apaixonada, que o amava nas línguas todas que interessavam, não quis saber de depois, depois, depois, depois que se foda... interessava-me dizer-lho e dizer-lho ali.

Chorei por entre o meu cabelo descido e espalhado quando ele estava a tocar sentado na sacada, chorei quando disse que o amava e chorei quando foi embora, chorei três vezes, três rosas, ele levou a metade da minha fita vermelha e eu tive certezas de gelo de que não queria falar com mais ninguém.

E magoa-me que a vida seja tão desajeitada e dura quando comparada àquela que se desenrola quando somos deuses, almas, anjos enlevados e não caídos.

E não sei se fui demasiado egoísta ao pedir que me salvasse mas não pode ser mais ninguém a fazê-lo senão um Cavaleiro de coração puro e alma branca.

Because Circe is always poisoning the sea…

 

к моему любовнику

 

publicado por Ligeia Noire às 14:07
etiquetas: , ,

17
Dez 12


É engraçado como tudo o que me segurava apodreceu, é triste e tudo o que vejo é feito disto, é lúgubre e é sempre.

Se calhar há uns anos não imaginaria vir um dia a dizer isto mas preferia ser órfã de tudo.

Gostava de ser sozinha, já que não posso deixar de existir gostava de ser sozinha e mais não há que possa ser dito.


 

Aniversário

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus! O que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 

Por Fernando Pessoa vestido de Álvaro de Campos



Balelas Fernando, tudo balelas é tudo melhor sozinho, é tudo bom quando podemos apenas ir embora sem levar ninguém, sem deixar ninguém, comer e poisar noutra flor e ir e ir e ir… não posso falar com os que conheço porque não me conhecem, não posso falar com os que me conhecem porque não existem, ando nisto há muitas luas.

Nada faz sentido, estou cansada de todos e cansada de todos estou.

Não posso falar, não quero falar mas aqui pensei que amainasse e não amaina.

No dia em que festejavam os meus anos era uma boa merda, mais valia que não o fizessem, que ninguém existisse, tenho dentro de mim uma mãe das abominações que quer evadir-se para a Carélia e existir só à noite ofertando o corpo, estou farta de escritores e imagens e pessoas e dias e nove às cinco e relacionamentos de todas as espécies e amigos e inimigos e intelectuais e burros e mulheres e homens, e agrados e discussões e mundos e além-mundos, do poema do Pessoa, que não é poema, que nem sequer gosto, que nem sequer reflecte o que sinto mas que entoa uma certa ânsia de que o passado é sempre este deus menino, pequenino e bonito, eu não tenho saudades do passado que foi uma merda, do presente que é uma merda e do futuro que será uma merda e menos merda seria se não fosse e se nem acontecesse a cada dia.

E há a cabeça na travesseira todas as noites e há olhos que se aferrolham mas que se abrem sempre e tudo é uma porcaria e tudo me mete nojo e tudo é feio e tudo é sem sentido… menos a música, menos a música, todo o resto pode ir em correnteza de rio para o caralho.


Jag finner inga svar
- Finns det några svar?
Jag finner inga svar
- Finns det några svar?
Jag finner inga svar
- Det finns inga svar!

 

Lyrics by Lifelover/Letra de Lifelover



publicado por Ligeia Noire às 14:56

22
Out 12

 

I

 

One, two, three do you love me?

Watch me scream, burning on the trees in amazement

 

Uma espécie de sarça ardente, gosto que não queimes as plantas, prezo tudo o que não fala.

Bem, não sei se estava lá, na verdade, nem sei o porquê da minha indolência… talvez me faltasse sal nas veias.

Mas aonde vais?

Espera, eu tenho tudo p'ra aqui escrito nalgum sítio, do resto falarei depois.

Se calhar estou zangada porque não consegui comparecer dentro de mim e olvidar as cercanias.

Ora bem, nem sempre pode a ovelhinha saltar lá para dentro.

Acho que foi o tudo que os meus olhos filmaram em: Slo-mo-tion até ali, que me barrou de saltar para terrenos pantanosos.

Talvez com umas gotas de zimbro conseguisse diluir o algodão que me prendia as pernas, lá está a Justine a

aflorar-me à cabeça, no seu vestido contraproducente de felicidade para sempre onde desmente e finge o que sente, assim penso ter-me sentido, com coisas na garganta que não me deixavam engolir e raízes nos pés, que pelas pernas se ramificando, não me deixavam caminhar.

 

II


Pareceria ridículo se dissesse quem é, na verdade, todas estas páginas estão pejadas de nomes, moradas, idades, traços faciais, linhas de coser…

Se ler cada uma delas, é como se me pegasse pela mão e me deixasse sentada no meio do exacto momento do que ali se fala.

Começou sem entendimento, tornou-se no cinzeiro que nunca é limpo.

Há três cancões dos Nadja:


You write your name in my skin

You write your name in my head

You write my name in your blood

 

É isto que faço aqui.

III

 

Sempre achei uma tolice a cena das musas, estás a ver assim tipo as Tágides, pois, afinal era eu a néscia, é

tão ou mais importante do que a dor, a tal esquisitice.

É o segredo bonito que pára de crescer se contado.

Hoje reparo, sem querer, que estou a cair aos bocados, que com a minha dignidade e orgulho cinzelarei a lápide que me cobrirá, se dinheiro houver para a atarracar em cima de mim, uma espécie de autopergamene.

E não me arrependo, embora devesse.

Hoje experimentei a dor que dói duas vezes, usei a domino... (ri comigo Supremo) experimentei, disse eu,

pois… não experimentei, eu, eu estava de pé, frente à causa e dentro de mim andava-me até à gaveta e

pegava nela, colocava-a nos olhos, para que não fosse muito eu que estivesse ali.

 

IV


Limpei a alma da culpa mastigada daquele Domingo, lembras-te?

Estou sempre a perguntar se te lembras…

Fui desabada pelas costas, cervejas verdes acumulavam-se na mesa de pedra escura da cozinha.

Mas eu estava, já, do outro lado, chão branco, gaveta última aberta, toda, quando a rapariga-que-tem-nome e a de cabelos de trigo abriram a porta.

Fui com a segunda para a taberna do senhor de barbas.

Nesse dia eu era como o buraco negro dos Bizarra.

Coisa sem jeito, roupa feita só do avesso.

Nunca meu amigo, nunca me havia sido inculcado tamanho golpe.

E por o apreço ser tanto e a fuga tão inelutável, ainda hoje trazia os espigões metidos até às partes moles da alma.

É tempo e faz-se urgente deixar crescer as unhas para os ir buscar lá dentro e desapegá-los da sua comensalidade, esmagando-os neste cinzeiro.

Afinal o meu amor sempre foi maior do que o lado de lá dos olhos.

Afinal tínhamos oceanos mortos no – entre nós-

Por querer guardar os olhos para florirem incautos à tua Primavera, recebi de peito desabrochado e de rosto corado o derradeiro golpe.

Incrédula, raivosa, seivada, descendo para agressiva, em estado negativo chego à hipocrisia, viscosa culmino nesta gaveta aberta sem a domino lá fechada.

publicado por Ligeia Noire às 11:54
etiquetas: ,

06
Jun 11


Salvé Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salvé.

A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a Vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas.

Eia, pois, Advogada nossa, esses Vossos olhos, misericordiosos a nós volvei.

E, depois deste desterro nos mostrai Jesus, bendito fruto do Vosso ventre.

Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria, Rogai por nós Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Ámen.


Não há nada mais gótico (primeira vez que utilizo a palavra neste caderno) do que o Cristianismo.

O filho que veio à Terra prossegue cravado na madeira.

Pregado de mãos e pés.

Rosto baixo e braços que ascendem até nós.

O sagrado, as oferendas, o altar, o sangue de um homem que se deixou martirizar por amor.

A trindade que se consubstancia.

O vinho, o cálice, as vestes majestosas da celebração, as velas, os rosários, o silêncio.

A beleza, que se entregou às mãos de Miguel Ângelo ao conceber a Pietà.

A mulher, mãe e senhora que segura o filho morto nos braços.

O filho morto.

Cristo de S.João da Cruz de Salvador Dalí, o homem crucificado sem rosto, o céu, a unidade, nós lá em baixo,

sozinhos, órfãos.

A Divina Comédia de Dante:

Inferno, Purgatório, Paraíso.

Paraíso, Purgatório, Inferno.

Os caminhos e os entre-caminhos, o limbo, o escuro, por onde ir, aonde chegar, a finalidade és sempre tu.

Bach, Bach, Bach Magnificat!

Ave Maria de Schubert, lembro-me de a ouvir pela primeira vez na igreja, pela voz de uma soprano que cantava em memória de um rapaz que morreu num acidente.

A mãe dele chorava.

A beleza que amansa o trágico e que permite as lágrimas.

O Réquiem de Mozart, como inserir aqui letras que formem palavras que aperfeiçoem… repouso eterno, carne, luz perpétua… piedade, tende piedade de nós, pobres filhos órfãos, pequenos e sozinhos.

O Paraíso Perdido de John Milton, Lúcifer filho, Cristo filho, nós pobres filhos órfãos, redenção na queda.

Estrela-da-manhã que te rebelaste e caíste, caíste tanto que estás agora aqui, a equilibrar o mundo que pisamos até ao dia último.

E os Nefilins, os cavaleiros dos céus, dos caídos, filhos de anjos que amaram as filhas dos homens, será que se soubesse falar enoquiano me ouviriam?

E a casa dos mortos?

De anjos de pedra feita, de flores mortas decorada, de círios e cruzes e noite e silêncio e choro e dor e partida e descanso final e esperança última para aqueles que sabem esperar.

A Virgem, a Dama branca, Maria, filha dos montes e das águas, pagã, a mãe de todos, o regaço, a mulher que segura o filho morto nos braços.

E tu?

Quem és tu que moldaram e induziram em catecismos a seu bel-prazer?

O verbo consubstanciado carne, o amor incondicional, a liberdade, a mesa onde partiste o pão e seguraste o cálice, a premissa de amor eterno.

Tu, que empregamos como limite para lermos o tempo

Tu, que ensinaste os Homens a lavar pés cansados.

Tu, que escreveste no chão, tu que chamaste as crianças, tu que calaste as pedras e fizeste falar a prostituta. Tu, que te deixaste beijar pelo filho errante, tu que pregaram à madeira, tu que sangraste.

Tu, filho, que soubeste o que é ter sangue nas veias, ossos que doem e lágrimas que corroem como ratazanas.

Tu, que bradaste aos céus:

Pai, pai por que me abandonaste?

Tu que principiaste a aliança e que foste embora para nunca mais voltar…

Tu, que vieste não sei de onde e que os Homens educaram, disfarçaram, destruíram e reconstruíram sob outros nomes, noutros ritos.

Tu, que desenhámos à nossa semelhança.

Tu, que és nós.

Tive um amigo, esse amigo é catequista, ele gosta de ensinar crianças e gosta de ser educado.

A minha irmã vai fazer o Crisma… São leis dos homens, existes? Gostas delas?

A minha mãe foi catequista, o meu pai era membro do grupo coral.

Não vamos à missa muitas vezes mas, quando vamos, ouço-os entoar os cânticos como se tivessem vinte anos, cânticos embelezados com o som do piano levezinho.

O padre que me baptizou e me ensinou continua lá, as crianças continuam a achar aborrecido, há pessoas que continuam a olhar para as roupas do vizinho e, as eternas senhoras de longos anos sempre de negro, já não têm medo da morte, pelo menos dizem-no assim, mas quando olhamos com cuidado, para os seus olhos de muitos anos, vemos que não querem ir, querem abraçar os netos mais um bocado e ouvir o que nunca ouviram dos filhos.

E é assim que prosseguimos, pé ante pé, acordamos, lavamos o rosto, mochila às costas, ou enxada na mão.

Professor que ensina, ou saco de cimento que pesa.

Homem que trespassa as costelas de outro, ou mulher que colhe flores.

Fogo que consome arvoredos ou chuva que dizima gentes.

É assim que prosseguimos, daqui, para ali e dali para um outro qualquer sítio, sem memórias do mundo a que pertencemos primeiro, sem conhecimento daquilo que está para lá do mármore frio ou do lume que crema.

Dizem coisas todos os dias, dizem coisas todos os dias.

Nada que importe, nada que faça chuva.

Assim é.


publicado por Ligeia Noire às 23:20
etiquetas: , , ,

23
Fev 11


A cesta de medronhos que abona os teus braços e o rio de sangue que corre nos teus cabelos.

Inumo as unhas nas tuas mãos e és o cálice de vinho que derramo na boca.

Ganho-te beijos e sabes como gosto de te toldar os sentidos.

E hoje queria ser violenta e deixar a doença entranhar-se-me na carne mas, eis que chegaste, condensada, e a beleza é o melhor pasto.

Não sejas cândida e tão de porcelana, hoje… desenlaça o viveiro e abre os olhos.

Vem comigo.

Os tempos da santíssima trindade terminaram mas schiuuuuuu isto é um segredo bem pequenino.

Desce as escadas, esta noite vamos aprimorar a decadência.

Vê-los ali?

São tão belos, são assim porque a perfeição lhes nasce da alma.

O chão atapetado de cimento frio e catalítico e eles dançam e dançam, cheios de anestesias diversas.

Os corpos, máquina perfeita, imagino o quão vermelhos estarão os seus corações, os ramos de capilares na pele rendada, os cabelos que tapam os rostos, o passado veio poisar no cenáculo e as oferendas banham-se em cristais de gelo.

Anda comigo, desce as escadas e vamos soltar os cabelos.

Fugir do mundo, hoje a lua abriu-se e os mortos jazem por ela.

Deixa-me encher-te o peito e as veias, deixa-me dar-te liberdade e fazer-te pairar sem embargo.

Hoje tomo conta de ti, hoje estás no altar do mundo e o cenáculo é a tua casa.

Só é possível encontrar e usar este caminho, se o teu corpo se coadunou com o abismo.

Olho-te dentro e estás pronta, estás livre e enquanto a liberdade se encarna de vontade, somos todos nossos e somos todos sozinhos, a celebrar a alienação.

Gosto de deixar estes anjos assim… trazê-los à flor da pele e narcotizar-lhes a realidade para que possam viver uma noite à luz da lua e florescer de braços nus para a música.

O encantamento maior, a delícia mais sublimada e opiácea.

Sorris muito, sorris por entre esse teu cabelo de medronhos e olhos tenros.

Fazes-me bem, inspiro-te completa e danço contigo.

Se é saudável?

Não, não é.

Provavelmente amanhã irás sentir o corpo a fermentar e o céu cinzento vai entrar-te todo de uma vez nos olhos.

As cadeiras onde te sentares e as salas onde tiveres de guardar o corpo irão parecer-te masmorras embebidas de olhos escancarados.

Linhas de gumes afiados irão nascer-te por todo o lado, as bolachas 100% especiais irão dar-te sarna e vontades de lhes escacar os dentes, um a um, irão nascer-te nos dedos... mas ficarás a repousar a seiva que te escorre das unhas e guardá-la-ás nos bolsos.

Não queres assustar os pacotes extra-saborosos que aguardam todos os dias pelo sol mas que se auto-agraciam com a noite, envenenando-a de tédio.

Todos os bichinhos correm da sombra para o sol.

E noites de destruição massiva não podem ser domesticadas e regularizadas.

Não assinas pela tua integridade, nem esperas repetição.

Acontece assim, como um sonho em que apareces nua e rosácea no meio da erva-molar orvalhada, da qual nunca acordas inteira.

Olho para ela e olho para todos e olho para mim e sinto o sangue com pressa de chegar à carótida e cava-me lanhos no peito e sinto-o distender-se imensamente.

As anestesias correm-nos de uma ponta a outra e sinto-me toda.

Dançamos em júbilo e derramamos jóias dos olhos e da boca.

Ela renasce nos meus braços e já não somos pessoas, somos lobos brancos e cinzentos e castanhos e negros e uivamos à deriva.

O mar estende as ondas enroladinhas e quebramos o suor na sua frieza de Inverno.

Damos as mãos e abraçamos os nossos corpos de matilha.

Sei que ao cruzares a hora das bruxas tudo se esvairá da tua memória.

Resta-te o cabelo de sangue e a cesta de medronhos, atravessa a ponte e corre para casa, dorme e prepara a domino para a selva.


publicado por Ligeia Noire às 21:57

09
Fev 11

Choose Life.

Choose a job.

Choose a career.

Choose a family.

Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers.

Choose good health, low cholesterol, and dental insurance.

Choose fixed interest mortgage repayments.

Choose a starter home.

Choose your friends.

Choose leisure wear and matching luggage.

Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics.

Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning.

Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth.

Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves.

Choose your future.

Choose life... But why would I want to do a thing like that?

I chose not to choose life.

I chose somethin' else. And the reasons? There are no reasons.

Who needs reasons when you've got heroin?


Excerpt from the film Trainspotting/Excerto do filme Trainspotting


publicado por Ligeia Noire às 14:01
etiquetas: ,

28
Ago 10

 

Durante as férias li dois livros.

Nada de especial, não fosse o facto, de os andar a tentar ler, há décadas!

No final da leitura fico sempre com a sensação de que o nada é o que importa, de que já tudo foi dito, feito, sentido, perguntado, procurado, cantado, escrito mas não respondido.

Talvez, talvez quando tudo estiver claro perceba o sentido da existência humana.

Sei o que me é caro e o que me prende, de resto tudo se resume a um imenso vazio de coisas que baloiçam.

Daqui.

Dali.

De lá.

Para cá.

Vai.

Vem.

O próximo livro que vou intentar deixou-me imersa, umas boas horas da madrugada, a pensar nas drogas. E atrás delas veio tudo o que cabe nesse saco, o sexo, o amor, a amizade, a arte. Enfim, tudo o que nos suporta a alma. Tudo o que nos aproxima do divino. Todas essas substâncias que nos revelam o perigo, o mundo, a travessia da fronteira.

Tudo o que nos dá prazer é escapismo.

A beleza é a mais casta das suas formas, a mais ambivalente e fértil.

Adornar o corpo, transformá-lo, controlá-lo, oferecê-lo, destruí-lo… As formas primitivas e intuitivas de prazer que derramam essa beleza multiforme nos olhos do espírito.

Quem se quer ver ao espelho?

Quem estará do outro lado?

A tenra sedução da liberdade, do esquecimento, da elevação.

O mundo prossegue mantendo o jardim do Éden, aliás, todo ele é o jardim do Éden.

Uma balança inimitável que alberga o bem e o mal em cada um dos seus pratos, um cabaz encoberto, uma lista de compras.

E o ser humano, na sua multiplicidade de olhos, escolhe o ângulo por onde verá, um só prato.

O Supremo não é múltiplo, é uno e pela sua unidade, não há divisões, tudo é um todo, tudo é pertença a si.

 

Libera me, Domine, de morte aeterna

 

porque tudo o que procuro nesta constante queda é a finitude.

publicado por Ligeia Noire às 03:10

04
Abr 09


Just freedom is only a hallucination

That waits at the edge of the distant horizon

And we are all strangers in global illusion

Wanting and needing impossible heaven


Chasing the dream as they swim out to sea

The mirage ahead says that they can be free

Become lost in delusion drowning their reason

Swept on by the current of selfish ambition


Frightened ashamed and afraid of the blame

The questions are screaming the answers are hiding

The sickness is growing distracted condition


You can feel the disgust and smell the confusion

Lying insane getting soaked in the rain

Draining the sky of the guilt and the shame

The nightmare is coming the clouds are descending

Pulled under two thousand metres a second


Clawing at walls that just slip through my fingers

Darkness consuming collapsing and breaking

Distilled paranoia seeped into the walls

And filled in the cracks with the whispering calls


Shadows are forming take heed of the warnings

Creeping around at four in the morning

Lie to myself start a brand new beginning

But I'm losing my time in this fear of living


Freedom is only a hallucination

That waits at the edge of the places you go when you dream

Deep in the reason betrayal of feeling


The mistakes that I made tore my conscience apart at the seems

Freedom is only a hallucination

That waits at the edge of the places you go when you dream...


Freedom is only a hallucination

That waits at the edge of the places you go when you dream

Deep in the reason betrayal of feeling


The mistakes that I made tore my conscience apart at the seems

Freedom is only a hallucination

That waits at the edge of the places you go when you dream...

 

 Letra da autoria de Anathema/Lyrics by Anathema

publicado por Ligeia Noire às 16:37
etiquetas:

mais sobre mim
Agosto 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Fotos
pesquisar
 
arquivos